terça-feira, 22 de outubro de 2013

A Lenda de Caim, O Primeiro Vampiro


Conta à história bíblica que Caim era irmão de Abel, sendo os dois filhos de Adão e Eva (em outras versões Bíblicas, Caim era na verdade filho de Eva e Lúcifer que foi a serpente que induziu Eva a comer do fruto proibido levando Adão a desobedecer também, e por isso Deus o desaprovava em tudo que fazia). O primeiro cuidava da terra e plantava, enquanto o segundo cuida de animais e também caçava, trazendo a carne para mesa de sua família.
Certa vez Caim quis levar ao seu Deus uma espécie de oferenda, trazendo-lhe frutos que cultivava e seu irmão Abel também ofertou algo, levando como oferta uma ovelha de grande valor, pois era a primogênita de sua criação.
Com muito gosto, Deus aceitou o que Abel lhe trouxe, mas o presente de Caim não foi aceito de bom grado. O que gerou raiva e descontentamento por parte dele, afinal ofertara o que tinha de melhor, as melhores frutas geradas pelas melhores sementes, além do suor de todo o trabalho que havia realizado para cultiva-las. Mesmo assim as ofertas de Abel eram sempre bem aceitas e as de Caim não.
Assim Caim foi ficando cada vez mais bravo e desiludido com aquilo. E certo dia Abel foi chamado por seu irmão até um lugar afastado e quando menos esperava, Abel foi atacado por Caim, que o golpeou com uma pedra, até ver o sangue do irmão espalhado pelo chão e só parou quando ele jazia morto no chão envolto em uma poça vermelha. 
No outro dia, perante a presença de Deus, Caim foi questionado sobre o paradeiro de seu irmão, mas ele respondeu dizendo que não era seu cuidador e não sabia onde estava. Naquele momento tudo foi descoberto e amaldiçoado ele foi, como ninguém mais havia sido, afinal ele era primeiro assassino e deveria ser lembrado por sua maldade.
Dizem que Deus lhe amaldiçoou a vagar por esse mundo até os fins do tempo amargurando-se de seu pecado e por onde ele passasse flores e coisas vivas morreriam. Caim também não poderia mais contemplar a luz do Sol e sentiria a necessidade do sangue todos os dias, da mesma maneira que havia derramado o de seu irmão.
Durante muito tempo Caim vagou pelo mundo, afinal fora expulso de onde vivia. Até chegar a Node, onde conheceu Lilith, uma mulher que lhe ensinou as poderosas artes do sangue e com seu poder Caim construiu uma próspera cidade. Mas apesar disso ele não era feliz, pois tudo era passageiro e as pessoas que amava morriam logo. Dessa maneira ele resolveu transformar os humanos que lá viviam em seres como ele, assim surgiram os primeiros vampiros.
Três teriam sidos os transformados por Caim e esses transformaram muitos outros, criando uma grande linhagem de vampiros, mas então veio o Dilúvio e muitos pereceram. Depois que as Terras secaram, Caim acreditou que aquilo era mais um ato de Deus para puni-lo por criar os vampiros, dessa maneira ordenou a todos que parassem com aquilo e ele mesmo sumiu no mundo.
Porém os netos mataram os “filhos” de Caim, pois não queriam seguir as regras ditadas por ele. E assim os vampiros começaram a se espalhar pelo mundo, sendo que cada um dos sete netos criam seus próprios clãs, cada um com suas características e poderes. Durante muitos anos eles lutaram entre uns contra os outros, querendo cada um o poder para si.
Com o tempo as batalhas foram diminuindo e cada um foi com seu clã para um canto do mundo, dessa maneira os vampiros se espalharam pelo planeta, vivendo na sombra da noite e pegando os desprevenidos para virarem alimento.

De Caim não se tem mais noticias, porém dizem que os vampiros só não dominaram o mundo por medo de ele voltar e acabar com todos, pois mesmo odiando Deus, Caim o teme e não quer ter seu nome amaldiçoado novamente.

Paneta Morto





 História Paralela nº1
                                    Depois de um domingo de trabalho, Marcelo observa as ruas escuras de dentro do ônibus que o leva para casa. Com uma mochila no colo e fones no ouvido, ele está sentado em um banco duro ouvindo sua música preferida e imaginando uma vida perfeita…
                       O veículo para e uma jovem loura de óculos adentra o coletivo, passa a catraca e, observando brevemente os lugares disponíveis, senta-se ao lado dele. Sua chegada seria totalmente despercebida pelo cansado rapaz se a jovem não tivesse arremessado violentamente sua cabeça contra o banco da frente.
                       Marcelo tira um dos fones do ouvido, colocando uma das mãos sobre o ombro da jovem:
                       - Moça… Tá tudo bem? – ela levanta a cabeça com nítido esforço, sorrindo envergonhada, enquanto ajeita uma mecha de cabelos dourados:
                       - Sim, foi só um enjoo.
                       Ele deseja em silêncio que ela não vomite ao seu lado.
                       Poucos quarteirões adiante a loura começa a grunhir alto, chamando a atenção de quase todos os passageiros. Marcelo não ouve, pois está imerso demais em sua música, tocando uma bateria imaginaria enquanto pensa em si mesmo em cima de um palco.
                       Somente quando a jovem começa a agitar-se no banco e as pessoas se levantam, ele percebe que algo está errado. Retira os fones do ouvido e percebe que a garota ao seu lado parece convulsionar. Ele instintivamente afasta-se dela, colando suas costas na janela do ônibus, em desespero.
                        Uma senhora gorda, de cabelos pretos brilhantes, começa a gritar:
                        - Segura ela! Alguém segura ela! – sua voz fina e estridente em nada melhora os ânimos dos passageiros.
                        Outro homem que estava mais ao fundo adianta-se e segura a jovem, deitando-a no chão do veículo. Alguns observam curiosos, enquanto alguns desesperados começam a gritar. O cobrador grita ao motorista para que pare o ônibus, mas antes que seu pedido fosse atendido, uma viatura de policia e um caminhão de médio porte chocam-se em frente. O ônibus freia e todos, inclusive a garota que convulsiona, são atirados para frente pelo impacto da freada brusca.
                         Com o veículo já parado, outro grito chama a atenção.
                         A jovem que antes convulsionava aparentemente está consciente, seus dedos parecem querer perfurar os ouvidos do pobre homem que a ajudava e, para espanto de todos, a garota morde seu nariz, ignorando os golpes que ele desfere, em uma tentativa inútil de se soltar. Todos se afastam da cena. Marcelo, com a testa sangrando pelo impacto e o coração acelerado, tenta chegar até a porta mais próxima, que já está aberta.
                         Desviando das pessoas que agem como uma manada em fúria, ele chega até a saída, mas então vê algo que o faz seu corpo gelar.
                         Marcelo não é capaz de assimilar o ocorrido imediatamente, mas o ônibus está sendo invadido por pessoas que, correndo e grunhindo como demônios e com sangue por todo rosto e roupa, atacam todos que conseguem alcançar, devorando e arrancando membros vorazmente.

História Paralela nº2
                       Sonhos não colocarão dinheiro no seu bolso, homens sim’’”.
                         Minha mãe sempre dizia que uma garota bonita e de destino miserável igual ao meu só ganharia a vida de um jeito… Na cama de alguém. Talvez ela estivesse errada, mas esse foi o caminho que segui. Não me orgulho do que faço, mas sobrevivo.
                         Todas as manhãs ao acordar tenho esperança de que vou superar esse destino, seguir por um caminho que me levará até um bom lugar, uma vida pela qual valha a pena viver. Mas a noite sempre chega e, mais uma vez, deixo em casa quem sou e adoto a máscara da desonra…
                         Um palco, uma dança e uma cara sensual. A música embala meus movimentos lentos e ensaiados enquanto encaro um homem grisalho que me assiste da plateia. As luzes amarelas e vermelhas combinam com o cheiro de licor e sexo e eu combino com o dinheiro que é oferecido como porta de entrada para um lance maior…
                          A noite está quente e meu corpo está suado, arrepiando-se com o leve vento que entra pela pequena janela ao lado. Ouço vozes masculinas chamando meu nome… Amanda é como eles me conhecem aqui.
Garçonetes com pouca roupa servem drinks para os clientes que, no geral, são homens matrimoniados e bem de vida que gostam de luxúria fácil e explícita.
                          Levanto meus cabelos com as duas mãos, descendo vagarosamente até o chão… Minhas pernas doem e minha cabeça lateja. Esse não é meu melhor momento, mas aqui eu não tenho direito a momentos bons. Engatinho até o grisalho e danço de quatro para ele… Minha visão está turva. Concentro-me e tento parecer normal, sexy e descontraída…                                                                       É isso que ele deseja ver.
 ‘’Porco imundo’’
                          Meus joelhos parecem estar sobre cacos de vidro… Meu rosto se contorce de dor e mordo meu lábio inferior com força, fazendo-o sangrar. O gosto doce e enferrujado é tão forte que faz meus olhos lacrimejarem.
                          - Dança pra mim, gostosa! – ele ordena em meu ouvido, ignorando qualquer ferimento em mim.
                          Não posso. Meu corpo está sendo massacrado por uma força invisível que esmaga cada músculo que movo. Olho para ele com os olhos molhados e ternos, esperando que ele entenda que não continuarei o show. Com o apoio das mãos tento erguer-me, mas as mesas, cadeiras, homens e mulheres ao meu redor parecem  flutuar…
‘’O que está ocorrendo comigo?’’.
                          Sinto que vou desmaiar. Tombo para trás, deitada.
                          Meus olhos tentam se fixar no teto que roda acima de mim, mas minhas pálpebras pesadas e ásperas traem-me… Sinto-as como se rasgassem minhas pupilas.
- alguém… Socorro – balbucio com esforço nítido.
                          Uma voz feminina ecoa distante:
                          - Liguem pro socorro! Ela está tendo uma convulsão.
                          Posso ver rostos angustiados observando-me… Eles seguram meu corpo sem saber que o toque de suas mãos queimam minha pele.
                          Parem! Vocês não estão me ajudando! – eu tento dizer, sem sucesso.
                          Não tenho domínio sobre minhas ações e, aos poucos, um véu preto cobre meus olhos.
                          Escuridão.
                          Será que estou morta? Um calafrio percorre minha espinha, fazendo-me gelar…
                         ‘’Abra os olhos Jéssica’’
                          - Amanda, acorde! – Uma garçonete com quem eu costumo conversar grita para mim.
                          Minha visão ainda está embaçada, mas consigo vê-los à minha volta. Um cheiro doce e apimentado adentra minhas narinas e cavalga por meu corpo, rasgando meu estomago tão selvagem e intensamente que me faz gritar.
                          Eles afastam-se de mim com um olhar assombrado, dizendo coisas sem sentido.
                          ‘’O que está acontecendo? Não entendo o que estão falando!‘’
                          Será que estou sonhando? Isso se parece muito com um sonho…
                          Minha cabeça dói e meu estômago dilacera meu interior. Eu sinto raiva, fome, sede, ódio… Não consigo me controlar.
                          Minha visão finalmente começa a adaptar-se, mas onde estão as cores? Tudo que vejo são tons de cinza, preto e branco. Vou enlouquecer. Mexo meu corpo desesperadamente a fim de levantar-me e sair desse lugar maluco e de perto dessas pessoas inúteis e retardadas que nada fazem por mim.
                          - Eu vousodfrrr.
                          Eles me encaram e gritam… Não entendo nada! Como isso é possível?
                          - Me ajuddddsmrrr!
                          Minhas mãos agarram os cabelos e orelhas de um asiático que passa ao meu lado.
                          - Aaaarrrh
                          Uma das orelhas que puxo desgruda-se do rosto dele e rapidamente a levo até minha boca.
                          Eles tentam tira-lo de minhas garras, mas eu os afugento com urros que nem mesmo sei de onde vem… A carne que mastigo enquanto esmurro e abato minha refeição é maravilhosa, tão divina e viciante que não consigo pensar em nada que possa se comparar. Isso me faz bem!
                           - AAAAAAHRRHR
                           A cada pedaço que engulo meu corpo agradece diminuindo minhas dores e revigorando-me, mas eu sinto que preciso de mais e mais. Raiva e ansiedade dançam com minhas entranhas.                                                 
 ’’O que me tornei?’’
História paralela nº3
                       Amarrado em uma cadeira de madeira, José observa Ricardo acender algumas velas para iluminar o quarto depois do apagão repentino que os acometeu.
                       - Entenda, eu não queria machuca-la, mas minha exultação ultrapassou um pouco os limites de seu frágil corpo. Enfim, isso não importa… Gabriele sabe que as coisas que faço por ela são por amor. - Ricardo comenta tranquilamente.
                       José debate-se em mais uma tentativa frustrada de libertar o corpo das amarras, apenas ansiando poder correr até a pequena cama onde, desmaiada, sua pobre filha se encontra e, com braços ternos, abraça-la. Ricardo põe-se ao lado do corpo imóvel de Gabriele e acaricia os cabelos da garota de forma nitidamente atordoada.
                        - Tenho muito que lhe agradecer Sr. José… Sua filha foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. – ele levanta a fina blusa de cetim que ela está vestida, despindo seu ventre e busto – Tenho muito que ensina-la como professor e principalmente como homem.
                        Com um sorriso no rosto, ele passa a ponta dos dedos pelo umbigo da garota, deslizando-os até a cintura.
                         José fecha os olhos regados em lágrimas e sente seu peito apertar-se em uma grave aflição que percorre cada espaço de sua alma pagã. Toda a dor que já sentiu em sua complicada vida não é capaz de confrontar a angustia de assistir sua filha ser molestada e não poder agir e a culpa de nunca ter notado que o lobo morava ao lado, disfarçado de cordeiro, e apenas esperava o momento certo para atacar…
                         Gabriele começa a retomar os sentidos. Os grandes olhos azuis são despertos para dar continuidade ao terrível pesadelo que já dura mais de um sono. Ainda entorpecida, ela sente as grandes mãos quentes de seu professor colonizarem seu corpo. Com os pulsos enlaçados à cabeceira da cama, torna-se ainda mais vulnerável as malícias do homem que se deita sobre ela, beija seu pescoço e alisa suas pernas.
                         Aos poucos Gabriele é invadida novamente, estilhaçada em vários pedaços que jamais poderão ser colados… Não pode gritar, pois Ricardo a amordaçou assim como fez com seu pai, José. Ela clama a Deus em pensamento, pedindo misericórdia pela insanidade ali incumbida. A cada estocada que recebe, pede desesperadamente que Ele à leve embora, pois seu corpo está destruído e seu espírito humilhado.
                        Ricardo coloca mais força em seus movimentos e encara o rosto abatido de sua presa, sorrindo sobre seu pranto soturno. Ele abocanha um dos seios da molestada e os suga com violência. José chora, sufocando-se em seu próprio desespero.
                        Gabriele conserva-se imóvel. A água quente que escorre de seus rebentos molha todo seu delicado rosto. Ela fita seu querido pai, ansiando que ele não estivesse ali presente. Ricardo prossegue com a tortura, passando a boca para o outro seio… Seus dentes cercam o mamilo e o mordem com força, fazendo Gabriele gemer de dor e contorcer-se. Ele não para… Aperta o pedaço macio de carne e sem mais demora, arranca-o impetuosamente. Sangue espirra para todos os lados, denso e abundante. José agita-se furiosamente, caindo no chão. Ricardo suga o liquido viscoso que jorra do buraco feito no seio como uma maldita sanguessuga. Em meio à carnificina, ele retira seu membro rígido de Gabriele e, com rapidez descomunal, enfia dois dedos na garganta da menina, perfurando-a. Com a boca vedada, ela se afoga em seu próprio sangue, aliviada por finalmente morrer.
                          José grita abafadamente, batendo a cabeça contra o chão de granito em desespero. Seus pensamentos confusos se entrelaçam com tristeza e ódio. Ricardo deixa o corpo da garota de lado, e com os olhos vermelhos, pula da cama em movimentos desengonçados, porém ativos, atingindo a lateral do rosto de José com socos liquidantes, assolando a face e a vida do pai amargurado em poucos instantes.
                          Então, com as mãos sujas de morte, ele esmurra a própria cabeça, urrando e babando… Da forma mais assustadora possível, ele leva os pedaços moídos de José até a boca e os mastiga, soltando barulhos abissais que soam como uma gargalhada chorosa e bestial.

História Paralela nº4
                      Jacinto tem um armazém na zona portuária de Salvador. Ele vende farinha, fubá, café e outros gêneros alimentícios que ele compra na cidade alta e vende fiado para os pescadores, a preços que eles conseguem ir pagando devagar, mas conseguem. Ele é compreensivo, sabe que o dinheiro é pouco.
                      Entretanto, se existe algo que realmente sustenta sua família, permitindo que suas filhas tenham uma educação melhor que a dele, é a solidão dos homens que vivem do mar. Marinheiros vêm de longe, deixam suas casas e suas famílias em sua terra natal e vagam por um mundo brutal e estranho, os que não tem família são piores ainda, cães do mar sarnentos e amargos, estivadores são brutos e insensíveis e pescadores são montanhas russas, indo do júbilo de um bom dia de pesca à depressão de mais um amigo ou parente perdido nas ondas de uma tempestade.
                       Jacinto vende a bebida onde todos afogam seus problemas, incluindo ele mesmo. Ele teria muito mais dinheiro se não estivesse bêbado a maioria do tempo, perdendo as contas de quanto seus fregueses lhe devem, sendo estúpido e quase violento quando a filha mais velha, Janaína, tenta ajudá-lo a organizar o caderno onde ele tenta manter as dívidas dos clientes mais costumais em ordem. Mesmo assim ele consegue ser um homem decente a maioria do tempo, especialmente com as duas filhas.
                       O velho Jacinto odeia violência, desde sempre, na verdade ele tem uma alma covarde, e somente na defesa de seu armazém e de suas filhas ele é capaz de puxar o calibre 38, presente de um primo policial. Algumas vezes os marinheiros mais bêbados precisam de uma “ajuda” para lembrar e que não devem brigar dentro do armazém, então ele apenas grita e sacode a arma acima da cabeça, sem nenhuma habilidade ou vontade de usá-la.
                       Sempre existem histórias e notícias no porto, e os bares são os lugares onde rumores se tornam fatos e fatos são distorcidos em lendas por bocas alcoolizadas e carentes de atenção. Jacinto as escuta com toda a atenção fingida que ele aprendeu a desenvolver através dos anos, faz parte do trabalho. Eles não pagam somente pela bebida, pagam também pelo direito de chorar suas mágoas com o garçom. Um marinheiro de um cargueiro alemão conta, entre soluços e tropeços no português, sobre como sua esposa o largou por um “begegnen“.
                        - Fala em português, não mistura a língua, porra do caralho! A voz de Jacinto zomba da dificuldade do marinheiro, que começa a tossir e se contorcer de uma dor súbita.
Janaína está ajudando o pai naquele começo de noite. Ela trabalha em um escritório de contabilidade como recepcionista e namora um dos contadores, que, apesar de ser mais de dez anos mais velho que ela, é um homem fascinante, que a completa totalmente. Apesar do desgosto do pai em relação ao namoro, ela o mantém, em parte pelo prazer de desagradar o pai.
                         - Pai ele tá passando mal, para de dar risada!
                         Jacinto demora menos de vinte segundos para se recompor, mas foi tempo demais.
                         Outro marinheiro, colega do homem que contava a história, larga sua cerveja e vai ajudar o amigo que se contorce em cima do balcão e quando o dono do bar se aproxima deles para ordenar que o desgraçado fosse vomitar lá fora, de preferência no mar, ele vê a cena mais escabrosa de sua vida, que o perseguiria em seus sonhos pelos anos que seguiriam.
                          O marinheiro doente estava com a cabeça apoiada no ombro do outro, da mesma maneira que um bêbado faria, mas a farsa acabou quando o jato rubro de sangue arterial esguichou feito espuma do mar, manchando até o teto do bar e gerando uma série de gritos desesperados, do homem mordido, das pessoas ao redor, da pobre Janaína, que não consegue tirar seus inocentes olhos da carcaça do homem sendo devorada por seu próprio amigo, seu irmão do mar.
                           Ele precisa de alguns segundos para entender o que deve fazer, pega o calibre 38 de seu esconderijo debaixo do balcão, coloca-lo no topo da cabeça daquele mostro disfarçado de homem, o demônio estava distraído demais com seu banquete para se incomodar, puxa o cão da arma para trás e aperta o gatilho.
                           É a primeira bala que aquele 38 dispara, em mais de quinze anos que ele está de guarda naquele armazém.
                           Jacinto está tremendo, não foi à mão dele que disparou aquela arma, foi o medo. O medo que ele sempre teve de que não fosse homem para sua esposa, que não seria capaz de criar suas filhas depois da morte dela, que ele não seria capaz de lidar com álcool, com o medo daquela aberração que apareceu em seu bar. Ele sente o cheiro e o calor e sabe que se urinou nas calças. Mesmo assim a primeira coisa que ele pensa é em cobrir os olhos de Janaína para que ela não presencie mais do inferno que se instaurou naquele humilde boteco.
História Paralela nº5
                               Outra noite cobre os céus, tão densa e assustadora quanto todas as outras antes dessa, mas a pequena Isabelle sente que o vento gelado que entra pela janela está levemente diferente. Sua mãe, que parece mais morta que viva, balbucia com esforço algumas palavras incompreensíveis. A garota aproxima o ouvido da boca da mulher para tentar ouvir melhor:
                         - o que a senhora disse? – pergunta. A respiração quente e fraca da mãe coça-lhe a pele.
                            - á-água.
          - Vou pegar água pra você… – disse – Ah, e não se preocupa com o papai… Daqui a pouco ele vai chegar pra cuidar de você também. Ele só tá demorando porque hoje tem futebol na televisão. Ele sempre assiste ao jogo no bar com os amigos dele, né?
Mesmo sem conhecer a palavra e seu significado, todas as perguntas de Isabelle para a mãe são retóricas. Respirou fundo e, engolindo um possível choro, foi buscar a água. Da parede entre a sala e a cozinha um grande relógio grita que já passa da meia noite. Um calafrio gelado percorre as costas da garota, fazendo-a tremer de baixo a cima. Não gosta de relógios. Eles são os acusadores de que o tempo passa e tudo que ela ama vai embora.
‘’- Sua mãe não tem muito tempo de vida sobrando, mas não posso pagar um hospital ou alguém para cuidar dela, então você vai fazer isso‘’.
Maldito tempo que passa tão depressa… Deseja intensamente que algum dia alguém cuide dela, ou que pelo menos possa voltar à escola e ser uma criança normal. Faz muito tempo que não sabe o que é ser criança. A ultima memória que tem de ter sido feliz é de algum tempo atrás, na casa de sua avó. Isabelle ama aquele lugar como ama poucas coisas na vida. Uma velha casinha com jardim nos fundos, onde uma grande arvore carrega um balanço colorido. Bons tempos que se foram. Tem vontade de chorar ao lembrar-se, por isso evita pensar. Volta para o quarto carregando um copo d’água e, com a maior delicadeza e habilidade possível, dá de beber a moribunda que um dia foi sua mãe. Um dia que ela não se lembra, pois era muito pequena. A mulher quase não bebe nada, mas parece acalmar-se depois disso. Isabelle coloca o copo sob o criado mudo e vai até a janela contemplar a vista da rua, que é iluminada por alguns poucos postes de luz. Ao fundo, dobrando a esquina, uma figura caminha cambaleante. O coração da garota da um salto ao agarrar-se a esperança de que possa ser seu pai. Debruça o corpo para frente e observa com mais atenção. Ela identifica a figura masculina de seu genitor.
- Ele chegou! O papai chegou mãe! – grita. A mulher parece não ouvir.
Eufórica, Isabelle sai do quarto e corre até a porta da sala, abrindo-a. Então, sem conseguir controlar-se, chama:
                           - Pai? É você? – diz aos pulos.
A figura, atraída pela doce voz aguda da criança, começa a andar mais rápido. Isabelle não estranha o jeito torto do caminhar do pai, pois ultimamente ele tem bebido demais. Mais do que sempre.
Ao chegar à entrada da casa, o rosto do homem fica visível. Definitivamente é ele. Finalmente chegou em casa e a garota poderá desfrutar de uma companhia de verdade por alguns instantes, antes que ele desabe em qualquer canto e durma roncando como um porco gordo. Está tão feliz que não nota as pequenas manchas de sangue na roupa de seu pai e a enorme ferida que tem em uma das mãos.
                              - Pai, ainda bem que você chegou… Não aguentava mais esperar. Adivinha o que aconteceu hoje? – e antes que a animada Isabelle pudesse começar a contar como foi seu dia e desabafar suas longas histórias ele ajoelha e abraça-lhe.
Com uma onda de surpresa ela retribui… Está um tanto assustada, mas carente demais para questionar. Não está acostumada com abraços. Mas algo está estranho… O abraço se prolonga e começa a ficar muito apertado. Sufocante. Ela sente o ar faltar nos pulmões e os ossos estralarem. Tenta livrar-se dos braços fortes do pai para respirar, mas como um cão raivoso ele morde-lhe a garganta, arrancando um enorme pedaço de pele e músculos. A garota sente uma dor fina atingir seu pescoço, seguida por um choque elétrico que percorre suas veias enquanto, aos poucos, uma cortina preta desce sobre seus olhos. Com o olhar confuso e distante Isabelle avista o relógio acusador na parede. Ele não acusa mais. Está girando os ponteiros e mostrando que seu tempo está quase no fim. Pensa na mãe, na avó, no balanço colorido… O pai muda o foco da violência e agora desfere mordidas sobre os ombros e braços da filha que, anestesiada, quase não sente nada. Não sente medo. Apesar de entender que está em uma péssima situação, sente-se em paz. Suas têmporas estão pesadas demais e algumas lágrimas escorrem descontroladas. Finalmente pode fechar os olhos sem preocupar-se em como será o amanhã. Com um último suspiro e um pensamento feliz, recebe seu futuro de braços abertos. Seu tempo zerou.
História Paralela nº6
                                    O corpo se debate com força na água enquanto é sugado para o fundo do oceano, deixando uma mancha vermelha na água límpida banhada pelos primeiros raios de sol.
- Cara, o que você fez? – Paulo observa a cena com espanto.
Diego tem meia dúzia de olhos arregalados grudados nele. Os planos de diversão estão afundando assim como o amigo que ele acabara de matar.
- Você enlouqueceu! – Beatriz berra aos prantos repetidamente.
- Ele me atacou! Vocês estavam aqui… Vocês viram! – Diego contorce o braço ferido que pulsa sangue pela mordida profunda.
- Isso não justifica o que você fez cara… Ele era seu amigo – Paulo observa enquanto o iate se afasta do local onde o corpo foi jogado.
Diego sente um forte enjoo atingir seu estomago. Cambaleia até a lateral do barco e coloca a cabeça para fora, vomitando um liquido fino e avermelhado. Seus olhos lacrimejam e um gosto enferrujado de sangue cobre seu paladar.
A manhã está ensolarada, e o cheiro salgado do mar que o vento trás é forte e selvagem. O cais está ainda distante.
Beatriz manuseia o celular desesperadamente em busca de sinal, mas seu esforço é em vão. Ela joga o aparelho em um canto qualquer, nitidamente perdendo o autocontrole.
- Nós estamos muito ferrados, definitivamente ferrados.
- Eu não acredito que isso está acontecendo – Paulo anda de um lado para o outro com as mãos na cabeça, tentando achar uma solução para o problema.
- Não… Vocês não fizeram nada, eu fiz – Diego tenta acalmar a situação e acalmar Beatriz, aproximando-se lentamente dela. Anos de namoro deram a ele conhecimento suficiente para saber que ela iria surtar.
- Não chega perto de mim, assassino! O que você quer comigo? Me matar e depois jogar meu corpo no mar também?
As palavras o acertaram em cheio, emergindo lembranças que há muito haviam adormecido em um canto esquecido de sua mente.
- Escuta o que você está dizendo… Eu jamais te machucaria – Falou tentando segurar as lágrimas que ameaçam quando o que menos queremos é demonstrar fraqueza.
- Eu sei exatamente por que você fez isso… – ela rosna enquanto arranca à aliança de compromisso que Diego havia comprado três anos atrás – Você matou o Caio porque descobriu que nós estávamos juntos, não foi? Você descobriu que a única coisa que eu sinto por você é pena! Três anos aguentando seus problemas apenas por dó, mas agora isso acabou – Ela encara o anel por uns segundos e então o atira na água – ACABOU!
Diego fica paralisado. Seus pés parecem pisar em um chão gelatinoso, e o sol forte que clareia todo o recinto lhe parece esverdeado, sem vida. Todas as lembranças felizes dos anos que passou sem desconfiar de tal traição rodam em sua cabeça.
Sua boca é incapaz de pronunciar qualquer palavra.
Ele fita os olhos de Beatriz, mas já não encontra a mulher que dava sentido em sua vida. Encontra apenas dois lindos olhos castanhos cheios de ódio e repulsa. Sente-se envergonhado e enganado.
Por um momento questiona-se se isso é um sonho, mas o balanço do mar e o sangue espalhado pelo chão do iate deixam claro que não. Sua vida realmente está desmoronando.
Um barulho atrás dele o tira do transe.
Beatriz encara algo atrás de Diego com os olhos arregalados. Ele se vira rapidamente para saber o que está acontecendo e é atingido por uma pancada no rosto.
Ele cai, perdendo a visão por alguns milésimos de segundo.
- Acerta mais forte! – ele ouve Beatriz gritar. Não enxerga o agressor, mas sabe que é Paulo, seu irmão. Outra surpresa desagradável.
E então é atingido novamente, mais uma vez e outra vez mais, sentindo a vida esvanecer-se de si lentamente até perder a consciência.
Beatriz e Paulo ficam em silencio, observando o corpo desacordado de Diego. A preocupação é densa, e o terror está claramente estampado em seus olhares, mas eles repetem mentalmente, em uma tentativa chula de amenizar o pânico, que o rapaz apenas desmaiou e que ninguém mais morrerá ali hoje.
Paulo deixa os dois para trás e caminha angustiado até a proa do iate. Observa atentamente o porto, agora a poucos metros de distancia.
Suas veias congelam e por alguns instantes acredita que perdeu a lucidez.
O porto está destruído, pequenos barcos estão praticamente de ponta cabeça e focos de incêndio podem ser vistos ao longe, atrás das casas e prédios da orla.
Nenhuma pessoa ou ser vivo à vista. Apenas carros espalhados por todos os cantos e lixo por todos os lados. A praia está totalmente abandonada, e o cenário parece saído de um filme apocalíptico.
Beatriz se aproxima, hipnotizada com a visão de uma guerra.
- Meu Deus… – ela sussurra boquiaberta.
Embora possam ouvir sirenes ao longe, custam a encontrar algo que possa ter causado tamanha destruição. Estiveram fora por apenas três dias!
- O que aconteceu por aqui…? – Paulo solta a frase no ar – O que vamos fazer? – Alterna a visão entre o corpo de Diego e o cais. Já não sabe mais distinguir o certo e o errado. Primeiro a morte de Caio, depois apunhalara o próprio irmão, e então a ruína desse lugar. Tudo isso está pirando sua razão.
- O deixamos aqui e vamos embora – Beatriz sugere sem desviar o olhar da destruição enorme daquele lugar maravilhoso – Ligamos para a polícia do telefone do Hotel. Acho que essa vai ser a menor preocupação deles agora.


Paulo arrasta o corpo do irmão com certa dificuldade e o coloca em um canto acobertado do iate, certificando-se de que fique bem protegido.
- Ele foi obrigado a fazer aquilo… Caio estava totalmente fora de controle, rosnando e babando feito um cão raivoso. Eu teria feito o mesmo – diz enquanto se corrói em ansiedade.
Beatriz está desembarcando.
Paulo faz o mesmo, evitando ficar sozinho com a presença acusadora do irmão.
- Maldita hora em que resolvi fazer caridade e aceitar as investidas do seu irmão… Se ao menos ele fosse… – Um puxão violento no braço cessou sua frase e a fez cambalear.
- Muito cuidado com as suas próximas palavras… Eu ouvi tudo que você disse pra ele lá em cima e não vou esquecer. Não me interessa que tipo de relacionamento doentio você e Caio escondiam, mas agora ele está morto e meu irmão está fodido, entendeu a situação? É melhor você colaborar – Paulo sussurrou ameaçadoramente em seu ouvido e então a soltou com um empurrão.
Beatriz sente-se humilhada. Lágrimas de raiva acumulam-se em seus olhos e um ardor característico queima-lhe o peito. Sua cabeça fervilha raivosamente, mas ela mantém-se impassível por fora.
Eles caminham em silencio até chegar à avenida principal.
- Apavorante… Parece que alguma coisa muito grande aconteceu enquanto estávamos fora– Paulo comenta ao chegar ao local.
As calçadas estão cobertas por papéis e lixo. A maioria das casas parece intacta, embora uma ou outra apresentem sinais claros de invasão. Os carros abandonados com as portas abertas chamam a atenção. Eles se aproximam com cautela, observando atentamente o interior de um dos veículos.
- Que idiota largaria o carro no meio da rua desse jeito? – Beatriz questiona-se.
- E com a chave na ignição… – Paulo ressalta.
Por alguns momentos esqueceram seus problemas maiores e deixaram-se levar pelo susto surreal de encontrar um local urbano abandonado de ponta cabeça.
Um cheiro distante de queimado pode ser sentido, embora o foco do incêndio não seja visível.
- Onde está todo mundo? Não vimos ninguém desde que desembarcamos.
Paulo sente um desconforto na boca do estomago. Algo está muito errado e ele sabe.
- Não faço ideia, mas não parece coisa boa – Ele teme pelo pior.
Logo um estouro ensurdecedor os atinge, fazendo-os empalidecer de susto.
- Mas o que…? – Ela observa as chamas consumirem dois carros no fim da avenida.
O acidente foi rápido.
Em um momento tudo estava vazio e quieto e então dois carros chocaram-se bruscamente, saídos sabe-se lá de onde.
- Puta merda! – Paulo corre para o local do acidente, impressionado com o tamanho do fogo e do estrago.
- Espere! – Beatriz grita, mas ele não dá ouvidos.
O clarão das chamas é intenso. Paulo sente o calor aumentando a cada passo, fazendo-o suar. Do fundo, Beatriz tem uma visão ampla da avenida, agora interditada pelo incêndio e destroços.
Ela aperta os olhos duas vezes para ter certeza de que não está sendo trapaceada pela adrenalina do momento.
- Impossível… – diz boquiaberta.
Varias silhuetas formando-se dentro do fogo vão aparecendo. Uma após a outra, e logo uma dúzia delas podem ser apontadas.
- Impossível… – repete em transe, sem nenhuma reação.
Paulo diminui o passo, pois o calor chegou ao seu limite. A breve distancia em que se encontra das labaredas não o deixa perceber o perigo.
O rapaz é surpreendido por vários indivíduos inflamados saindo das chamas.
- Meu deus do céu… – ele exclama.
Beatriz permanece intacta. O medo a prende no chão.
Paulo caminha de ré, incapaz de tirar os olhos daquela cena perturbadora. As tochas humanas caminham rápido em sua direção, como se ele fosse capaz de acabar com seu sofrimento.
Ele continua recuando. Conforme avançam os corpos caem no chão, totalmente carbonizados e impossibilitados de andar… Ou viver.
Beatriz inspira aceleradamente, mas sente que nenhum ar entra em seus pulmões. Mais e mais corpos vão se formando nas chamas, e a cena torna-se irreal.
Paulo, agora mais distante do incêndio, começa a perceber a gravidade da situação. Vira-se para correr daquele lugar infernal, mas é pego por uma visão obscura.
Uma aglomeração de pessoas ensanguentadas cobrem as costas de Beatriz, que parece não perceber.
- Atrás de você! – ele grita e gesticula. Sua voz sai rouca e abafada, mas ela entende seus sinais.
Vira-se com receio do que possa encontrar atrás de si. Sua mente está sobrecarregada de estresse e medo. Dúzias de pessoas com aparência funesta estão a menos de um metro dela, rosnando e babando.
Ela pergunta-se como não os ouviu, mas não chega a nenhuma conclusão, pois é atacada cruelmente por mãos e dentes que a rasgam e ferem sem piedade. Seu grito é afogado pelo sangue que jorra de sua garganta. É esquartejada dolorosamente, mas nada se compara à dor que deixou em Diego.
Os que não conseguem alcançar Beatriz caminham na direção de Paulo. Vagarosa e angustiadamente.
- NÃO! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? O QUE QUEREM? – Ele berra desesperado, chorando como um bebê.
Está num beco sem saída. Não tem para onde correr ou se esconder. O fogo e as pessoas moribundas trancam todas as suas escapatórias. Nenhum carro ou casa abertos ao alcance, nenhuma ajuda externa… Cada segundo que passa tentando formular uma solução o aproxima do pior.
Lembra-se de sua família, lembra-se do irmão. Uma dor atinge seu peito de forma irreparável.
Todas as coisas que planejou fazer não serão feitas. A culpa que carrega no peito não será aliviada, e não existe nada que possa ajuda-lo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pirilampo

Eu peço seu perdão, pois há muito que falar sobre a arcanista, e eu sou o único que pode contar toda a sua história. Este é meu fardo, bem como o que me aguarda depois. O final não é um grande mistério. Está escrito nas pedras estilhaçadas e paredes esfaceladas ao nosso redor e é sussurrado nos boatos que saem de todas as bocas.
Mas, quando o assunto é magia, nada é tão simples, e esteja certo de que o que você viu e ouviu não é toda a história.
Enquanto eu convalescia em minha cama, após os médicos descartarem risco de vida, eu não tinha nada para fazer além de revisitar as lembranças distantes dos dias antigos, em busca do padrão que prenunciasse esta grande catástrofe. Eu a conheço melhor do que qualquer um, melhor do que ela própria, embora ela jamais vá admitir isso. Ela pode muito bem ser a mais poderosa arcanista de nossa era. Seu coração é puro e ela não quer nada além de fazer o bem, mas ainda é tola às vezes e se crê invencível. Erros da juventude e da genialidade. Não há regra que ela não quebre, e ela jamais entendeu o significado das palavras “não pode” e “não deve”. Foi assim desde que nos conhecemos, há tantos anos.
Em um dia parecido com este.
Isendra, a feiticeira, veio até meus aposentos trazendo uma jovem à sua frente. As duas eram tão diferentes quanto fogo e gelo. Isendra tinha uma aparência régia e resplandecente, vestida numa bela túnica verde, coberta de joias de ouro, enquanto a jovem parecia um pássaro amedrontado e curioso com a cabeça indo de um lado a outro e os olhos disparando por toda parte, fascinados pelos objetos em volta: os livros nas prateleiras, as fileiras de frascos cheios de líquidos e pós estranhos e os instrumentos arcanos cujo uso era um mistério para mim. A túnica da jovem não passava de trapos rotos e manchados de suor e poeira. Ela passaria facilmente por uma das crianças de rua que atormentavam os mercadores ricos no bazar de Caldeum. Seus cabelos negros eram um ninho de passarinho, embaraçados e quebradiços, empastados de lama e pó como o resto. Sua pele estava queimada de sol e seus lábios estavam rachados e descascando.
— Então esta é a garota? — perguntei a Isendra, olhando para a criança andrajosa diante dela.
Isendra olhou para a garota, hesitante.
— Eu a encontrei no pátio duelando com Mattiz, Allern e Taliya.— A voz da feiticeira evidenciava irritação.— Eles estavam ansiosos para aceitar o desafio.
— Ela não parece machucada — respondi. — E quanto aos outros?
— Mattiz e Allern estão sendo atendidos pelos médicos. Taliya machucou somente o orgulho próprio.
A menina sorriu ao ouvir aquilo.
— Talvez tenha sido melhor assim — observei. — Aqueles três bem merecem uma lição de humildade. Falarei com eles mais tarde.
— Mas você vai falar comigo agora, vovô — disse a menina. Ela tinha uma voz forte de comando, amplificada pela coragem nascida da confiança infantil.
— Ela fala! — comentei e sorri para Isendra.
— Ah, fala — disse Isendra, secamente. — E bastante.
— Quem é você? — perguntou a menina. — Por que você me trouxe aqui?
— Eu sou Valthek, alto conselheiro dos Vizjerei e mestre dos clãs de magos do Santuário Yshari.
A menina ficou em silêncio por um bom tempo, me observando.
— Você? — ela perguntou por fim.
Eu ri.
— Diga-me, menina, quem é você e por que você veio? Com certeza você ambiciona algo mais do que mandar meus aprendizes para a enfermaria.
— Meu nome é Li-Ming. E eu não sou uma menina. Eu sou uma arcanista.
— Eis aí uma declaração ousada — ironizei. Tive que me esforçar para conter o riso ao ouvir a menina usar o título de “arcanista”, reservado apenas aos magos mais famosos da história, sempre citados pelo povo e pelos conhecedores das artes arcanas com medo e pavor.
— Não são só palavras — retrucou Li-Ming, com um tom sinistro.
Ergui a mão para acalmá-la e disse:
— Então me mostre.
Eu mal acabara de falar quando um forte sopro de vento cruzou a minha mesa, espalhando todos os papéis, livros e tinteiros e derrubando tudo no chão em um monte desordenado. Minha expressão permaneceu neutra, e foi interpretada pela menina como um pedido de bis. Li-Ming abriu os braços e criou duas bolas de fogo na palma das mãos. O fogo se insuflou até o teto, a explosão de ar quente soprou seus cabelos em desalinho, e as chamas refletiram naqueles olhos castanhos.
Eu dei de ombros, dizendo:
— Um mero truque de palco.
Li-Ming rilhou os dentes, frustrada. Fechou as mãos e as chamas desapareceram, embora o calor persistisse. Com outro movimento do braço, serpentinas incandescentes, vermelhas e cor de laranja, ganharam vida e dançaram em cima de minha mesa. A jovem moveu o braço novamente e fileiras de livros saíram das prateleiras e ficaram suspensos no ar. Ela os fez flutuar numa fila pela sala e eles a cercaram girando como se capturados por um redemoinho. Então, empilhou os livros um a um, no formato de um trono, sentou-se nele e me encarou.
A novata ergueu uma sobrancelha e eu respondi com um aplauso comedido.
— Isso é o melhor que você pode fazer, menina? — perguntei. Movi a mão displicentemente e as chamas em minha mesa se apagaram. Os livros em que ela se sentava caíram no chão, desordenados. Li-Ming se levantou com um pulo e evitou cair junto com o trono. — As pessoas temiam os magos chamados arcanistas. Eles deixaram o mundo à beira da destruição muitas vezes, e seu imenso poder incontido fazia a terra tremer com seus planos. Eles se associavam com demônios do Inferno Ardente e faziam pactos para condenar todos nós. Trapaceavam a morte e destruíam o próprio tecido da realidade. Você bagunçou os objetos de um velho e ateou fogo numa mesa.
— Eu consigo fazer mais — argumentou ela, defensivamente.— Um dia eu vou ser a maior arcanista do mundo.
— Pela minha experiência, é possível esperar um longo tempo por esse dia e ainda se desapontar quando ele finalmente chega.
— O senhor ouviu falar do milagre do Vale do Rio das Garças?
— Eu ouvi falar dessa história. Algo sobre uma seca, e uma jovem que tentou melhorar as coisas — respondi distraidamente. — Parece que chamaram essa menina de arcanista.
— Essa arcanista sou eu — orgulhou-se Li-Ming. — Fazia meses que não chovia e o Rio das Garças tinha secado quase completamente. Os campos tinham secado. O povo do vale achava que não havia nada a fazer a não ser esperar que os deuses nos salvassem. Mas eu sabia que podia fazer o que os deuses não podiam.
— É mais prudente não falar dos deuses tão levianamente. Você verá.
Li-Ming ignorou meu comentário e continuou:
— Eu procurei por toda parte. Coletei água de poços no fundo da terra e dos últimos fiapos de água que restavam em leitos de rio rachados. Juntei toda a água que consegui e a lancei ao vento para criar uma tempestade. Nada aconteceu a princípio, e as pessoas me chamaram de tola por ficar agitando os braços e orando por chuva. Mas eu sabia. As horas se passaram e o céu escureceu. Nuvens cinza diáfanas apareceram, preenchendo o horizonte e aumentando de tamanho até obscurecer o sol completamente. As nuvens pesadas de chuva ficaram da cor da noite, e suas sombras se espalhavam pelos vales. Os que tinham rido começaram a acreditar. O som de trovão ecoou de todas as direções e clarões de luz acenderam as nuvens por dentro. O ar ficou úmido e eu senti o frescor na pele. A névoa desceu das montanhas e tornou-se garoa, a garoa tornou-se chuva, que se tornou um aguaceiro. A terra bebeu tudo e o Rio das Garças voltou a fluir. Isso é o que eu posso fazer.
Isendra parecia incrédula. Ela disse:
— Nenhuma criança conseguiria fazer isso.
— Só porque você não consegue não quer dizer que eu não consiga — disse Li-Ming à feiticeira, duas décadas mais velha.
— Eu também não acreditei, a princípio — expliquei a Isendra. — Mas ouvi as histórias a respeito. Aconteceu exatamente assim. Exceto por alguns detalhes que ela não mencionou.
O sorriso desapareceu do rosto de Li-Ming, embora seu queixo ainda estivesse erguido em desafio. Insisti:
— Depois que a chuva veio e passou, a seca voltou nos meses seguintes, pior do que antes. As pessoas apontaram os dedos para a arcanista que havia trazido à chuva e a culparam de tudo.
Com a voz suave, Li-Ming explicou:
— Os que tinham me louvado exigiram que eu fosse expulsa. Meu pai e minha mãe concordaram. Eu só queria ajudar. Não sabia o que iria acontecer.
— As pessoas não confiam em magos. Elas temem o que não compreendem. Qualquer mago treinado no Santuário Yshari saberia dos perigos envolvidos no que você tentou fazer. — Ofereci um sorriso à menina e continuei.— E devo dizer... Se eles tivessem tentado a mesma coisa, não creio que teriam conseguido nem metade do que você fez.
Li-Ming percebeu minha mudança de atitude e pediu:
— Então me ensine.
— Eu considerei isso. Mas agora que a conheci, não tenho certeza se você tem o que é preciso para estudar aqui. Você tem muito a aprender, mais ainda a desaprender, e não sei se você tem força de vontade para ir até o fim.
— Você não sabe o que diz! Eu sou mais forte que os seus aprendizes. Traga todos aqui e eu vou lhe mostrar! Eu enfrento até você se for preciso, vovô. Não importa. Atravessei mar e deserto para estudar aqui, e eu vou.
— A decisão não é sua. É minha — afirmei.
— Deixe-me ensiná-la — Isendra interrompeu abruptamente.
— O quê? — indaguei.
Li-Ming olhou desconfiada para a feiticeira.
— Tem algo diferente nessa menina. Como você disse, pode não dar em nada, mas eu e você vemos potencial nela. Pode acontecer, um dia, de nós precisarmos dela, e então nos arrependeremos de tê-la mandado embora. — Isendra sorriu. — E talvez eu veja um pouco de mim nela.
Li-Ming sacudiu a cabeça e reclamou:
— Eu não quero você. Quero que o vovô ali me ensine.
Isendra franziu a testa.
— Você devia estar feliz. Eu lutei contra os Senhores do Inferno quando você não passava de um brilho no olho do seu pai. E não fiz isso para acabar ensinando magia a uma criança mal-educada, mas eis a minha oferta.
— E minha resposta é não — desdenhou Li-Ming.
Eu fiquei em silêncio enquanto considerava se devia permitir tal parceria. Isendra não tinha páreo em suas habilidades e era quase como eu. Toda a sua experiência com certeza fascinaria a menina e prenderia sua atenção. Mas eu tinha algumas preocupações.
— Quietas, as duas — exclamei ao me levantar. — O conhecimento de Isendra sobre magia Elemental rivaliza com o meu, e creio que vocês descobrirão que têm muito em comum. Não poderia haver melhor professora. Se eu fosse você, rezaria para que Isendra não reconsidere a oferta. Aceite-a, ou então vamos ver como você se sai sozinha. A história está cheia de arcanistas esquecidos que nunca
Deram em nada.
Li-Ming mordeu o lábio e resmungou:
— Eu não posso opinar?
— Não — respondi. — Não pode, não.
Aquele foi nosso primeiro encontro, e eu ainda me lembro bem de tudo. Isendra dedicou-se ao papel e tornou-se mentora de Li-Ming, que, por sua vez, adquiriu um profundo respeito pela mestra. Elas eram mais parecidas do que Isendra ou eu suspeitávamos. Mas Li-Ming logo exauriu o conhecimento da mentora. O relacionamento delas mudou e Li-Ming passou a tratar a feiticeira mais como uma igual do que como uma professora. Isendra também estava mudando, e isso me preocupava. Ela era muito permissiva com o comportamento da jovem. Sem ter o que aprender, Li-Ming seguiu a curiosidade natural que sempre a instigara, e então os problemas começaram.
Quando surpreendi Li-Ming fuçando as prateleiras da biblioteca que abrigavam textos proibidos, considerados perigosos demais para estudo, percebi que precisava agir. Assumi o treinamento de Li-Ming apesar dos protestos de Isendra e passei a vigiá-la de perto. Tentei estruturar e disciplinar a vida de Li-Ming e apresentar a ela uma linha de estudos que levaria seus interesses para áreas mais aceitáveis.
Sem a responsabilidade de ensinar Li-Ming, Isendra já não tinha muito o que a prendesse no Santuário Yshari e agora passava poucos dias ali. No entanto ela permaneceu uma grande amiga, e seus conselhos sempre foram valiosos. Quando nós três nos reencontramos muitos anos mais tarde, Isendra havia começado uma nova vida longe do Santuário e de sua antiga estudante.
Eu gostaria de poder contar com sua sabedoria agora.
O verão deveria ter dado lugar aos dias frios de outono e inverno, como é a ordem natural das coisas, mas depois de um ano o calor sufocante continuava desde os confins do império ao sul até as Estepes Áridas ao norte. Ainda era o começo do reino do Imperador Hakan II, e os supersticiosos falavam sobre aquilo ser um mau presságio para o governo. Mesmo no deserto o clima piorou de forma nunca vista. O calor implacável cobria tudo. Tempestades de areia e redemoinhos grassavam pelos ermos escaldantes. Os Mares de Areia faziam jus ao nome. As dunas se moviam criando um cenário inconstante,
Desencavando enormes protuberâncias de pedra com bordas afiadas o suficiente para rasgar carne e osso como dentes monstruosos se erguendo da areia quase tornara vermelha como se tingida de sangue. O deserto engoliu vilarejos inteiros, deixando apenas alicerces nus de pedra ou algumas paredes de lama onde antes havia casas.
Mais um ano se passou e o verão não dava sinais de acabar. O império secou. Mandei uma mensagem para Isendra, pedindo que ela investigasse possíveis causas para aquele clima. Saí de Caldeum e fui para o coração do deserto junto com Li-Ming para tentar descobrir alguma pista.
Vários meses se passaram, mas estávamos voltando para casa com mais perguntas do que respostas. Li-Ming e eu viajávamos de camelo, e um dia Lut Bahadur lentamente apareceu no horizonte. Era uma das maiores cidades das Fronteiras, em um trecho de deserto onde a vida era possível, embora não fosse fácil. O calor parecia algo vivo, se enterrava bem fundo sob nossa pele, eliminava qualquer lembrança do frio. Eu usava vestes leves de algodão com um capuz e protegia o rosto das tempestades de areia com um lenço de pano que deixava meus olhos descobertos. Li-Ming já havia se tornado uma jovem mulher então. Os traços de inocência infantil tinham-se apagado e ela agora possuía uma expressão séria que dava lugar, às vezes, a um sorriso insolente bem ensaiado. Li-Ming usava suas melhores roupas, apesar do calor, usando magia para suportar o incômodo.
— O fim de nossa busca se aproxima, Li-Ming, e no entanto não estamos nem um pouco mais perto de resolver o mistério desse verão sem fim — eu disse, enquanto seguíamos.
— Eu não sei explicar, Mestre. Creio que algo está consumindo o deserto. Parece que os limites da realidade estão enfraquecidos, como quando olhamos à distância em um sonho.
— Talvez você apenas esteja sentindo o oceano de fogo e rocha derretida sob nossos pés."
— Como o sol acima de nossas cabeças? — perguntou, desafiadora. — Você não me leva a sério, mas estou certa de que esse clima não tem origem natural. Quando eu vasculhei os arquivos da cidade...
— Um feito interessante considerando que é proibido sair do Santuário Yshari.
Li-Ming me devolveu um olhar seco e continuou:
— Eu examinei os registros do tempo. Nós nunca passamos por um período tão intenso de calor. O Oásis de Dahlgur pode secar se isso não acabar logo.
— Nisto concordamos.
— Mas há mais — continuou Li-Ming. — Há algo no ar que não se parece com nada que eu já tenha sentido. Era para estar frio e não está... Os ventos deveriam estar calmos e não estão.
— Será possível que você ainda insista em procurar uma explicação onde não há nenhuma? Sabemos muito deste mundo e das estrelas sobre nós, mas no final isto pode muito bem ser tão natural quanto às eras de gelo e neve. Você não viveu tanto quanto eu, e os mistérios do universo devem parecer novos a você.
— Se você acredita nisso, então por que estamos aqui, Mestre?
— Você me pegou nessa — respondi, rindo.
Li-Ming olhou em direção à cidade.
— Há uma forte magia em nosso mundo. Por exemplo, as Terras do Pavor. Um lugar inteiro destruído, e quem pode dizer se a destruição de lá não começou da mesma forma? Já faz vinte anos desde que os Lordes do Inferno caminharam por nosso mundo. Isendra me contou sobre a invasão fracassada. Talvez eles estejam tentando outra vez.
— Às vezes eu penso que você é tão ávida por cumprir o seu destino que chegaria a agradecer se alguma calamidade se abatesse sobre nosso mundo.
— É o meu destino, afinal de contas. E ele se concretizará mais cedo do que você pensa.
Essa era a opinião de Li-Ming, e Isendra partilhava dela. Li-Ming acreditava que um dia iria deter uma invasão do inferno como Isendra fizera antes dela. Tudo por causa de um livro que Li-Ming lera, uma profecia escondida em um dos volumes da biblioteca que detalhava os sinais do retorno dos Lordes do Inferno. Isendra várias vezes tentara me convencer de que a profecia era verdadeira, e embora eu não ignorasse o perigo, permaneci cético.
Li-Ming tinha muitos talentos, mas o maior deles era a leitura da magia. Ela era muito observadora e sabia discernir com facilidade a estrutura oculta dos feitiços. Uma vez eu lhe perguntei como era enxergar as coisas. Ela descreveu os fios invisíveis da magia e as auras de poder arcano que se formavam ao redor dos magos quando eles lançavam seus feitiços, e descreveu os borrões verdes e vermelhos que ficavam no ar, como os que se gravam na retina quando olhamos para o Sol. Ela sentia o gosto, o cheiro, via e sentia a magia. Assim, quando Li-Ming me disse que o verão sem fim era causado por mão mortal ou algum outro grande poder, eu fiquei propenso a acreditar nela, pois esta também era minha opinião. Mas não falei coisa alguma, pois se aquilo fosse verdade, as consequências seriam muito preocupantes.
Caldeum ficava em uma extensa chapada que se erguia sobre o deserto. A chapada terminava em penhascos íngremes, em cuja base ficava Lut Bahadur. Acima das muralhas da cidade, moinhos giravam placidamente, em épocas normais, mas agora muitos deles haviam sido derrubados e inutilizados pelos ventos fortes. Toldos de lona desbotados e rasgados se estendiam sobre ripas de madeira que se projetavam dos telhados de barro para oferecer alguma proteção contra o Sol, mas de pouco adiantava, pois a sombra não oferecia alívio. Quase todos agora usavam panos escondendo o rosto como eu, então não se podia ver nada além da expressão dos olhos, cheios de medo ou esvaziados de esperança.
A cidade estava morrendo.
Li-Ming estava usando um de seus encantamentos favoritos, que gerava uma fina camada de geada ao seu redor. O gelo no ar derretia tão rápido quanto ela o criava, e assim, a olho nu, parecia que Li-Ming estava cercada por uma leve névoa. Ao descer do camelo ela não usou o estribo e foi baixando lentamente no ar como se correntes invisíveis a sustentassem, até tocar suavemente o chão. Aquilo atraiu a atenção de algumas pessoas que estavam na rua.
— Você tem que usar sua magia assim, de forma tão pouco discreta? — perguntei, irritado.
— O calor está insuportável, Mestre. Eu não sei como o senhor aguenta.
— Eu aguento porque é necessário — respondi enquanto descia do camelo. — Você não fará muitos amigos se comportando assim.
— Você só se preocupa com meu comportamento quando é conveniente me repreender.
— É culpa minha que isso aconteça com tanta frequência?
Embora protestasse, Li-Ming dissipou o feitiço ao se aproximar de mim. A leve umidade que a cercava sumiu imediatamente, absorvida pelo ar do deserto.
— Nós estamos aqui para observar e fazer algumas perguntas, nada mais — lembrei-lhe.
—Observar e fazer algumas perguntas. Nada mais — repetiu Li-Ming.
— Cuide dos camelos — ordenei, ignorando a provocação.
— Não era para observar?
— Depois de cuidar dos camelos — confirmei. — Vou encontrar Isendra.
— Isendra está aqui? — Li-Ming se animou.
— Sim, está. Mas fique aqui. E... Li-Ming...?
— Sim, Mestre? — ela perguntou, solícita.
— Tente não se meter em encrenca.
Li-Ming sorriu.
Protegida pela parede do cânion, Lut Bahadur ficava resguardada quando o vento escaldante soprava de oeste para leste, mas quando ele soprava de outra direção, a cidade ficava exposta. Havia sinais de que o povo tentara construir uma proteção contra o vento, mas esta ruíra há muito. Naquele dia o vento soprava do leste, mas não tão forte que tornasse perigoso ficar ao ar livre. Li-Ming amarrou os camelos perto do poço e olhou por sobre a beirada para o fundo. Eu não precisei olhar para saber que estava vazio. A água estaria estocada em jarros, embora provavelmente não restasse muita. Eu me dirigi até um dos homens sentados sob a sombra inútil de um toldo rasgado e perguntei onde eu poderia encontrar a feiticeira.
Subitamente a terra sacudiu, rolando feito ondas sob nossos pés, e então um tremor mais forte me jogou ao chão de terra batida. Quando olhei para cima, vi Li-Ming com os braços erguidos na altura dos ombros. Seus dedos se moviam como se ela manipulasse os fios de marionetes numa peça.
Tinha sido obra dela.
— Li-Ming! O que você fez? — gritei. O tremor continuava.
— Venha aqui e veja isso — Li-Ming respondeu, orgulhosa, apontando para o poço. Levantei-me e fui até ela, sentindo o chão tremendo sob meus pés. Quando me curvei sobre a borda do poço, vi o brilho fraco de água se infiltrando através da crosta seca no fundo. Li-Ming trouxera água, água de que a cidade precisaria para sobreviver.
— Eu encontrei água bem fundo, talvez um rio subterrâneo que escoa no Oásis de Dahlgur. Desviei o fluxo para encher o poço. A cidade...
— Já chega — interrompi, severo. — Eu disse que viemos aqui para observar e fazer algumas perguntas, nada mais.
— Nós podemos fazer mais, Mestre. Podemos construir um novo quebra-ventos ou consertar o que foi destruído pelas tempestades de areia. Você sempre diz que não devemos fazer nada. Mas por que
Nós temos essas habilidades, se não para ajudar os outros?Eu estive pensando, Mestre... Talvez com nossa magia nós possamos reverter o calor e acabar com a estiagem.
— Nós não faremos coisa alguma. Não é o nosso papel. E você melhor do que ninguém deveria entender as consequências se nós tentássemos alterar o clima numa escala tão grande — repreendi. — Você já se esqueceu do seu erro?
— Eu não sou mais a menina que eu era. Eu aprendi. E nunca vou permitir o sofrimento dos outros! — devolveu Li-Ming.— Me diga por que não podemos ajudá-los. Me diga por que isso seria tão errado.
Apontei para o poço, agora cheio de água, e disse:
— De onde vem essa água? Para onde ela foi? Será que a água que chegava ao oásis virá até aqui sem nenhum efeito colateral? Não se pode criar a partir do nada. Você soluciona um problema e cria mais dez.
Li-Ming era jovem e não se preocupava com detalhes. Ela agia impulsivamente, e só via o que acontecia no momento.
— A água já estava ali, Mestre. As pessoas podiam ter cavado mais fundo por elas mesmas. Eu só facilitei.
—Seu altruísmo lhe faz grande honra, Li-Ming, mas nós, magos, não podemos fazer isso. Sim, às vezes é possível usar magia para ajudar as pessoas, mas não toda vez, e antes de agirmos é necessário considerarmos cuidadosamente os custos envolvidos. Isso não está aberto à discussão. Você vai me ouvir.
— Mas Li-Ming está certa — respondeu uma voz de mulher.
— Isendra! — exclamou Li-Ming, correndo na direção da feiticeira, que a abraçou com carinho.
— Este problema não nos diz respeito, nem a você — retruquei. — Li-Ming, deixe-me falar com Isendra. A sós.
Li-Ming franziu a testa e abriu a boca para falar, mas se conteve. Ela nos deixou e se uniu aos homens e mulheres que estavam indo buscar água no poço, carregando jarros e outros vasilhames. Fiquei olhando enquanto ela se afastava.
— Se esse problema não nos diz respeito, então por que estamos aqui? — perguntou Isendra.
— Às vezes você e ela ficam parecidas demais — resmunguei. — Ela me disse a mesma coisa.
— E como ela está?
— Não mudou muito com os anos. Continua tão impetuosa quanto no dia em que a conhecemos. Me pergunto se fizemos bem ao ensiná-la.
— Ela não se contenta em deixar as coisas como estão. Ela quer melhorar a vida das pessoas.
— Ela não pensa nas consequências. Ela vive no aqui e agora, mas eu e você sabemos que é necessário ter muito mais em mente. Esse é o nosso fardo, liderar os clãs de magos.
— Li-Ming pode bem estar certa. Nós três somos os magos mais poderosos de hoje. Unindo nossos poderes, por que não acabar com este verão e restaurar a ordem normal das estações, não acha?
— Esse pensamento tem origem nas emoções, não na razão — argumentei. —Nós não podemos alterar o clima. Não vai funcionar.
— Li-Ming jamais diria isso — retrucou Isendra.
— Você não é Li-Ming. Ela é uma menina tola.
— Você vê uma menina. Eu vejo uma mulher que pode salvar este mundo.
— Profecia. Destino. — Dei de ombros. — Quem sabe o que o dia de amanhã trará? Se isso vier a acontecer, você e eu enfrentaremos a situação e talvez Li-Ming lute ao nosso lado. Mas ela não é a única que pode. E como vamos saber se as profecias são verdadeiras? Os Lordes do Inferno deveriam ter atacado há vinte anos. Nosso maior medo deve ser o medo de nós mesmos.
— Você se tornou um homem medroso depois de velho — desafiou Isendra.
— E você ficou descuidada. Você não irá interferir.
— Farei o que eu preciso fazer — replicou Isendra, se retirando. — Assim como você.
Depois que Isendra saiu, fiquei observando Li-Ming. Ela estava ajudando um menino que desmaiara de calor. Ele estava febril. Suas bochechas estavam vermelhas e suor porejava em sua pele. Li-Ming lançou um feitiço e o ar em volta de suas mãos esfriou. Quando ela levou as mãos para perto do rosto do menino, ele suspirou pacificamente enquanto uma leve brisa soprava os cachos de cabelo grudados em sua testa.
— Obrigada — disse a mãe do garoto. — Andam falando de você. Mas você restaurou nosso poço e salvou meu filho... Isso não me parece errado.
Li-Ming sorriu e se levantou, mas quando chegou perto de mim sua expressão estava séria.
— Essas pessoas vão morrer — disse a jovem.
— Pode ser. Mas nossa interferência talvez não impeça isso.
— Nós jamais saberemos, não é? — Li-Ming protestou, seus olhos castanhos buscando os meus. — Você verá os rostos deles em seus sonhos?
— Deles e de muitos outros. Esta é a nossa maldição, Li-Ming, e você vai aprender isso dolorosamente. — Coloquei minha mão gentilmente em seu ombro. — Vamos embora.
Eu sei que já contei essa história da última vez em que conversamos, mas omiti o papel de Li-Ming nela, pois então era Isendra quem me preocupava na época. Você sem dúvida concordará que minhas ações foram corretas, mas eu não sou um monstro. Como sempre quando forçado a encarar essas situações, eu sentia grande tristeza por não poder agir como Li-Ming gostaria e ajudar o povo de Lut
Bahadur. Era uma discussão frequente em nossas vidas. Eu simpatizava com as ideias dela mais do que ela imaginava.
Pouco tempo depois você e eu nos conhecemos, pois eu me preocupava com Isendra e as decisões que ela tomaria. Em meu coração eu tinha certeza de que o assunto não estava encerrado.
Suspeito que você saiba um pouco do que aconteceu em seguida, detalhes que eu não conheço. Foi aí, eu acho, que Li-Ming começou a considerar a decisão que nos levaria ao desastre.
* * * * *
Meses depois, em uma hora perdida da noite, minha porta se abriu e Li-Ming entrou. Ela não costumava bater, uma peculiaridade de sua personalidade com que eu tive que me acostumar. Ela me visitava cada vez mais raramente. Li-Ming parecia ter acordado às pressas. Seu traje, normalmente impecável, parecia ter sido vestido às pressas, e eu vi na furtividade dos seus olhos que algo a preocupava.
— Você está sentindo? — ela perguntou.
— Não sinto nada.
— Um feitiço poderoso foi lançado a leste daqui. Não muito longe. Precisamos ir. Algo aconteceu.
— Podemos ir pela manhã — contestei.
— Você precisa tanto assim de descanso, vovô? — Li-Ming falou com irritação, e então ficou séria. — Foi Isendra, Mestre.
Fiquei em silêncio, pois não sabia o que dizer. Mas cedi.
Saímos do Santuário Yshari e partimos em direção a Lut Bahadur. Era para estarmos no inverno, o terceiro inverno desde que o verão interminável começara, e o ar da noite estava tão seco e quente como ao meio-dia. Apenas a ausência do sol nos dava um pequeno conforto. Parecia que estávamos perto de um forno de vidraceiro. O suor escorria pelo meu corpo, e minhas vestes grudavam na minha pele.
Li-Ming não falou nada enquanto seguíamos.
Lut Bahadur estava quieta quando chegamos. Mesmo àquela hora o vento soprava areia pelo deserto, e o único outro som que se ouvia era o leve bater das roupas estendidas em varais perto de cada cabana. Ninguém andava pelas ruas, embora os lampiões ainda estivesse acesos.Mas meus pensamentos se ocupavam de outra coisa.
O ar estava frio.
Um arrepio correu entre meus ombros e por meus braços enquanto entrávamos na cidade. O vento frio roçava meu corpo e, depois de tanto tempo suportando o calor, meu corpo parecia rejeitar a sensação.
Mas aos poucos eu senti meus músculos relaxando como se a tensão causada pelo calor interminável estivesse se desfazendo com a carícia suave da brisa fresca.
Li-Ming evocou orbes de luz e os despachou pela cidade. Ao desaparecerem de vista, a luz bruxuleante iluminava o chão e os lados dos prédios pelos quais passavam. Aquilo era algo novo. Eu não conhecia esse feitiço.
— O que foi aquilo? — indaguei.
Li-Ming ignorou minha pergunta e disse:
— Você está sentindo o ar?
— Está frio.
— Não, não isso — corrigiu Li-Ming. — Há eletricidade no ar. Eu nunca senti isso assim tão forte, e por isso não sabia dizer se a causa era um feitiço ou alguma outra coisa.
Li-Ming falou e calou-se, e eu senti a preocupação que emanava da minha estudante.
Eu a segui enquanto ela avançava decididamente por ruas sinuosas, virando em certos pontos. Era tarde da noite, mas ainda assim estava quieto demais. Os toldos de lona se enfunavam sem produzir som, enquanto o vento enfraquecia. Não havia som além dos nossos passos contra a terra batida. Eu ouvia as batidas de meu coração ansioso. Caminhamos por entre as ruas abandonadas até que ela finalmente se aproximou da porta de uma casa e a abriu.
— O que você está fazendo? — sussurrei, entrando logo atrás de Li-Ming, consciente do barulho de minhas botas no chão.
Eu abri a boca para repreendê-la e estendi a mão para tocar seu ombro, mas as palavras morreram em minha boca e minha mão parou. Dentro da casa, parecia que o tempo havia parado de correr. Um homem, uma mulher e uma criança estavam sentados ao redor de uma grande mesa, mas não perceberam nossa intrusão. Estavam frios e rígidos feito estátuas. Os lábios da mulher se abriam para pronunciar uma palavra que jamais fora dita. Ao lado dela, o homem se voltava para encarar a criança, que estendia o braço sobre a mesa. A comida parecia ter sido preparada e servida há pouco tempo, mas não havia calor. Era como se a luz do luar tivesse sugado toda a cor e o calor da cena diante de mim.
— O que aconteceu aqui? — perguntei em voz baixa.
— Eu não sei com certeza — respondeu Li-Ming enquanto andava pelo cômodo, seus olhos vendo sem ver, seguindo os rastros invisíveis de energias arcanas que eu não conseguia discernir. — A forma do feitiço desaparece com o tempo. É como tentar apreender o tamanho de uma tempestade depois que ela acabou, usando apenas as poças no chão e as nuvens restantes no céu.
Saí, sem esperar enxergar algo que eu não via, e aguardei Li-Ming do lado de fora. Alguns minutos depois, ela retornou.
— Ela tentou roubar o calor do ar para esfriá-lo, mas o feitiço fugiu ao controle. O frio irrompeu e o ar congelou.
— Ela? — perguntei, embora eu já soubesse a resposta.
— Isendra. Eu reconheço o padrão da magia dela, assim como conheço o seu. E não há muitos magos que poderiam ter tentado executar o feitiço que foi lançado aqui.
— Como isso aconteceu?
— Ela não foi forte o suficiente. No início estava indo bem, mas quando o feitiço se tornou mais forte, sua estrutura enfraqueceu e se desfez. — A voz de Li-Ming falseou. — A culpa é minha.
— Isendra pode estar precisando de nós. — Temos que encontrá-la.
Li-Ming lançou as esferas de luz para nos ajudar em nossa busca. E em todas as casas a mesma cena nos recebeu: todos os moradores congelados como estátuas em um estranho museu, como em um cemitério silencioso. E não havia sinal de Isendra.
Uma hora se passou até que a encontrássemos. A cabana se parecia com as outras, mas Li-Ming tinha certeza de que Isendra estaria lá dentro. A jovem feiticeira parou por um momento antes de empurrar a porta de ripas. Eu a segui.
Por dentro, a cabana revelava-se diferente. Enquanto as outras permaneciam numa quietude inquietante, nesta eram claros os sinais de uma luta violenta. Havia grandes manchas negras nas paredes onde os tijolos de barro foram calcinados por fogo. As mesas, cadeiras e outros móveis haviam sido queimados e derrubados, e havia um forte cheiro de cinzas no ar. Ali eu consegui sentir alguma coisa, mas não as evidências de magia que Li-Ming percebia. Era uma reação primitiva e instintiva que fez os pelos do meu braço se arrepiarem. Então vi aquilo que eu temia: Isendra, caída desajeitadamente como uma boneca jogada fora. Sangue se acumulava em poças no chão de madeira, escorrendo das feridas nos braços e estômago. A pele estava enegrecida, e a cabeça virada para um lado, os olhos vagos encarando as tábuas do chão.
Li-Ming correu até Isendra e se ajoelhou ao seu lado. Ela acolheu o corpo sem vida da feiticeira em seus braços enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.
— O que aconteceu aqui, Mestre? — Li-Ming perguntou.
Eu sacudi a cabeça. Nós permanecemos lamentando em silêncio por algum tempo. Então Li-Ming soltou delicadamente o corpo de Isendra e se levantou.
— Nem todo esse fogo foi criado com magia — afirmou. — A magia do feitiço de Isendra já está se dissipando, mas há um traço mais recente. Isto aconteceu depois.
— Quando um mago perde o controle de um feitiço os resultados podem ser caóticos — observei. — Eu já testemunhei isso várias vezes.
— Ela não foi morta por magia, Mestre.
— Talvez não, mas a magia fez com que isto acontecesse. A cidade foi destruída e Isendra morreu. Quem ela conseguiu proteger? Quem ela conseguiu salvar? Me responda! — Minha voz soava alta em meio ao silêncio inquietante.
— Você está cego! — gritou Li-Ming, raivosa. —Isendra tentou ajudá-los. Isso é mais do que você jamais fez. Eu não vou ficar só olhando e assistindo as pessoas sofrerem. Nunca mais , principalmente agora que chegou a época em que o mundo precisa de mim.
— E as pessoas irão pagar com as próprias vidas pelo seu fracasso, da mesma forma que esta cidade pagou pelo fracasso de Isendra? Você irá sacrificar inocentes por suas noções infantis de heroísmo?
— Não — respondeu Li-Ming calmamente.
Por um momento minha aluna brilhante pareceu novamente uma menina. Olhei com tristeza para a silhueta tombada de minha amiga, que já nãoparecia a pessoa com quem convivi por tantos anos, e me calei.
Quando chegou a hora de partir, Li-Ming ateou fogo à cabana com um feitiço. Isendra, sua antiga mestra, ficou repousando pacificamente no chão, de olhos fechados. O dever de Isendra fora cumprido. Enquanto o fogo aumentava e as chamas se erguiam, água brotava e escorria por seu rosto feito lágrimas. Guiei Li-Ming para longe da casa pelo braço.
Os olhos de Li-Ming encontraram os meus. A mágoa e a raiva ainda estavam ali, mas o que eu mais me chamou a atenção foi uma determinação sinistra:
— Mas eu não vou fracassar.
Nós atravessamos a cidade silenciosa, perdidos em nossos próprios pensamentos. Saber o que cada casa escondia me deixava inquieto. Olhei para trás para observar Lut Bahadur enquanto nos afastávamos, as estradas iluminadas pela luz de mil lampiões bruxuleantes que sumiam na noite como um enxame de pirilampos.
Creio que, naquele momento, Li-Ming começou a entender o perigo de suas ações e o que o fracasso poderia causar. Nós não falamos novamente da morte de Isendra até a última vez em que a vi. Será que Li-Ming sabia por que Isendra morreu? Sabia como ela foi morta?
Os acontecimentos de Lut Bahadur não arrefeceram nem um pouco o desejo de Li-Ming por conhecimento. Ela ficou obcecada em aprender mais e ter sucesso onde Isendra falhara. Ela passava horas na biblioteca e sempre conseguia entrar onde era proibido. Apesar dos meus esforços, era impossível contê-la. Ela aprendeu magia temporal a partir dos escritos de magos que estenderam seus tempos de vida bem além dos homens normais e leu a respeito de outros que tinham ficado tão poderosos a ponto de iludir a morte, magos como o enlouquecido Zoltun Kell, que substituiu seu sangue pelas areias do tempo e não podia ser morto, apenas aprisionado. Tendo aprendido sobre a teia invisível de poder arcano, Li-Ming dominou a habilidade de se projetar de um lugar a outro com magia de teleportação. Dominou a arte de forjar ilusões vivas e assim criar duas imagens perfeitas de si mesma que imitavam suas ações. Ela leu pergaminhos e interpretou diagramas que ensinavam a desafiar e dobrar as forças invisíveis do universo. Seu poder aumentou muito, assim como minha preocupação.
Da primeira vez que nos encontramos, eu pedi a você que ficasse de olho em Isendra apenas por medo de que ela tentasse alguma loucura. Não questiono a decisão que você tomou.
Um pouco depois disso, Li-Ming fez sua própria escolha.
O teto em abóbada do enorme salão octogonal do Santuário Yshari era pintado com cenas da história dos clãs de magos. Oito portas abriam-se para saguões e outras câmaras, nenhum tão grande quanto o salão principal. Cada centímetro das paredes era coberto por tapeçarias espetaculares, e as lajes do chão vinham das pedreiras além dos Mares Gêmeos.
Quando eu entrei, Li-Ming estava no centro da sala, observando os padrões no assoalho. O salão estava vazio, exceto por nossa presença.
— Eu não queria ir embora sem avisar — começou Li-Ming, ao ouvir meus passos. — Acho que devo isso a você.
— E para onde você está indo? — perguntei.
— Uma estrela cadente atravessou os céus hoje caiu a oeste. Este é o sinal por que eu estava esperando. Você leu os mesmos livros proféticos que eu. Você sabe o que isso significa. Nós esperamos a invasão do inferno há vinte anos, mas ela nunca aconteceu. As histórias e as notícias sinistras que tenho ouvido no bazar me deixaram certa disso. Minha hora chegou.
— O seu lugar é aqui, como estudante do Santuário Yshari. Você é uma fagulha, e nosso mundo está seco e propenso a incêndios. Você não consegue se controlar, e se eu deixar que você parta, o que você pode causar será pior do que qualquer catástrofe que eu possa imaginar.
— Já não tenho mais nada a aprender com você.
— Você se lembra do dia em que nos conhecemos, Li-Ming? Hoje você sabe muito mais do que sabia então, mas você não ficou mais sábia. Se você partir, você será uma mera arcanista.
— Não preciso da sua sabedoria. Eu sou uma arcanista, e vou proteger o mundo, já que os magos não fazem nada! — Li-Ming me virou as costas.— Me deixe seguir meu destino. Você ficará a salvo aqui com seus livros e seus medos.
Ergui as mãos e, canalizando uma pequena quantidade de energia arcana, fiz com que todas as portas do Santuário se fechassem com estrondo. Uma a uma elas bateram até que ficamos presos no grande salão.
— Então eu tenho que deter você. — Enrolei cuidadosamente as mangas de minhas vestes. — Você foi minha melhor estudante, Li-Ming, e eu acreditei que, com o tempo, você poderia me suceder e liderar os clãs de magos. Achei que a aluna superaria o mestre. Lamento muito que as coisas tenham que acabar assim. Talvez o fracasso seja meu.
— Você foi um bom professor, Mestre. E eu aprendi suas lições. Mas você nunca entenderá a dádiva que nos foi dada. É por isso que eu o superarei — bradou Li-Ming, e suas palavras ecoaram pelo salão.
Eu vi os olhos de Li-Ming se estreitarem enquanto ela se concentrava. As tochas presas às paredes começaram a tremeluzir ao começarmos a drenar a energia à nossa volta. As mãos de Li-Ming se moveram para os lados do corpo e seus dedos se curvaram enquanto nos postávamos um diante do outro,
Imóveis feito rochas na correnteza de um rio. Abaixei meu cajado e o segurei à minha frente, usando-o para focalizar meu poder.
— Você já se perguntou, Mestre, se eu seria mais forte que você?
— Não — respondi sorrindo. — Nunca.
Esperei que Li-Ming agisse primeiro. Ela conjurou bolas de fogo que absorveram a luz das tochas e pareceram ofuscar a luminosidade de fora, mas isso foi apenas uma ilusão dos meus olhos se ajustando ao escuro. A jovem arremessou os orbes contra mim. Eu os repeli para o assoalho, onde eles explodiram, queimando o mármore, mas sem me atingir. O ar ficou incandescente e senti meu fôlego encurtar. Li-Ming olhava para mim com uma expressão divertida, mas já aprontava o próximo ataque. Derrubou grandes blocos de pedra do teto, incendiando-os e arremessando-os em minha direção. Ergui o cajado e liberei uma onda de força. O domo brilhante se expandiu e bloqueou os meteoros incandescentes, estilhaçando-os numa nuvem de pó e fragmentos que recobriram o chão. O escudo translúcido havia me protegido do ataque, mas a reverberação ecoava dolorosamente pelo meu corpo. Em minha juventude, eu mal teria sentido alguma coisa, mas naquele momento eu me prostrei de joelho ao chão. As lajes de mármore ao meu redor racharam com o choque, feito um espelho quebrado, e até Li-Ming cambaleou para trás.
— Você terá que fazer melhor que isso — desafiei.
Li-Ming grunhiu de frustração. Desta vez ela disparou fogo das palmas das mãos em finos feixes iridescentes que avançaram até mim, e tive que me esquivar para escapar. Quando os raios atingiram a parede, marcaram a pedra como a lâmina de uma faca. Os raios estraçalharam o piso de mármore e senti o chão começar a se despedaçar. Estendi os braços para diante, encontrando as pedras que ameaçavam se esfacelar e prendendo-as com fios invisíveis. Se as soltasse, o chão desabaria, e eu junto com ele. Sob o grande salão ficam as catacumbas, e eu não sobreviveria a uma queda daquela altura. O esforço de manter tudo suspenso era demasiado, e os nós de meus dedos ficaram brancos enquanto eu apertava meu cajado.
Li-Ming olhou para o meu lado do salão, onde o chão estava rachado e quebrado. Moveu a mão e a pedra sob meus pés desapareceu. Isendra me ensinara um truque há muito tempo e, lembrando-me dele na mesma hora, eu sumi e reapareci a alguns metros, onde havia apoio para meus pés. A agonia da teleportação, mesmo a tão curta distância, era imensa. Senti como se tivesse sido rasgado em milhares de pedaços e então costurado com linha incandescente. Era impossível saber o que doía mais. Li-Ming destruiu meu novo apoio e me teleportei outra vez. Repetimos essa dança por algum tempo, mas minhas reações ficavam mais lentas a cada vez, e eu sentia a batalha exigindo mais do que o meu velho e frágil corpo podia dar.
Bati com meu cajado no chão e o impacto soou como um trovão. Em um piscar de olhos, arcos de relâmpago faiscaram pelo salão. Onde eles pousavam, o chão explodia lançando estilhaços de mármore para o alto. O relâmpago explodiu com força percussiva e partiu em direção a Li-Ming. Mas sem acertá-la. As rebarbas retorcidas de luz congelaram no ar enquanto Li-Ming estendia os braços para diante, se concentrando intensamente. Sem me deixar deter, continuei a evocar o relâmpago, e a tempestade ficou mais e mais forte. O relâmpago se abatia sobre Li-Ming como um leque aberto até que ela não pôde mais contê-lo. A eletricidade se propagou através dela e a arremessou no chão, explodindo ao redor numa cascata de faíscas e luz branca.
Li-Ming desapareceu.
Sem saber das intenções dela, incendiei a tempestade, e a eletricidade explodiu em um inferno de chamas que preencheu todo o grande salão e chegou a calcinar minha carne, ameaçando exaurir o que me restava de força. Quando Li-Ming apareceu novamente, estava cercada pelas chamas. Ouvi seus gritos
Conforme o fogo a queimava. As lajes estremeciam sob meus pés enquanto eu me aproximava. Mantendo o feitiço que impedia o chão de desabar, apontei meu cajado para a silhueta enrugada da arcanista.
O piso pareceu sólido, e eu me postei diante de Li-Ming, aliviado por conseguir me apoiar no chão.
— Você ainda tem muito o que aprender, Li-Ming.
Tentei golpeá-la com meu cajado, mas não atingi coisa alguma: o corpo de Li-Ming havia se dissolvido no ar.
Eu me virei a tempo de vê-la atrás de mim. Abri a boca e tentei lançar um feitiço, qualquer feitiço, mas uma explosão me desconcentrou. Perdi o controle do encantamento e do chão partido a meus pés. O chão tremeu, se despedaçou e tudo desabou. Caí longamente nas trevas, até bater no chão de pedra fria das catacumbas.
Eu fiquei lá, sentindo meu corpo maltratado doer, e me vi cercado pelo cheiro de fogo e poeira. Li-Ming flutuou até onde eu estava e pousou, ajoelhando-se perto de mim.
— Você acha que eu não aprendi suas lições, mas eu aprendi. Aprendi a lição da morte de Isendra. Mas eu recebi meu poder por um motivo, e é meu fardo usá-lo. E vou usá-lo, não vou ter medo dele como você.
— E se você não conseguir controlá-lo? — Minha voz saiu num sussurro rouco. — Com seu poder, você pode destruir o mundo.
— Então que o mundo chore. — Li-Ming virou as costas para mim. — Há algo que preciso perguntar, Mestre.
Fiquei quieto, pois sabia o que viria em seguida. Não havia mais nada que Li-Ming pudesse aprender comigo.
— Por que Isendra morreu? Me diga a verdade.
— Eu sei apenas o que você já sabe.
Li-Ming assentiu com a cabeça e começou a levitar.
Abri a boca para falar novamente, mas as sombras engolfaram tudo.
Quando acordei, dias depois, Li-Ming havia abandonado a cidade, e ninguém sabia para onde ela tinha ido. Disseram-me que era impossível esconder o acontecido, pois a coluna de fumaça que se ergueu do Santuário foi vista por toda Caldeum, e do lado de fora era possível perceber as marcas da batalha nas pedras destruídas e rachadas.
Aqui termina meu conhecimento acerca da história da arcanista, e minha decisão me aguarda. Quando os magos ameaçaram destruir nosso mundo, um mestre Vizjerei fundou a ordem dos assassinos, os caçadores de magos, que garantiriam que jamais ficaríamos tão poderosos a ponto de ameaçar o mundo. Ele se postou aqui em meu lugar, e falou com o primeiro assassino assim como eu agora estou falando com você, e assim ele condenou muitos grandes magos à morte.
Quanto a mim... Esta será a segunda vez que eu faço isso.
Acredito que ela sabia que fui eu quem enviou você para vigiar Isendra... E apesar disso... Ela me deixou viver, sabendo que assim como eu selara o destino de Isendra, eu faria o mesmo com ela.
Saiba, no entanto, que Li-Ming não mentiu. Há livros em nossa biblioteca que descrevem os eventos que podem estar acontecendo neste exato instante. Tudo começa com uma estrela caindo dos céus, e uma estrela caiu no dia em que eu lutei contra Li-Ming.
Conheço a verdadeira natureza da magia, e de quem e do que eu sou. Li-Ming também sabe disso, mas escolheu outro caminho. Esse é o quebra-cabeças diante de nós, assassino. Eu sei do mal que nos espreita, mas temo o que Li-Ming possa tentar fazer. Assim, condeno à morte minha aluna mais brilhante, talvez a maior esperança de salvação do mundo, e rezo para que eu tenha tomado à decisão certa.
Ainda me lembro de uma menina que ficou diante de mim aqui nesta sala, sem temer nada. Lembro de uma jovem altruísta que queria fazer o bem, para quem tarefa nenhuma era pesada demais, para quem nada era impossível. Uma jovem que me procurou em busca de orientação.

Ela fez sua escolha, e eu fiz a minha.