Eu peço seu perdão, pois há muito que falar sobre a arcanista, e
eu sou o único que pode contar toda a sua história. Este é meu fardo, bem como
o que me aguarda depois. O final não é um grande mistério. Está escrito nas
pedras estilhaçadas e paredes esfaceladas ao nosso redor e é sussurrado nos
boatos que saem de todas as bocas.
Mas, quando o assunto é magia, nada é tão simples, e esteja certo
de que o que você viu e ouviu não é toda a história.
Enquanto eu convalescia em minha cama, após os médicos descartarem
risco de vida, eu não tinha nada para fazer além de revisitar as lembranças
distantes dos dias antigos, em busca do padrão que prenunciasse esta grande
catástrofe. Eu a conheço melhor do que qualquer um, melhor do que ela própria,
embora ela jamais vá admitir isso. Ela pode muito bem ser a mais poderosa arcanista
de nossa era. Seu coração é puro e ela não quer nada além de fazer o bem, mas
ainda é tola às vezes e se crê invencível. Erros da juventude e da genialidade.
Não há regra que ela não quebre, e ela jamais entendeu o significado das
palavras “não pode” e “não deve”. Foi assim desde que nos conhecemos, há tantos
anos.
Em um dia parecido com este.
Isendra, a feiticeira, veio até meus aposentos trazendo uma jovem
à sua frente. As duas eram tão diferentes quanto fogo e gelo. Isendra tinha uma
aparência régia e resplandecente, vestida numa bela túnica verde, coberta de
joias de ouro, enquanto a jovem parecia um pássaro amedrontado e curioso com a
cabeça indo de um lado a outro e os olhos disparando por toda parte, fascinados
pelos objetos em volta: os livros nas prateleiras, as fileiras de frascos
cheios de líquidos e pós estranhos e os instrumentos arcanos cujo uso era um
mistério para mim. A túnica da jovem não passava de trapos rotos e manchados de
suor e poeira. Ela passaria facilmente por uma das crianças de rua que
atormentavam os mercadores ricos no bazar de Caldeum. Seus cabelos negros eram
um ninho de passarinho, embaraçados e quebradiços, empastados de lama e pó como
o resto. Sua pele estava queimada de sol e seus lábios estavam rachados e
descascando.
— Então esta é a garota? — perguntei a Isendra, olhando para a
criança andrajosa diante dela.
Isendra olhou para a garota, hesitante.
— Eu a encontrei no pátio duelando com Mattiz, Allern e Taliya.— A
voz da feiticeira evidenciava irritação.— Eles estavam ansiosos para aceitar o
desafio.
— Ela não parece machucada — respondi. — E quanto aos outros?
— Mattiz e Allern estão sendo atendidos pelos médicos. Taliya
machucou somente o orgulho próprio.
A menina sorriu ao ouvir aquilo.
—
Talvez tenha sido melhor assim — observei. — Aqueles três bem merecem uma lição
de humildade. Falarei com eles mais tarde.
— Mas
você vai falar comigo agora, vovô — disse a menina. Ela tinha uma voz forte de
comando, amplificada pela coragem nascida da confiança infantil.
— Ela
fala! — comentei e sorri para Isendra.
— Ah,
fala — disse Isendra, secamente. — E bastante.
— Quem
é você? — perguntou a menina. — Por que você me trouxe aqui?
— Eu
sou Valthek, alto conselheiro dos Vizjerei e mestre dos clãs de magos do
Santuário Yshari.
A
menina ficou em silêncio por um bom tempo, me observando.
—
Você? — ela perguntou por fim.
Eu ri.
—
Diga-me, menina, quem é você e por que você veio? Com certeza você ambiciona
algo mais do que mandar meus aprendizes para a enfermaria.
— Meu
nome é Li-Ming. E eu não sou uma menina. Eu sou uma arcanista.
— Eis
aí uma declaração ousada — ironizei. Tive que me esforçar para conter o riso ao
ouvir a menina usar o título de “arcanista”, reservado apenas aos magos mais
famosos da história, sempre citados pelo povo e pelos conhecedores das artes
arcanas com medo e pavor.
— Não
são só palavras — retrucou Li-Ming, com um tom sinistro.
Ergui
a mão para acalmá-la e disse:
—
Então me mostre.
Eu mal
acabara de falar quando um forte sopro de vento cruzou a minha mesa, espalhando
todos os papéis, livros e tinteiros e derrubando tudo no chão em um monte
desordenado. Minha expressão permaneceu neutra, e foi interpretada pela menina
como um pedido de bis. Li-Ming abriu os braços e criou duas bolas de fogo na
palma das mãos. O fogo se insuflou até o teto, a explosão de ar quente soprou
seus cabelos em desalinho, e as chamas refletiram naqueles olhos castanhos.
Eu dei
de ombros, dizendo:
— Um
mero truque de palco.
Li-Ming
rilhou os dentes, frustrada. Fechou as mãos e as chamas desapareceram, embora o
calor persistisse. Com outro movimento do braço, serpentinas incandescentes,
vermelhas e cor de laranja, ganharam vida e dançaram em cima de minha mesa. A
jovem moveu o braço novamente e fileiras de livros saíram das prateleiras e
ficaram suspensos no ar. Ela os fez flutuar numa fila pela sala e eles a
cercaram girando como se capturados por um redemoinho. Então, empilhou os
livros um a um, no formato de um trono, sentou-se nele e me encarou.
A
novata ergueu uma sobrancelha e eu respondi com um aplauso comedido.
—
Isso é o melhor que você pode fazer, menina? — perguntei. Movi a mão
displicentemente e as chamas em minha mesa se apagaram. Os livros em que ela se
sentava caíram no chão, desordenados. Li-Ming se levantou com um pulo e evitou
cair junto com o trono. — As pessoas temiam os magos chamados arcanistas. Eles
deixaram o mundo à beira da destruição muitas vezes, e seu imenso poder
incontido fazia a terra tremer com seus planos. Eles se associavam com demônios
do Inferno Ardente e faziam pactos para condenar todos nós. Trapaceavam a morte
e destruíam o próprio tecido da realidade. Você bagunçou os objetos de um velho
e ateou fogo numa mesa.
— Eu
consigo fazer mais — argumentou ela, defensivamente.— Um dia eu vou ser a maior
arcanista do mundo.
— Pela
minha experiência, é possível esperar um longo tempo por esse dia e ainda se
desapontar quando ele finalmente chega.
— O
senhor ouviu falar do milagre do Vale do Rio das Garças?
— Eu
ouvi falar dessa história. Algo sobre uma seca, e uma jovem que tentou melhorar
as coisas — respondi distraidamente. — Parece que chamaram essa menina de
arcanista.
— Essa
arcanista sou eu — orgulhou-se Li-Ming. — Fazia meses que não chovia e o Rio
das Garças tinha secado quase completamente. Os campos tinham secado. O povo do
vale achava que não havia nada a fazer a não ser esperar que os deuses nos
salvassem. Mas eu sabia que podia fazer o que os deuses não podiam.
— É
mais prudente não falar dos deuses tão levianamente. Você verá.
Li-Ming
ignorou meu comentário e continuou:
— Eu
procurei por toda parte. Coletei água de poços no fundo da terra e dos últimos
fiapos de água que restavam em leitos de rio rachados. Juntei toda a água que
consegui e a lancei ao vento para criar uma tempestade. Nada aconteceu a
princípio, e as pessoas me chamaram de tola por ficar agitando os braços e
orando por chuva. Mas eu sabia. As horas se passaram e o céu escureceu. Nuvens
cinza diáfanas apareceram, preenchendo o horizonte e aumentando de tamanho até
obscurecer o sol completamente. As nuvens pesadas de chuva ficaram da cor da
noite, e suas sombras se espalhavam pelos vales. Os que tinham rido começaram a
acreditar. O som de trovão ecoou de todas as direções e clarões de luz
acenderam as nuvens por dentro. O ar ficou úmido e eu senti o frescor na pele.
A névoa desceu das montanhas e tornou-se garoa, a garoa tornou-se chuva, que se
tornou um aguaceiro. A terra bebeu tudo e o Rio das Garças voltou a fluir. Isso
é o que eu posso fazer.
Isendra
parecia incrédula. Ela disse:
—
Nenhuma criança conseguiria fazer isso.
— Só
porque você não consegue não quer dizer que eu não consiga — disse Li-Ming à
feiticeira, duas décadas mais velha.
— Eu
também não acreditei, a princípio — expliquei a Isendra. — Mas ouvi as
histórias a respeito. Aconteceu exatamente assim. Exceto por alguns detalhes
que ela não mencionou.
O
sorriso desapareceu do rosto de Li-Ming, embora seu queixo ainda estivesse
erguido em desafio. Insisti:
—
Depois que a chuva veio e passou, a seca voltou nos meses seguintes, pior do
que antes. As pessoas apontaram os dedos para a arcanista que havia trazido à
chuva e a culparam de tudo.
Com
a voz suave, Li-Ming explicou:
— Os
que tinham me louvado exigiram que eu fosse expulsa. Meu pai e minha mãe
concordaram. Eu só queria ajudar. Não sabia o que iria acontecer.
— As
pessoas não confiam em magos. Elas temem o que não compreendem. Qualquer mago
treinado no Santuário Yshari saberia dos perigos envolvidos no que você tentou
fazer. — Ofereci um sorriso à menina e continuei.— E devo dizer... Se eles
tivessem tentado a mesma coisa, não creio que teriam conseguido nem metade do
que você fez.
Li-Ming
percebeu minha mudança de atitude e pediu:
—
Então me ensine.
— Eu
considerei isso. Mas agora que a conheci, não tenho certeza se você tem o que é
preciso para estudar aqui. Você tem muito a aprender, mais ainda a desaprender,
e não sei se você tem força de vontade para ir até o fim.
— Você
não sabe o que diz! Eu sou mais forte que os seus aprendizes. Traga todos aqui
e eu vou lhe mostrar! Eu enfrento até você se for preciso, vovô. Não importa.
Atravessei mar e deserto para estudar aqui, e eu vou.
— A
decisão não é sua. É minha — afirmei.
— Deixe-me
ensiná-la — Isendra interrompeu abruptamente.
— O
quê? — indaguei.
Li-Ming
olhou desconfiada para a feiticeira.
— Tem
algo diferente nessa menina. Como você disse, pode não dar em nada, mas eu e
você vemos potencial nela. Pode acontecer, um dia, de nós precisarmos dela, e
então nos arrependeremos de tê-la mandado embora. — Isendra sorriu. — E talvez
eu veja um pouco de mim nela.
Li-Ming
sacudiu a cabeça e reclamou:
— Eu
não quero você. Quero que o vovô ali me ensine.
Isendra
franziu a testa.
— Você
devia estar feliz. Eu lutei contra os Senhores do Inferno quando você não
passava de um brilho no olho do seu pai. E não fiz isso para acabar ensinando
magia a uma criança mal-educada, mas eis a minha oferta.
— E
minha resposta é não — desdenhou Li-Ming.
Eu
fiquei em silêncio enquanto considerava se devia permitir tal parceria. Isendra
não tinha páreo em suas habilidades e era quase como eu. Toda a sua experiência
com certeza fascinaria a menina e prenderia sua atenção. Mas eu tinha algumas
preocupações.
—
Quietas, as duas — exclamei ao me levantar. — O conhecimento de Isendra sobre
magia Elemental rivaliza com o meu, e creio que vocês descobrirão que têm muito
em comum. Não poderia haver melhor professora. Se eu fosse você, rezaria para
que Isendra não reconsidere a oferta. Aceite-a, ou então vamos ver como você se
sai sozinha. A história está cheia de arcanistas esquecidos que nunca
Deram
em nada.
Li-Ming
mordeu o lábio e resmungou:
— Eu
não posso opinar?
— Não
— respondi. — Não pode, não.
Aquele
foi nosso primeiro encontro, e eu ainda me lembro bem de tudo. Isendra
dedicou-se ao papel e tornou-se mentora de Li-Ming, que, por sua vez, adquiriu
um profundo respeito pela mestra. Elas eram mais parecidas do que Isendra ou eu
suspeitávamos. Mas Li-Ming logo exauriu o conhecimento da mentora. O
relacionamento delas mudou e Li-Ming passou a tratar a feiticeira mais como uma
igual do que como uma professora. Isendra também estava mudando, e isso me
preocupava. Ela era muito permissiva com o comportamento da jovem. Sem ter o
que aprender, Li-Ming seguiu a curiosidade natural que sempre a instigara, e
então os problemas começaram.
Quando
surpreendi Li-Ming fuçando as prateleiras da biblioteca que abrigavam textos
proibidos, considerados perigosos demais para estudo, percebi que precisava
agir. Assumi o treinamento de Li-Ming apesar dos protestos de Isendra e passei
a vigiá-la de perto. Tentei estruturar e disciplinar a vida de Li-Ming e
apresentar a ela uma linha de estudos que levaria seus interesses para áreas
mais aceitáveis.
Sem a
responsabilidade de ensinar Li-Ming, Isendra já não tinha muito o que a
prendesse no Santuário Yshari e agora passava poucos dias ali. No entanto ela
permaneceu uma grande amiga, e seus conselhos sempre foram valiosos. Quando nós
três nos reencontramos muitos anos mais tarde, Isendra havia começado uma nova
vida longe do Santuário e de sua antiga estudante.
Eu
gostaria de poder contar com sua sabedoria agora.
O
verão deveria ter dado lugar aos dias frios de outono e inverno, como é a ordem
natural das coisas, mas depois de um ano o calor sufocante continuava desde os
confins do império ao sul até as Estepes Áridas ao norte. Ainda era o começo do
reino do Imperador Hakan II, e os supersticiosos falavam sobre aquilo ser um
mau presságio para o governo. Mesmo no deserto o clima piorou de forma nunca
vista. O calor implacável cobria tudo. Tempestades de areia e redemoinhos
grassavam pelos ermos escaldantes. Os Mares de Areia faziam jus ao nome. As
dunas se moviam criando um cenário inconstante,
Desencavando
enormes protuberâncias de pedra com bordas afiadas o suficiente para rasgar
carne e osso como dentes monstruosos se erguendo da areia quase tornara
vermelha como se tingida de sangue. O deserto engoliu vilarejos inteiros,
deixando apenas alicerces nus de pedra ou algumas paredes de lama onde antes
havia casas.
Mais
um ano se passou e o verão não dava sinais de acabar. O império secou. Mandei
uma mensagem para Isendra, pedindo que ela investigasse possíveis causas para
aquele clima. Saí de Caldeum e fui para o coração do deserto junto com Li-Ming
para tentar descobrir alguma pista.
Vários
meses se passaram, mas estávamos voltando para casa com mais perguntas do que
respostas. Li-Ming e eu viajávamos de camelo, e um dia Lut Bahadur lentamente
apareceu no horizonte. Era uma das maiores cidades das Fronteiras, em um trecho
de deserto onde a vida era possível, embora não fosse fácil. O calor parecia
algo vivo, se enterrava bem fundo sob nossa pele, eliminava qualquer lembrança
do frio. Eu usava vestes leves de algodão com um capuz e protegia o rosto das
tempestades de areia com um lenço de pano que deixava meus olhos descobertos.
Li-Ming já havia se tornado uma jovem mulher então. Os traços de inocência
infantil tinham-se apagado e ela agora possuía uma expressão séria que dava
lugar, às vezes, a um sorriso insolente bem ensaiado. Li-Ming usava suas
melhores roupas, apesar do calor, usando magia para suportar o incômodo.
— O
fim de nossa busca se aproxima, Li-Ming, e no entanto não estamos nem um pouco
mais perto de resolver o mistério desse verão sem fim — eu disse, enquanto
seguíamos.
— Eu
não sei explicar, Mestre. Creio que algo está consumindo o deserto. Parece que
os limites da realidade estão enfraquecidos, como quando olhamos à distância em
um sonho.
—
Talvez você apenas esteja sentindo o oceano de fogo e rocha derretida sob
nossos pés."
— Como
o sol acima de nossas cabeças? — perguntou, desafiadora. — Você não me leva a
sério, mas estou certa de que esse clima não tem origem natural. Quando eu
vasculhei os arquivos da cidade...
— Um
feito interessante considerando que é proibido sair do Santuário Yshari.
Li-Ming
me devolveu um olhar seco e continuou:
— Eu
examinei os registros do tempo. Nós nunca passamos por um período tão intenso
de calor. O Oásis de Dahlgur pode secar se isso não acabar logo.
—
Nisto concordamos.
— Mas
há mais — continuou Li-Ming. — Há algo no ar que não se parece com nada que eu
já tenha sentido. Era para estar frio e não está... Os ventos deveriam estar
calmos e não estão.
— Será
possível que você ainda insista em procurar uma explicação onde não há nenhuma?
Sabemos muito deste mundo e das estrelas sobre nós, mas no final isto pode
muito bem ser tão natural quanto às eras de gelo e neve. Você não viveu tanto
quanto eu, e os mistérios do universo devem parecer novos a você.
— Se
você acredita nisso, então por que estamos aqui, Mestre?
— Você
me pegou nessa — respondi, rindo.
Li-Ming
olhou em direção à cidade.
—
Há uma forte magia em nosso mundo. Por exemplo, as Terras do Pavor. Um lugar
inteiro destruído, e quem pode dizer se a destruição de lá não começou da mesma
forma? Já faz vinte anos desde que os Lordes do Inferno caminharam por nosso
mundo. Isendra me contou sobre a invasão fracassada. Talvez eles estejam
tentando outra vez.
— Às
vezes eu penso que você é tão ávida por cumprir o seu destino que chegaria a
agradecer se alguma calamidade se abatesse sobre nosso mundo.
— É o
meu destino, afinal de contas. E ele se concretizará mais cedo do que você
pensa.
Essa
era a opinião de Li-Ming, e Isendra partilhava dela. Li-Ming acreditava que um
dia iria deter uma invasão do inferno como Isendra fizera antes dela. Tudo por
causa de um livro que Li-Ming lera, uma profecia escondida em um dos volumes da
biblioteca que detalhava os sinais do retorno dos Lordes do Inferno. Isendra
várias vezes tentara me convencer de que a profecia era verdadeira, e embora eu
não ignorasse o perigo, permaneci cético.
Li-Ming
tinha muitos talentos, mas o maior deles era a leitura da magia. Ela era muito
observadora e sabia discernir com facilidade a estrutura oculta dos feitiços.
Uma vez eu lhe perguntei como era enxergar as coisas. Ela descreveu os fios
invisíveis da magia e as auras de poder arcano que se formavam ao redor dos
magos quando eles lançavam seus feitiços, e descreveu os borrões verdes e
vermelhos que ficavam no ar, como os que se gravam na retina quando olhamos
para o Sol. Ela sentia o gosto, o cheiro, via e sentia a magia. Assim, quando
Li-Ming me disse que o verão sem fim era causado por mão mortal ou algum outro
grande poder, eu fiquei propenso a acreditar nela, pois esta também era minha
opinião. Mas não falei coisa alguma, pois se aquilo fosse verdade, as
consequências seriam muito preocupantes.
Caldeum
ficava em uma extensa chapada que se erguia sobre o deserto. A chapada
terminava em penhascos íngremes, em cuja base ficava Lut Bahadur. Acima
das muralhas da cidade, moinhos giravam placidamente, em épocas normais, mas
agora muitos deles haviam sido derrubados e inutilizados pelos ventos fortes.
Toldos de lona desbotados e rasgados se estendiam sobre ripas de madeira que se
projetavam dos telhados de barro para oferecer alguma proteção contra o Sol,
mas de pouco adiantava, pois a sombra não oferecia alívio. Quase todos agora
usavam panos escondendo o rosto como eu, então não se podia ver nada além da
expressão dos olhos, cheios de medo ou esvaziados de esperança.
A
cidade estava morrendo.
Li-Ming
estava usando um de seus encantamentos favoritos, que gerava uma fina camada de
geada ao seu redor. O gelo no ar derretia tão rápido quanto ela o criava, e
assim, a olho nu, parecia que Li-Ming estava cercada por uma leve névoa. Ao
descer do camelo ela não usou o estribo e foi baixando lentamente no ar como se
correntes invisíveis a sustentassem, até tocar suavemente o chão. Aquilo atraiu
a atenção de algumas pessoas que estavam na rua.
— Você
tem que usar sua magia assim, de forma tão pouco discreta? — perguntei,
irritado.
— O
calor está insuportável, Mestre. Eu não sei como o senhor aguenta.
— Eu
aguento porque é necessário — respondi enquanto descia do camelo. — Você não
fará muitos amigos se comportando assim.
— Você
só se preocupa com meu comportamento quando é conveniente me repreender.
— É
culpa minha que isso aconteça com tanta frequência?
Embora
protestasse, Li-Ming dissipou o feitiço ao se aproximar de mim. A leve umidade
que a cercava sumiu imediatamente, absorvida pelo ar do deserto.
— Nós
estamos aqui para observar e fazer algumas perguntas, nada mais — lembrei-lhe.
—Observar
e fazer algumas perguntas. Nada mais — repetiu Li-Ming.
—
Cuide dos camelos — ordenei, ignorando a provocação.
— Não
era para observar?
—
Depois de cuidar dos camelos — confirmei. — Vou encontrar Isendra.
—
Isendra está aqui? — Li-Ming se animou.
— Sim,
está. Mas fique aqui. E... Li-Ming...?
— Sim,
Mestre? — ela perguntou, solícita.
—
Tente não se meter em encrenca.
Li-Ming
sorriu.
Protegida
pela parede do cânion, Lut Bahadur ficava resguardada quando o vento escaldante
soprava de oeste para leste, mas quando ele soprava de outra direção, a cidade
ficava exposta. Havia sinais de que o povo tentara construir uma proteção contra
o vento, mas esta ruíra há muito. Naquele dia o vento soprava do leste, mas não
tão forte que tornasse perigoso ficar ao ar livre. Li-Ming amarrou os camelos
perto do poço e olhou por sobre a beirada para o fundo. Eu não precisei olhar
para saber que estava vazio. A água estaria estocada em jarros, embora
provavelmente não restasse muita. Eu me dirigi até um dos homens sentados sob a
sombra inútil de um toldo rasgado e perguntei onde eu poderia encontrar a
feiticeira.
Subitamente
a terra sacudiu, rolando feito ondas sob nossos pés, e então um tremor mais
forte me jogou ao chão de terra batida. Quando olhei para cima, vi Li-Ming com
os braços erguidos na altura dos ombros. Seus dedos se moviam como se ela
manipulasse os fios de marionetes numa peça.
Tinha
sido obra dela.
—
Li-Ming! O que você fez? — gritei. O tremor continuava.
—
Venha aqui e veja isso — Li-Ming respondeu, orgulhosa, apontando para o poço.
Levantei-me e fui até ela, sentindo o chão tremendo sob meus pés. Quando me
curvei sobre a borda do poço, vi o brilho fraco de água se infiltrando através
da crosta seca no fundo. Li-Ming trouxera água, água de que a cidade precisaria
para sobreviver.
— Eu
encontrei água bem fundo, talvez um rio subterrâneo que escoa no Oásis de
Dahlgur. Desviei o fluxo para encher o poço. A cidade...
— Já
chega — interrompi, severo. — Eu disse que viemos aqui para observar e fazer
algumas perguntas, nada mais.
— Nós
podemos fazer mais, Mestre. Podemos construir um novo quebra-ventos ou
consertar o que foi destruído pelas tempestades de areia. Você sempre diz que
não devemos fazer nada. Mas por que
Nós
temos essas habilidades, se não para ajudar os outros?Eu estive pensando,
Mestre... Talvez com nossa magia nós possamos reverter o calor e acabar com a
estiagem.
— Nós
não faremos coisa alguma. Não é o nosso papel. E você melhor do que ninguém
deveria entender as consequências se nós tentássemos alterar o clima numa
escala tão grande — repreendi. — Você já se esqueceu do seu erro?
— Eu
não sou mais a menina que eu era. Eu aprendi. E nunca vou permitir o sofrimento
dos outros! — devolveu Li-Ming.— Me diga por que não podemos ajudá-los. Me diga
por que isso seria tão errado.
Apontei
para o poço, agora cheio de água, e disse:
— De
onde vem essa água? Para onde ela foi? Será que a água que chegava ao oásis
virá até aqui sem nenhum efeito colateral? Não se pode criar a partir do nada.
Você soluciona um problema e cria mais dez.
Li-Ming
era jovem e não se preocupava com detalhes. Ela agia impulsivamente, e só via o
que acontecia no momento.
— A
água já estava ali, Mestre. As pessoas podiam ter cavado mais fundo por elas
mesmas. Eu só facilitei.
—Seu
altruísmo lhe faz grande honra, Li-Ming, mas nós, magos, não podemos fazer
isso. Sim, às vezes é possível usar magia para ajudar as pessoas, mas não toda
vez, e antes de agirmos é necessário considerarmos cuidadosamente os custos
envolvidos. Isso não está aberto à discussão. Você vai me ouvir.
— Mas
Li-Ming está certa — respondeu uma voz de mulher.
—
Isendra! — exclamou Li-Ming, correndo na direção da feiticeira, que a abraçou
com carinho.
— Este
problema não nos diz respeito, nem a você — retruquei. — Li-Ming, deixe-me
falar com Isendra. A sós.
Li-Ming
franziu a testa e abriu a boca para falar, mas se conteve. Ela nos deixou e se
uniu aos homens e mulheres que estavam indo buscar água no poço, carregando
jarros e outros vasilhames. Fiquei olhando enquanto ela se afastava.
— Se
esse problema não nos diz respeito, então por que estamos aqui? — perguntou
Isendra.
— Às
vezes você e ela ficam parecidas demais — resmunguei. — Ela me disse a mesma
coisa.
— E
como ela está?
— Não
mudou muito com os anos. Continua tão impetuosa quanto no dia em que a
conhecemos. Me pergunto se fizemos bem ao ensiná-la.
— Ela
não se contenta em deixar as coisas como estão. Ela quer melhorar a vida das
pessoas.
— Ela
não pensa nas consequências. Ela vive no aqui e agora, mas eu e você sabemos
que é necessário ter muito mais em mente. Esse é o nosso fardo, liderar os clãs
de magos.
—
Li-Ming pode bem estar certa. Nós três somos os magos mais poderosos de hoje.
Unindo nossos poderes, por que não acabar com este verão e restaurar a ordem
normal das estações, não acha?
—
Esse pensamento tem origem nas emoções, não na razão — argumentei. —Nós não
podemos alterar o clima. Não vai funcionar.
—
Li-Ming jamais diria isso — retrucou Isendra.
— Você
não é Li-Ming. Ela é uma menina tola.
— Você
vê uma menina. Eu vejo uma mulher que pode salvar este mundo.
—
Profecia. Destino. — Dei de ombros. — Quem sabe o que o dia de amanhã trará? Se
isso vier a acontecer, você e eu enfrentaremos a situação e talvez Li-Ming lute
ao nosso lado. Mas ela não é a única que pode. E como vamos saber se as
profecias são verdadeiras? Os Lordes do Inferno deveriam ter atacado há vinte
anos. Nosso maior medo deve ser o medo de nós mesmos.
— Você
se tornou um homem medroso depois de velho — desafiou Isendra.
— E
você ficou descuidada. Você não irá interferir.
—
Farei o que eu preciso fazer — replicou Isendra, se retirando. — Assim como
você.
Depois
que Isendra saiu, fiquei observando Li-Ming. Ela estava ajudando um menino que
desmaiara de calor. Ele estava febril. Suas bochechas estavam vermelhas e suor
porejava em sua pele. Li-Ming lançou um feitiço e o ar em volta de suas mãos
esfriou. Quando ela levou as mãos para perto do rosto do menino, ele suspirou
pacificamente enquanto uma leve brisa soprava os cachos de cabelo grudados em
sua testa.
—
Obrigada — disse a mãe do garoto. — Andam falando de você. Mas você restaurou
nosso poço e salvou meu filho... Isso não me parece errado.
Li-Ming
sorriu e se levantou, mas quando chegou perto de mim sua expressão estava
séria.
—
Essas pessoas vão morrer — disse a jovem.
— Pode
ser. Mas nossa interferência talvez não impeça isso.
— Nós
jamais saberemos, não é? — Li-Ming protestou, seus olhos castanhos buscando os
meus. — Você verá os rostos deles em seus sonhos?
—
Deles e de muitos outros. Esta é a nossa maldição, Li-Ming, e você vai aprender
isso dolorosamente. — Coloquei minha mão gentilmente em seu ombro. — Vamos
embora.
Eu sei
que já contei essa história da última vez em que conversamos, mas omiti o papel
de Li-Ming nela, pois então era Isendra quem me preocupava na época. Você sem
dúvida concordará que minhas ações foram corretas, mas eu não sou um monstro.
Como sempre quando forçado a encarar essas situações, eu sentia grande tristeza
por não poder agir como Li-Ming gostaria e ajudar o povo de Lut
Bahadur.
Era uma discussão frequente em nossas vidas. Eu simpatizava com as ideias dela
mais do que ela imaginava.
Pouco
tempo depois você e eu nos conhecemos, pois eu me preocupava com Isendra e as
decisões que ela tomaria. Em meu coração eu tinha certeza de que o assunto não
estava encerrado.
Suspeito
que você saiba um pouco do que aconteceu em seguida, detalhes que eu não
conheço. Foi aí, eu acho, que Li-Ming começou a considerar a decisão que nos
levaria ao desastre.
* * *
* *
Meses
depois, em uma hora perdida da noite, minha porta se abriu e Li-Ming entrou.
Ela não costumava bater, uma peculiaridade de sua personalidade com que eu tive
que me acostumar. Ela me visitava cada vez mais raramente. Li-Ming parecia ter
acordado às pressas. Seu traje, normalmente impecável, parecia ter sido vestido
às pressas, e eu vi na furtividade dos seus olhos que algo a preocupava.
— Você
está sentindo? — ela perguntou.
— Não
sinto nada.
— Um
feitiço poderoso foi lançado a leste daqui. Não muito longe. Precisamos ir.
Algo aconteceu.
—
Podemos ir pela manhã — contestei.
— Você
precisa tanto assim de descanso, vovô? — Li-Ming falou com irritação, e então
ficou séria. — Foi Isendra, Mestre.
Fiquei
em silêncio, pois não sabia o que dizer. Mas cedi.
Saímos
do Santuário Yshari e partimos em direção a Lut Bahadur. Era para estarmos no
inverno, o terceiro inverno desde que o verão interminável começara, e o ar da
noite estava tão seco e quente como ao meio-dia. Apenas a ausência do sol nos
dava um pequeno conforto. Parecia que estávamos perto de um forno de
vidraceiro. O suor escorria pelo meu corpo, e minhas vestes grudavam na minha
pele.
Li-Ming
não falou nada enquanto seguíamos.
Lut
Bahadur estava quieta quando chegamos. Mesmo àquela hora o vento soprava areia
pelo deserto, e o único outro som que se ouvia era o leve bater das roupas
estendidas em varais perto de cada cabana. Ninguém andava pelas ruas, embora os
lampiões ainda estivesse acesos.Mas meus pensamentos se ocupavam de outra
coisa.
O ar
estava frio.
Um
arrepio correu entre meus ombros e por meus braços enquanto entrávamos na
cidade. O vento frio roçava meu corpo e, depois de tanto tempo suportando o
calor, meu corpo parecia rejeitar a sensação.
Mas
aos poucos eu senti meus músculos relaxando como se a tensão causada pelo calor
interminável estivesse se desfazendo com a carícia suave da brisa fresca.
Li-Ming
evocou orbes de luz e os despachou pela cidade. Ao desaparecerem de vista, a
luz bruxuleante iluminava o chão e os lados dos prédios pelos quais passavam.
Aquilo era algo novo. Eu não conhecia esse feitiço.
— O
que foi aquilo? — indaguei.
Li-Ming
ignorou minha pergunta e disse:
— Você
está sentindo o ar?
— Está
frio.
— Não,
não isso — corrigiu Li-Ming. — Há eletricidade no ar. Eu nunca senti isso assim
tão forte, e por isso não sabia dizer se a causa era um feitiço ou alguma outra
coisa.
Li-Ming
falou e calou-se, e eu senti a preocupação que emanava da minha estudante.
Eu a
segui enquanto ela avançava decididamente por ruas sinuosas, virando em certos
pontos. Era tarde da noite, mas ainda assim estava quieto demais. Os toldos de
lona se enfunavam sem produzir som, enquanto o vento enfraquecia. Não havia som
além dos nossos passos contra a terra batida. Eu ouvia as batidas de meu
coração ansioso. Caminhamos por entre as ruas abandonadas até que ela
finalmente se aproximou da porta de uma casa e a abriu.
— O
que você está fazendo? — sussurrei, entrando logo atrás de Li-Ming, consciente
do barulho de minhas botas no chão.
Eu
abri a boca para repreendê-la e estendi a mão para tocar seu ombro, mas as
palavras morreram em minha boca e minha mão parou. Dentro da casa, parecia que
o tempo havia parado de correr. Um homem, uma mulher e uma criança estavam sentados
ao redor de uma grande mesa, mas não perceberam nossa intrusão. Estavam frios e
rígidos feito estátuas. Os lábios da mulher se abriam para pronunciar uma
palavra que jamais fora dita. Ao lado dela, o homem se voltava para encarar a
criança, que estendia o braço sobre a mesa. A comida parecia ter sido preparada
e servida há pouco tempo, mas não havia calor. Era como se a luz do luar
tivesse sugado toda a cor e o calor da cena diante de mim.
— O
que aconteceu aqui? — perguntei em voz baixa.
— Eu
não sei com certeza — respondeu Li-Ming enquanto andava pelo cômodo, seus olhos
vendo sem ver, seguindo os rastros invisíveis de energias arcanas que eu não
conseguia discernir. — A forma do feitiço desaparece com o tempo. É como tentar
apreender o tamanho de uma tempestade depois que ela acabou, usando apenas as
poças no chão e as nuvens restantes no céu.
Saí,
sem esperar enxergar algo que eu não via, e aguardei Li-Ming do lado de fora.
Alguns minutos depois, ela retornou.
— Ela
tentou roubar o calor do ar para esfriá-lo, mas o feitiço fugiu ao controle. O
frio irrompeu e o ar congelou.
— Ela?
— perguntei, embora eu já soubesse a resposta.
—
Isendra. Eu reconheço o padrão da magia dela, assim como conheço o seu. E não
há muitos magos que poderiam ter tentado executar o feitiço que foi lançado
aqui.
—
Como isso aconteceu?
— Ela
não foi forte o suficiente. No início estava indo bem, mas quando o feitiço se
tornou mais forte, sua estrutura enfraqueceu e se desfez. — A voz de Li-Ming
falseou. — A culpa é minha.
—
Isendra pode estar precisando de nós. — Temos que encontrá-la.
Li-Ming
lançou as esferas de luz para nos ajudar em nossa busca. E em todas as casas a
mesma cena nos recebeu: todos os moradores congelados como estátuas em um
estranho museu, como em um cemitério silencioso. E não havia sinal de Isendra.
Uma
hora se passou até que a encontrássemos. A cabana se parecia com as outras, mas
Li-Ming tinha certeza de que Isendra estaria lá dentro. A jovem feiticeira
parou por um momento antes de empurrar a porta de ripas. Eu a segui.
Por
dentro, a cabana revelava-se diferente. Enquanto as outras permaneciam numa
quietude inquietante, nesta eram claros os sinais de uma luta violenta. Havia
grandes manchas negras nas paredes onde os tijolos de barro foram calcinados
por fogo. As mesas, cadeiras e outros móveis haviam sido queimados e
derrubados, e havia um forte cheiro de cinzas no ar. Ali eu consegui sentir
alguma coisa, mas não as evidências de magia que Li-Ming percebia. Era uma
reação primitiva e instintiva que fez os pelos do meu braço se arrepiarem.
Então vi aquilo que eu temia: Isendra, caída desajeitadamente como uma boneca
jogada fora. Sangue se acumulava em poças no chão de madeira, escorrendo das
feridas nos braços e estômago. A pele estava enegrecida, e a cabeça virada para
um lado, os olhos vagos encarando as tábuas do chão.
Li-Ming
correu até Isendra e se ajoelhou ao seu lado. Ela acolheu o corpo sem vida da
feiticeira em seus braços enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.
— O
que aconteceu aqui, Mestre? — Li-Ming perguntou.
Eu
sacudi a cabeça. Nós permanecemos lamentando em silêncio por algum tempo. Então
Li-Ming soltou delicadamente o corpo de Isendra e se levantou.
— Nem
todo esse fogo foi criado com magia — afirmou. — A magia do feitiço de Isendra
já está se dissipando, mas há um traço mais recente. Isto aconteceu depois.
—
Quando um mago perde o controle de um feitiço os resultados podem ser caóticos
— observei. — Eu já testemunhei isso várias vezes.
— Ela
não foi morta por magia, Mestre.
—
Talvez não, mas a magia fez com que isto acontecesse. A cidade foi destruída e
Isendra morreu. Quem ela conseguiu proteger? Quem ela conseguiu salvar? Me
responda! — Minha voz soava alta em meio ao silêncio inquietante.
— Você
está cego! — gritou Li-Ming, raivosa. —Isendra tentou ajudá-los. Isso é mais do
que você jamais fez. Eu não vou ficar só olhando e assistindo as pessoas
sofrerem. Nunca mais , principalmente agora que chegou a época em que o mundo
precisa de mim.
— E as
pessoas irão pagar com as próprias vidas pelo seu fracasso, da mesma forma que
esta cidade pagou pelo fracasso de Isendra? Você irá sacrificar inocentes por
suas noções infantis de heroísmo?
— Não
— respondeu Li-Ming calmamente.
Por
um momento minha aluna brilhante pareceu novamente uma menina. Olhei com
tristeza para a silhueta tombada de minha amiga, que já nãoparecia a pessoa com
quem convivi por tantos anos, e me calei.
Quando
chegou a hora de partir, Li-Ming ateou fogo à cabana com um feitiço. Isendra,
sua antiga mestra, ficou repousando pacificamente no chão, de olhos fechados. O
dever de Isendra fora cumprido. Enquanto o fogo aumentava e as chamas se
erguiam, água brotava e escorria por seu rosto feito lágrimas. Guiei Li-Ming
para longe da casa pelo braço.
Os
olhos de Li-Ming encontraram os meus. A mágoa e a raiva ainda estavam ali, mas
o que eu mais me chamou a atenção foi uma determinação sinistra:
— Mas
eu não vou fracassar.
Nós
atravessamos a cidade silenciosa, perdidos em nossos próprios pensamentos.
Saber o que cada casa escondia me deixava inquieto. Olhei para trás para
observar Lut Bahadur enquanto nos afastávamos, as estradas iluminadas pela luz
de mil lampiões bruxuleantes que sumiam na noite como um enxame de pirilampos.
Creio
que, naquele momento, Li-Ming começou a entender o perigo de suas ações e o que
o fracasso poderia causar. Nós não falamos novamente da morte de Isendra até a
última vez em que a vi. Será que Li-Ming sabia por que Isendra morreu? Sabia
como ela foi morta?
Os
acontecimentos de Lut Bahadur não arrefeceram nem um pouco o desejo de Li-Ming
por conhecimento. Ela ficou obcecada em aprender mais e ter sucesso onde
Isendra falhara. Ela passava horas na biblioteca e sempre conseguia entrar onde
era proibido. Apesar dos meus esforços, era impossível contê-la. Ela aprendeu
magia temporal a partir dos escritos de magos que estenderam seus tempos de
vida bem além dos homens normais e leu a respeito de outros que tinham ficado
tão poderosos a ponto de iludir a morte, magos como o enlouquecido Zoltun Kell,
que substituiu seu sangue pelas areias do tempo e não podia ser morto, apenas
aprisionado. Tendo aprendido sobre a teia invisível de poder arcano, Li-Ming
dominou a habilidade de se projetar de um lugar a outro com magia de
teleportação. Dominou a arte de forjar ilusões vivas e assim criar duas imagens
perfeitas de si mesma que imitavam suas ações. Ela leu pergaminhos e
interpretou diagramas que ensinavam a desafiar e dobrar as forças invisíveis do
universo. Seu poder aumentou muito, assim como minha preocupação.
Da
primeira vez que nos encontramos, eu pedi a você que ficasse de olho em Isendra
apenas por medo de que ela tentasse alguma loucura. Não questiono a decisão que
você tomou.
Um
pouco depois disso, Li-Ming fez sua própria escolha.
O teto
em abóbada do enorme salão octogonal do Santuário Yshari era pintado com cenas
da história dos clãs de magos. Oito portas abriam-se para saguões e outras
câmaras, nenhum tão grande quanto o salão principal. Cada centímetro das
paredes era coberto por tapeçarias espetaculares, e as lajes do chão vinham das
pedreiras além dos Mares Gêmeos.
Quando
eu entrei, Li-Ming estava no centro da sala, observando os padrões no assoalho.
O salão estava vazio, exceto por nossa presença.
— Eu
não queria ir embora sem avisar — começou Li-Ming, ao ouvir meus passos. — Acho
que devo isso a você.
— E
para onde você está indo? — perguntei.
— Uma
estrela cadente atravessou os céus hoje caiu a oeste. Este é o sinal por que eu
estava esperando. Você leu os mesmos livros proféticos que eu. Você sabe o que
isso significa. Nós esperamos a invasão do inferno há vinte anos, mas ela nunca
aconteceu. As histórias e as notícias sinistras que tenho ouvido no bazar me
deixaram certa disso. Minha hora chegou.
— O
seu lugar é aqui, como estudante do Santuário Yshari. Você é uma fagulha, e
nosso mundo está seco e propenso a incêndios. Você não consegue se controlar, e
se eu deixar que você parta, o que você pode causar será pior do que qualquer
catástrofe que eu possa imaginar.
— Já
não tenho mais nada a aprender com você.
— Você
se lembra do dia em que nos conhecemos, Li-Ming? Hoje você sabe muito mais do
que sabia então, mas você não ficou mais sábia. Se você partir, você será uma
mera arcanista.
— Não
preciso da sua sabedoria. Eu sou uma arcanista, e vou proteger o mundo,
já que os magos não fazem nada! — Li-Ming me virou as costas.— Me deixe seguir
meu destino. Você ficará a salvo aqui com seus livros e seus medos.
Ergui
as mãos e, canalizando uma pequena quantidade de energia arcana, fiz com que
todas as portas do Santuário se fechassem com estrondo. Uma a uma elas bateram
até que ficamos presos no grande salão.
—
Então eu tenho que deter você. — Enrolei cuidadosamente as mangas de minhas vestes.
— Você foi minha melhor estudante, Li-Ming, e eu acreditei que, com o tempo,
você poderia me suceder e liderar os clãs de magos. Achei que a aluna superaria
o mestre. Lamento muito que as coisas tenham que acabar assim. Talvez o
fracasso seja meu.
— Você
foi um bom professor, Mestre. E eu aprendi suas lições. Mas você nunca
entenderá a dádiva que nos foi dada. É por isso que eu o superarei — bradou
Li-Ming, e suas palavras ecoaram pelo salão.
Eu vi
os olhos de Li-Ming se estreitarem enquanto ela se concentrava. As tochas
presas às paredes começaram a tremeluzir ao começarmos a drenar a energia à
nossa volta. As mãos de Li-Ming se moveram para os lados do corpo e seus dedos
se curvaram enquanto nos postávamos um diante do outro,
Imóveis
feito rochas na correnteza de um rio. Abaixei meu cajado e o segurei à minha
frente, usando-o para focalizar meu poder.
— Você
já se perguntou, Mestre, se eu seria mais forte que você?
— Não
— respondi sorrindo. — Nunca.
Esperei
que Li-Ming agisse primeiro. Ela conjurou bolas de fogo que absorveram a luz
das tochas e pareceram ofuscar a luminosidade de fora, mas isso foi apenas uma
ilusão dos meus olhos se ajustando ao escuro. A jovem arremessou os orbes
contra mim. Eu os repeli para o assoalho, onde eles explodiram, queimando o
mármore, mas sem me atingir. O ar ficou incandescente e senti meu fôlego
encurtar. Li-Ming olhava para mim com uma expressão divertida, mas já aprontava
o próximo ataque. Derrubou grandes blocos de pedra do teto, incendiando-os e
arremessando-os em minha direção. Ergui o cajado e liberei uma onda de força. O
domo brilhante se expandiu e bloqueou os meteoros incandescentes,
estilhaçando-os numa nuvem de pó e fragmentos que recobriram o chão. O escudo translúcido
havia me protegido do ataque, mas a reverberação ecoava dolorosamente pelo meu
corpo. Em minha juventude, eu mal teria sentido alguma coisa, mas naquele
momento eu me prostrei de joelho ao chão. As lajes de mármore ao meu redor
racharam com o choque, feito um espelho quebrado, e até Li-Ming cambaleou para
trás.
— Você
terá que fazer melhor que isso — desafiei.
Li-Ming
grunhiu de frustração. Desta vez ela disparou fogo das palmas das mãos em finos
feixes iridescentes que avançaram até mim, e tive que me esquivar para escapar.
Quando os raios atingiram a parede, marcaram a pedra como a lâmina de uma faca.
Os raios estraçalharam o piso de mármore e senti o chão começar a se
despedaçar. Estendi os braços para diante, encontrando as pedras que ameaçavam
se esfacelar e prendendo-as com fios invisíveis. Se as soltasse, o chão
desabaria, e eu junto com ele. Sob o grande salão ficam as catacumbas, e eu não
sobreviveria a uma queda daquela altura. O esforço de manter tudo suspenso era
demasiado, e os nós de meus dedos ficaram brancos enquanto eu apertava meu
cajado.
Li-Ming
olhou para o meu lado do salão, onde o chão estava rachado e quebrado. Moveu a
mão e a pedra sob meus pés desapareceu. Isendra me ensinara um truque há muito
tempo e, lembrando-me dele na mesma hora, eu sumi e reapareci a alguns metros,
onde havia apoio para meus pés. A agonia da teleportação, mesmo a tão curta
distância, era imensa. Senti como se tivesse sido rasgado em milhares de
pedaços e então costurado com linha incandescente. Era impossível saber o que
doía mais. Li-Ming destruiu meu novo apoio e me teleportei outra vez. Repetimos
essa dança por algum tempo, mas minhas reações ficavam mais lentas a cada vez,
e eu sentia a batalha exigindo mais do que o meu velho e frágil corpo podia dar.
Bati
com meu cajado no chão e o impacto soou como um trovão. Em um piscar de olhos,
arcos de relâmpago faiscaram pelo salão. Onde eles pousavam, o chão explodia
lançando estilhaços de mármore para o alto. O relâmpago explodiu com força
percussiva e partiu em direção a Li-Ming. Mas sem acertá-la. As rebarbas
retorcidas de luz congelaram no ar enquanto Li-Ming estendia os braços para
diante, se concentrando intensamente. Sem me deixar deter, continuei a evocar o
relâmpago, e a tempestade ficou mais e mais forte. O relâmpago se abatia sobre
Li-Ming como um leque aberto até que ela não pôde mais contê-lo. A eletricidade
se propagou através dela e a arremessou no chão, explodindo ao redor numa
cascata de faíscas e luz branca.
Li-Ming
desapareceu.
Sem
saber das intenções dela, incendiei a tempestade, e a eletricidade explodiu em
um inferno de chamas que preencheu todo o grande salão e chegou a calcinar
minha carne, ameaçando exaurir o que me restava de força. Quando Li-Ming
apareceu novamente, estava cercada pelas chamas. Ouvi seus gritos
Conforme
o fogo a queimava. As lajes estremeciam sob meus pés enquanto eu me aproximava.
Mantendo o feitiço que impedia o chão de desabar, apontei meu cajado para a
silhueta enrugada da arcanista.
O piso
pareceu sólido, e eu me postei diante de Li-Ming, aliviado por conseguir me
apoiar no chão.
— Você
ainda tem muito o que aprender, Li-Ming.
Tentei
golpeá-la com meu cajado, mas não atingi coisa alguma: o corpo de Li-Ming havia
se dissolvido no ar.
Eu me
virei a tempo de vê-la atrás de mim. Abri a boca e tentei lançar um feitiço,
qualquer feitiço, mas uma explosão me desconcentrou. Perdi o controle do
encantamento e do chão partido a meus pés. O chão tremeu, se despedaçou e tudo
desabou. Caí longamente nas trevas, até bater no chão de pedra fria das
catacumbas.
Eu
fiquei lá, sentindo meu corpo maltratado doer, e me vi cercado pelo cheiro de
fogo e poeira. Li-Ming flutuou até onde eu estava e pousou, ajoelhando-se perto
de mim.
— Você
acha que eu não aprendi suas lições, mas eu aprendi. Aprendi a lição da morte
de Isendra. Mas eu recebi meu poder por um motivo, e é meu fardo usá-lo. E vou
usá-lo, não vou ter medo dele como você.
— E se
você não conseguir controlá-lo? — Minha voz saiu num sussurro rouco. — Com seu
poder, você pode destruir o mundo.
—
Então que o mundo chore. — Li-Ming virou as costas para mim. — Há algo que
preciso perguntar, Mestre.
Fiquei
quieto, pois sabia o que viria em seguida. Não havia mais nada que Li-Ming
pudesse aprender comigo.
— Por
que Isendra morreu? Me diga a verdade.
— Eu
sei apenas o que você já sabe.
Li-Ming
assentiu com a cabeça e começou a levitar.
Abri a
boca para falar novamente, mas as sombras engolfaram tudo.
Quando
acordei, dias depois, Li-Ming havia abandonado a cidade, e ninguém sabia para
onde ela tinha ido. Disseram-me que era impossível esconder o acontecido, pois
a coluna de fumaça que se ergueu do Santuário foi vista por toda Caldeum, e do
lado de fora era possível perceber as marcas da batalha nas pedras destruídas e
rachadas.
Aqui
termina meu conhecimento acerca da história da arcanista, e minha decisão me
aguarda. Quando os magos ameaçaram destruir nosso mundo, um mestre Vizjerei
fundou a ordem dos assassinos, os caçadores de magos, que garantiriam que
jamais ficaríamos tão poderosos a ponto de ameaçar o mundo. Ele se postou aqui
em meu lugar, e falou com o primeiro assassino assim como eu agora estou
falando com você, e assim ele condenou muitos grandes magos à morte.
Quanto
a mim... Esta será a segunda vez que eu faço isso.
Acredito
que ela sabia que fui eu quem enviou você para vigiar Isendra... E apesar
disso... Ela me deixou viver, sabendo que assim como eu selara o destino de
Isendra, eu faria o mesmo com ela.
Saiba,
no entanto, que Li-Ming não mentiu. Há livros em nossa biblioteca que descrevem
os eventos que podem estar acontecendo neste exato instante. Tudo começa com
uma estrela caindo dos céus, e uma estrela caiu no dia em que eu lutei contra
Li-Ming.
Conheço
a verdadeira natureza da magia, e de quem e do que eu sou. Li-Ming também sabe
disso, mas escolheu outro caminho. Esse é o quebra-cabeças diante de nós,
assassino. Eu sei do mal que nos espreita, mas temo o que Li-Ming possa tentar
fazer. Assim, condeno à morte minha aluna mais brilhante, talvez a maior
esperança de salvação do mundo, e rezo para que eu tenha tomado à decisão
certa.
Ainda
me lembro de uma menina que ficou diante de mim aqui nesta sala, sem temer
nada. Lembro de uma jovem altruísta que queria fazer o bem, para quem tarefa
nenhuma era pesada demais, para quem nada era impossível. Uma jovem que me
procurou em busca de orientação.
Ela fez sua escolha, e eu fiz a minha.