História
Paralela nº1
Depois de um domingo de trabalho,
Marcelo observa as ruas escuras de dentro do ônibus que o leva para casa. Com
uma mochila no colo e fones no ouvido, ele está sentado em um banco duro
ouvindo sua música preferida e imaginando uma vida perfeita…
O veículo para e
uma jovem loura de óculos adentra o coletivo, passa a catraca e, observando
brevemente os lugares disponíveis, senta-se ao lado dele. Sua chegada seria
totalmente despercebida pelo cansado rapaz se a jovem não tivesse arremessado
violentamente sua cabeça contra o banco da frente.
Marcelo tira um
dos fones do ouvido, colocando uma das mãos sobre o ombro da jovem:
- Moça… Tá tudo
bem? – ela levanta a cabeça com nítido esforço, sorrindo envergonhada, enquanto
ajeita uma mecha de cabelos dourados:
- Sim, foi só um
enjoo.
Ele deseja em silêncio
que ela não vomite ao seu lado.
Poucos quarteirões
adiante a loura começa a grunhir alto, chamando a atenção de quase todos os
passageiros. Marcelo não ouve, pois está imerso demais em sua música, tocando
uma bateria imaginaria enquanto pensa em si mesmo em cima de um palco.
Somente quando a
jovem começa a agitar-se no banco e as pessoas se levantam, ele percebe que
algo está errado. Retira os fones do ouvido e percebe que a garota ao seu lado
parece convulsionar. Ele instintivamente afasta-se dela, colando suas costas na
janela do ônibus, em desespero.
Uma senhora
gorda, de cabelos pretos brilhantes, começa a gritar:
- Segura ela!
Alguém segura ela! – sua voz fina e estridente em nada melhora os ânimos dos
passageiros.
Outro homem que
estava mais ao fundo adianta-se e segura a jovem, deitando-a no chão do
veículo. Alguns observam curiosos, enquanto alguns desesperados começam a
gritar. O cobrador grita ao motorista para que pare o ônibus, mas antes que seu
pedido fosse atendido, uma viatura de policia e um caminhão de médio porte
chocam-se em frente. O ônibus freia e todos, inclusive a garota que
convulsiona, são atirados para frente pelo impacto da freada brusca.
Com o veículo já
parado, outro grito chama a atenção.
A jovem que
antes convulsionava aparentemente está consciente, seus dedos parecem querer
perfurar os ouvidos do pobre homem que a ajudava e, para espanto de todos, a
garota morde seu nariz, ignorando os golpes que ele desfere, em uma tentativa
inútil de se soltar. Todos se afastam da cena. Marcelo, com a testa sangrando
pelo impacto e o coração acelerado, tenta chegar até a porta mais próxima, que
já está aberta.
Desviando das
pessoas que agem como uma manada em fúria, ele chega até a saída, mas então vê
algo que o faz seu corpo gelar.
Marcelo não é
capaz de assimilar o ocorrido imediatamente, mas o ônibus está sendo invadido
por pessoas que, correndo e grunhindo como demônios e com sangue por todo rosto
e roupa, atacam todos que conseguem alcançar, devorando e arrancando membros
vorazmente.
História Paralela nº2
“Sonhos não
colocarão dinheiro no seu bolso, homens sim’’”.
Minha mãe sempre
dizia que uma garota bonita e de destino miserável igual ao meu só ganharia a
vida de um jeito… Na cama de alguém. Talvez ela estivesse errada, mas esse foi
o caminho que segui. Não me orgulho do que faço, mas sobrevivo.
Todas as manhãs
ao acordar tenho esperança de que vou superar esse destino, seguir por um
caminho que me levará até um bom lugar, uma vida pela qual valha a pena viver.
Mas a noite sempre chega e, mais uma vez, deixo em casa quem sou e adoto a
máscara da desonra…
Um palco, uma
dança e uma cara sensual. A música embala meus movimentos lentos e ensaiados
enquanto encaro um homem grisalho que me assiste da plateia. As luzes amarelas
e vermelhas combinam com o cheiro de licor e sexo e eu combino com o dinheiro
que é oferecido como porta de entrada para um lance maior…
A noite está
quente e meu corpo está suado, arrepiando-se com o leve vento que entra pela
pequena janela ao lado. Ouço vozes masculinas chamando meu nome… Amanda é como
eles me conhecem aqui.
Garçonetes com pouca roupa servem drinks para os clientes que, no geral, são
homens matrimoniados e bem de vida que gostam de luxúria fácil e explícita.
Levanto meus
cabelos com as duas mãos, descendo vagarosamente até o chão… Minhas pernas doem
e minha cabeça lateja. Esse não é meu melhor momento, mas aqui eu não tenho
direito a momentos bons. Engatinho até o grisalho e danço de quatro para ele…
Minha visão está turva. Concentro-me e tento parecer normal, sexy e
descontraída…
É isso que ele deseja ver.
‘’Porco imundo’’
Meus joelhos parecem estar
sobre cacos de vidro… Meu rosto se contorce de dor e mordo meu lábio inferior
com força, fazendo-o sangrar. O gosto doce e enferrujado é tão forte que faz
meus olhos lacrimejarem.
- Dança pra
mim, gostosa! – ele ordena em meu ouvido, ignorando qualquer ferimento em mim.
Não posso. Meu
corpo está sendo massacrado por uma força invisível que esmaga cada músculo que
movo. Olho para ele com os olhos molhados e ternos, esperando que ele entenda
que não continuarei o show. Com o apoio das mãos tento erguer-me, mas as mesas,
cadeiras, homens e mulheres ao meu redor parecem flutuar…
‘’O que está ocorrendo comigo?’’.
Sinto que vou
desmaiar. Tombo para trás, deitada.
Meus olhos
tentam se fixar no teto que roda acima de mim, mas minhas pálpebras pesadas e
ásperas traem-me… Sinto-as como se rasgassem minhas pupilas.
- alguém… Socorro – balbucio com esforço nítido.
Uma voz feminina ecoa distante:
- Liguem pro
socorro! Ela está tendo uma convulsão.
Posso ver
rostos angustiados observando-me… Eles seguram meu corpo sem saber que o toque
de suas mãos queimam minha pele.
Parem! Vocês
não estão me ajudando! – eu tento dizer, sem sucesso.
Não tenho
domínio sobre minhas ações e, aos poucos, um véu preto cobre meus olhos.
Escuridão.
Será que estou
morta? Um calafrio percorre minha espinha, fazendo-me gelar…
‘’Abra os olhos
Jéssica’’
- Amanda,
acorde! – Uma garçonete com quem eu costumo conversar grita para mim.
Minha visão
ainda está embaçada, mas consigo vê-los à minha volta. Um cheiro doce e
apimentado adentra minhas narinas e cavalga por meu corpo, rasgando meu
estomago tão selvagem e intensamente que me faz gritar.
Eles afastam-se de mim com um olhar
assombrado, dizendo coisas sem sentido.
‘’O que está
acontecendo? Não entendo o que estão falando!‘’
Será que estou
sonhando? Isso se parece muito com um sonho…
Minha cabeça
dói e meu estômago dilacera meu interior. Eu sinto raiva, fome, sede, ódio… Não
consigo me controlar.
Minha visão
finalmente começa a adaptar-se, mas onde estão as cores? Tudo que vejo são tons
de cinza, preto e branco. Vou enlouquecer. Mexo meu corpo desesperadamente a
fim de levantar-me e sair desse lugar maluco e de perto dessas pessoas inúteis
e retardadas que nada fazem por mim.
- Eu
vousodfrrr.
Eles me encaram e gritam… Não
entendo nada! Como isso é possível?
- Me
ajuddddsmrrr!
Minhas mãos
agarram os cabelos e orelhas de um asiático que passa ao meu lado.
- Aaaarrrh
Uma das orelhas
que puxo desgruda-se do rosto dele e rapidamente a levo até minha boca.
Eles tentam
tira-lo de minhas garras, mas eu os afugento com urros que nem mesmo sei de
onde vem… A carne que mastigo enquanto esmurro e abato minha refeição é
maravilhosa, tão divina e viciante que não consigo pensar em nada que possa se
comparar. Isso me faz bem!
- AAAAAAHRRHR
A cada pedaço
que engulo meu corpo agradece diminuindo minhas dores e revigorando-me, mas eu
sinto que preciso de mais e mais. Raiva e ansiedade dançam com minhas entranhas.
’’O que me tornei?’’
História paralela nº3
Amarrado em uma cadeira de madeira, José observa Ricardo acender algumas
velas para iluminar o quarto depois do apagão repentino que os acometeu.
- Entenda, eu não queria
machuca-la, mas minha exultação ultrapassou um pouco os limites de seu frágil
corpo. Enfim, isso não importa… Gabriele sabe que as coisas que faço por ela
são por amor. - Ricardo comenta tranquilamente.
José debate-se em
mais uma tentativa frustrada de libertar o corpo das amarras, apenas ansiando
poder correr até a pequena cama onde, desmaiada, sua pobre filha se encontra e,
com braços ternos, abraça-la. Ricardo põe-se ao lado do corpo imóvel de
Gabriele e acaricia os cabelos da garota de forma nitidamente atordoada.
- Tenho muito que lhe agradecer Sr. José…
Sua filha foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. – ele levanta a fina
blusa de cetim que ela está vestida, despindo seu ventre e busto – Tenho muito
que ensina-la como professor e principalmente como homem.
Com um sorriso no
rosto, ele passa a ponta dos dedos pelo umbigo da garota, deslizando-os até a
cintura.
José fecha os
olhos regados em lágrimas e sente seu peito apertar-se em uma grave aflição que
percorre cada espaço de sua alma pagã. Toda a dor que já sentiu em sua
complicada vida não é capaz de confrontar a angustia de assistir sua filha ser
molestada e não poder agir e a culpa de nunca ter notado que o lobo morava ao
lado, disfarçado de cordeiro, e apenas esperava o momento certo para atacar…
Gabriele começa
a retomar os sentidos. Os grandes olhos azuis são despertos para dar
continuidade ao terrível pesadelo que já dura mais de um sono. Ainda
entorpecida, ela sente as grandes mãos quentes de seu professor colonizarem seu
corpo. Com os pulsos enlaçados à cabeceira da cama, torna-se ainda mais
vulnerável as malícias do homem que se deita sobre ela, beija seu pescoço e
alisa suas pernas.
Aos poucos Gabriele
é invadida novamente, estilhaçada em vários pedaços que jamais poderão ser
colados… Não pode gritar, pois Ricardo a amordaçou assim como fez com seu pai,
José. Ela clama a Deus em pensamento, pedindo misericórdia pela insanidade ali
incumbida. A cada estocada que recebe, pede desesperadamente que Ele à leve
embora, pois seu corpo está destruído e seu espírito humilhado.
Ricardo coloca
mais força em seus movimentos e encara o rosto abatido de sua presa, sorrindo
sobre seu pranto soturno. Ele abocanha um dos seios da molestada e os suga com
violência. José chora, sufocando-se em seu próprio desespero.
Gabriele
conserva-se imóvel. A água quente que escorre de seus rebentos molha todo seu
delicado rosto. Ela fita seu querido pai, ansiando que ele não estivesse ali
presente. Ricardo prossegue com a tortura, passando a boca para o outro seio…
Seus dentes cercam o mamilo e o mordem com força, fazendo Gabriele gemer de dor
e contorcer-se. Ele não para… Aperta o pedaço macio de carne e sem mais demora,
arranca-o impetuosamente. Sangue espirra para todos os lados, denso e
abundante. José agita-se furiosamente, caindo no chão. Ricardo suga o liquido
viscoso que jorra do buraco feito no seio como uma maldita sanguessuga. Em meio
à carnificina, ele retira seu membro rígido de Gabriele e, com rapidez
descomunal, enfia dois dedos na garganta da menina, perfurando-a. Com a boca
vedada, ela se afoga em seu próprio sangue, aliviada por finalmente morrer.
José grita abafadamente, batendo a
cabeça contra o chão de granito em desespero. Seus pensamentos confusos se
entrelaçam com tristeza e ódio. Ricardo deixa o corpo da garota de lado, e com
os olhos vermelhos, pula da cama em movimentos desengonçados, porém ativos,
atingindo a lateral do rosto de José com socos liquidantes, assolando a face e
a vida do pai amargurado em poucos instantes.
Então, com as
mãos sujas de morte, ele esmurra a própria cabeça, urrando e babando… Da forma
mais assustadora possível, ele leva os pedaços moídos de José até a boca e os
mastiga, soltando barulhos abissais que soam como uma gargalhada chorosa e
bestial.
História Paralela nº4
Jacinto tem um armazém na
zona portuária de Salvador. Ele vende farinha, fubá, café e outros gêneros
alimentícios que ele compra na cidade alta e vende fiado para os pescadores, a
preços que eles conseguem ir pagando devagar, mas conseguem. Ele é
compreensivo, sabe que o dinheiro é pouco.
Entretanto, se
existe algo que realmente sustenta sua família, permitindo que suas filhas
tenham uma educação melhor que a dele, é a solidão dos homens que vivem do mar.
Marinheiros vêm de longe, deixam suas casas e suas famílias em sua terra natal
e vagam por um mundo brutal e estranho, os que não tem família são piores
ainda, cães do mar sarnentos e amargos, estivadores são brutos e insensíveis e
pescadores são montanhas russas, indo do júbilo de um bom dia de pesca à
depressão de mais um amigo ou parente perdido nas ondas de uma tempestade.
Jacinto vende a
bebida onde todos afogam seus problemas, incluindo ele mesmo. Ele teria muito
mais dinheiro se não estivesse bêbado a maioria do tempo, perdendo as contas de
quanto seus fregueses lhe devem, sendo estúpido e quase violento quando a filha
mais velha, Janaína, tenta ajudá-lo a organizar o caderno onde ele tenta manter
as dívidas dos clientes mais costumais em ordem. Mesmo assim ele consegue ser
um homem decente a maioria do tempo, especialmente com as duas filhas.
O velho Jacinto
odeia violência, desde sempre, na verdade ele tem uma alma covarde, e somente
na defesa de seu armazém e de suas filhas ele é capaz de puxar o calibre 38,
presente de um primo policial. Algumas vezes os marinheiros mais bêbados
precisam de uma “ajuda” para lembrar e que não devem brigar dentro do armazém,
então ele apenas grita e sacode a arma acima da cabeça, sem nenhuma habilidade
ou vontade de usá-la.
Sempre existem
histórias e notícias no porto, e os bares são os lugares onde rumores se tornam
fatos e fatos são distorcidos em lendas por bocas alcoolizadas e carentes de
atenção. Jacinto as escuta com toda a atenção fingida que ele aprendeu a
desenvolver através dos anos, faz parte do trabalho. Eles não pagam somente
pela bebida, pagam também pelo direito de chorar suas mágoas com o garçom. Um
marinheiro de um cargueiro alemão conta, entre soluços e tropeços no português,
sobre como sua esposa o largou por um “begegnen“.
- Fala em português,
não mistura a língua, porra do caralho! A voz de Jacinto zomba da dificuldade
do marinheiro, que começa a tossir e se contorcer de uma dor súbita.
Janaína está ajudando o pai naquele começo de noite. Ela trabalha em um
escritório de contabilidade como recepcionista e namora um dos contadores, que,
apesar de ser mais de dez anos mais velho que ela, é um homem fascinante, que a
completa totalmente. Apesar do desgosto do pai em relação ao namoro, ela o
mantém, em parte pelo prazer de desagradar o pai.
- Pai ele tá
passando mal, para de dar risada!
Jacinto demora
menos de vinte segundos para se recompor, mas foi tempo demais.
Outro
marinheiro, colega do homem que contava a história, larga sua cerveja e vai
ajudar o amigo que se contorce em cima do balcão e quando o dono do bar se
aproxima deles para ordenar que o desgraçado fosse vomitar lá fora, de
preferência no mar, ele vê a cena mais escabrosa de sua vida, que o perseguiria
em seus sonhos pelos anos que seguiriam.
O marinheiro
doente estava com a cabeça apoiada no ombro do outro, da mesma maneira que um
bêbado faria, mas a farsa acabou quando o jato rubro de sangue arterial
esguichou feito espuma do mar, manchando até o teto do bar e gerando uma série
de gritos desesperados, do homem mordido, das pessoas ao redor, da pobre
Janaína, que não consegue tirar seus inocentes olhos da carcaça do homem sendo
devorada por seu próprio amigo, seu irmão do mar.
Ele precisa de
alguns segundos para entender o que deve fazer, pega o calibre 38 de seu
esconderijo debaixo do balcão, coloca-lo no topo da cabeça daquele mostro
disfarçado de homem, o demônio estava distraído demais com seu banquete para se
incomodar, puxa o cão da arma para trás e aperta o gatilho.
É a primeira
bala que aquele 38 dispara, em mais de quinze anos que ele está de guarda
naquele armazém.
Jacinto está
tremendo, não foi à mão dele que disparou aquela arma, foi o medo. O medo que
ele sempre teve de que não fosse homem para sua esposa, que não seria capaz de
criar suas filhas depois da morte dela, que ele não seria capaz de lidar com
álcool, com o medo daquela aberração que apareceu em seu bar. Ele sente o
cheiro e o calor e sabe que se urinou nas calças. Mesmo assim a primeira coisa
que ele pensa é em cobrir os olhos de Janaína para que ela não presencie mais
do inferno que se instaurou naquele humilde boteco.
História Paralela nº5
Outra noite cobre
os céus, tão densa e assustadora quanto todas as outras antes dessa, mas a
pequena Isabelle sente que o vento gelado que entra pela janela está levemente
diferente. Sua mãe, que parece mais morta que viva, balbucia com esforço
algumas palavras incompreensíveis. A garota aproxima o ouvido da boca da mulher
para tentar ouvir melhor:
- o que a senhora disse? – pergunta. A
respiração quente e fraca da mãe coça-lhe a pele.
- á-água.
- Vou pegar água pra você… – disse –
Ah, e não se preocupa com o papai… Daqui a pouco ele vai chegar pra cuidar de
você também. Ele só tá demorando porque hoje tem futebol na televisão. Ele
sempre assiste ao jogo no bar com os amigos dele, né?
Mesmo
sem conhecer a palavra e seu significado, todas as perguntas de Isabelle para a
mãe são retóricas. Respirou fundo e, engolindo um possível choro, foi buscar a
água. Da parede entre a sala e a cozinha um grande relógio grita que já passa
da meia noite. Um calafrio gelado percorre as costas da garota, fazendo-a
tremer de baixo a cima. Não gosta de relógios. Eles são os acusadores de que o
tempo passa e tudo que ela ama vai embora.
‘’- Sua mãe não tem muito tempo
de vida sobrando, mas não posso pagar um hospital ou alguém para cuidar dela,
então você vai fazer isso‘’.
Maldito
tempo que passa tão depressa… Deseja intensamente que algum dia alguém cuide
dela, ou que pelo menos possa voltar à escola e ser uma criança normal. Faz
muito tempo que não sabe o que é ser criança. A ultima memória que tem de ter
sido feliz é de algum tempo atrás, na casa de sua avó. Isabelle ama aquele
lugar como ama poucas coisas na vida. Uma velha casinha com jardim nos fundos,
onde uma grande arvore carrega um balanço colorido. Bons tempos que se foram.
Tem vontade de chorar ao lembrar-se, por isso evita pensar. Volta para o quarto
carregando um copo d’água e, com a maior delicadeza e habilidade possível, dá
de beber a moribunda que um dia foi sua mãe. Um dia que ela não se lembra, pois
era muito pequena. A mulher quase não bebe nada, mas parece acalmar-se depois
disso. Isabelle coloca o copo sob o criado mudo e vai até a janela contemplar a
vista da rua, que é iluminada por alguns poucos postes de luz. Ao fundo,
dobrando a esquina, uma figura caminha cambaleante. O coração da garota da um
salto ao agarrar-se a esperança de que possa ser seu pai. Debruça o corpo para
frente e observa com mais atenção. Ela identifica a figura masculina de seu
genitor.
-
Ele chegou! O papai chegou mãe! – grita. A mulher parece não ouvir.
Eufórica,
Isabelle sai do quarto e corre até a porta da sala, abrindo-a. Então, sem
conseguir controlar-se, chama:
- Pai? É você? – diz
aos pulos.
A
figura, atraída pela doce voz aguda da criança, começa a andar mais rápido. Isabelle
não estranha o jeito torto do caminhar do pai, pois ultimamente ele tem bebido
demais. Mais do que sempre.
Ao
chegar à entrada da casa, o rosto do homem fica visível. Definitivamente é ele.
Finalmente chegou em casa e a garota poderá desfrutar de uma companhia de
verdade por alguns instantes, antes que ele desabe em qualquer canto e durma
roncando como um porco gordo. Está tão feliz que não nota as pequenas manchas
de sangue na roupa de seu pai e a enorme ferida que tem em uma das mãos.
- Pai, ainda bem
que você chegou… Não aguentava mais esperar. Adivinha o que aconteceu hoje? – e
antes que a animada Isabelle pudesse começar a contar como foi seu dia e
desabafar suas longas histórias ele ajoelha e abraça-lhe.
Com
uma onda de surpresa ela retribui… Está um tanto assustada, mas carente demais
para questionar. Não está acostumada com abraços. Mas algo está estranho… O
abraço se prolonga e começa a ficar muito apertado. Sufocante. Ela sente o ar
faltar nos pulmões e os ossos estralarem. Tenta livrar-se dos braços fortes do
pai para respirar, mas como um cão raivoso ele morde-lhe a garganta, arrancando
um enorme pedaço de pele e músculos. A garota sente uma dor fina atingir seu
pescoço, seguida por um choque elétrico que percorre suas veias enquanto, aos
poucos, uma cortina preta desce sobre seus olhos. Com o olhar confuso e
distante Isabelle avista o relógio acusador na parede. Ele não acusa mais. Está
girando os ponteiros e mostrando que seu tempo está quase no fim. Pensa na mãe,
na avó, no balanço colorido… O pai muda o foco da violência e agora desfere
mordidas sobre os ombros e braços da filha que, anestesiada, quase não sente
nada. Não sente medo. Apesar de entender que está em uma péssima situação,
sente-se em paz. Suas têmporas estão pesadas demais e algumas lágrimas escorrem
descontroladas. Finalmente pode fechar os olhos sem preocupar-se em como será o
amanhã. Com um último suspiro e um pensamento feliz, recebe seu futuro de
braços abertos. Seu tempo zerou.
História Paralela nº6
O corpo se debate
com força na água enquanto é sugado para o fundo do oceano, deixando uma mancha
vermelha na água límpida banhada pelos primeiros raios de sol.
- Cara, o que você fez? – Paulo observa a cena com espanto.
Diego tem meia dúzia de olhos arregalados grudados nele. Os planos de diversão
estão afundando assim como o amigo que ele acabara de matar.
- Você enlouqueceu! – Beatriz berra aos prantos repetidamente.
- Ele me atacou! Vocês estavam aqui… Vocês viram! – Diego contorce o braço
ferido que pulsa sangue pela mordida profunda.
- Isso não justifica o que você fez cara… Ele era seu amigo – Paulo observa
enquanto o iate se afasta do local onde o corpo foi jogado.
Diego sente um forte enjoo atingir seu estomago. Cambaleia até a lateral do
barco e coloca a cabeça para fora, vomitando um liquido fino e avermelhado.
Seus olhos lacrimejam e um gosto enferrujado de sangue cobre seu paladar.
A manhã está ensolarada, e o cheiro salgado do mar que o vento trás é forte e
selvagem. O cais está ainda distante.
Beatriz manuseia o celular desesperadamente em busca de sinal, mas seu esforço
é em vão. Ela joga o aparelho em um canto qualquer, nitidamente perdendo o
autocontrole.
- Nós estamos muito ferrados, definitivamente ferrados.
- Eu não acredito que isso está acontecendo – Paulo anda de um lado para o
outro com as mãos na cabeça, tentando achar uma solução para o problema.
- Não… Vocês não fizeram nada, eu fiz – Diego tenta acalmar a situação e
acalmar Beatriz, aproximando-se lentamente dela. Anos de namoro deram a ele
conhecimento suficiente para saber que ela iria surtar.
- Não chega perto de mim, assassino! O que você quer comigo? Me matar e depois
jogar meu corpo no mar também?
As palavras o acertaram em cheio, emergindo lembranças que há muito haviam
adormecido em um canto esquecido de sua mente.
- Escuta o que você está dizendo… Eu jamais te machucaria – Falou tentando
segurar as lágrimas que ameaçam quando o que menos queremos é demonstrar
fraqueza.
- Eu sei exatamente por que você fez isso… – ela rosna enquanto arranca à
aliança de compromisso que Diego havia comprado três anos atrás – Você matou o
Caio porque descobriu que nós estávamos juntos, não foi? Você descobriu que a
única coisa que eu sinto por você é pena! Três anos aguentando seus problemas
apenas por dó, mas agora isso acabou – Ela encara o anel por uns segundos e
então o atira na água – ACABOU!
Diego fica paralisado. Seus pés parecem pisar em um chão gelatinoso, e o sol
forte que clareia todo o recinto lhe parece esverdeado, sem vida. Todas as
lembranças felizes dos anos que passou sem desconfiar de tal traição rodam em
sua cabeça.
Sua boca é incapaz de pronunciar qualquer palavra.
Ele fita os olhos de Beatriz, mas já não encontra a mulher que dava sentido em
sua vida. Encontra apenas dois lindos olhos castanhos cheios de ódio e repulsa.
Sente-se envergonhado e enganado.
Por um momento questiona-se se isso é um sonho, mas o balanço do mar e o sangue
espalhado pelo chão do iate deixam claro que não. Sua vida realmente está
desmoronando.
Um barulho atrás dele o tira do transe.
Beatriz encara algo atrás de Diego com os olhos arregalados. Ele se vira
rapidamente para saber o que está acontecendo e é atingido por uma pancada no
rosto.
Ele cai, perdendo a visão por alguns milésimos de segundo.
- Acerta mais forte! – ele ouve Beatriz gritar. Não enxerga o agressor, mas
sabe que é Paulo, seu irmão. Outra surpresa desagradável.
E então é atingido novamente, mais uma vez e outra vez mais, sentindo a vida
esvanecer-se de si lentamente até perder a consciência.
Beatriz e Paulo ficam em silencio, observando o corpo desacordado de Diego. A
preocupação é densa, e o terror está claramente estampado em seus olhares, mas
eles repetem mentalmente, em uma tentativa chula de amenizar o pânico, que o
rapaz apenas desmaiou e que ninguém mais morrerá ali hoje.
Paulo deixa os dois para trás e caminha angustiado até a proa do iate. Observa
atentamente o porto, agora a poucos metros de distancia.
Suas veias congelam e por alguns instantes acredita que perdeu a lucidez.
O porto está destruído, pequenos barcos estão praticamente de ponta cabeça e focos
de incêndio podem ser vistos ao longe, atrás das casas e prédios da orla.
Nenhuma pessoa ou ser vivo à vista. Apenas carros espalhados por todos os
cantos e lixo por todos os lados. A praia está totalmente abandonada, e o
cenário parece saído de um filme apocalíptico.
Beatriz se aproxima, hipnotizada com a visão de uma guerra.
- Meu Deus… – ela sussurra boquiaberta.
Embora possam ouvir sirenes ao longe, custam a encontrar algo que possa ter
causado tamanha destruição. Estiveram fora por apenas três dias!
- O que aconteceu por aqui…? – Paulo solta a frase no ar – O que vamos fazer? –
Alterna a visão entre o corpo de Diego e o cais. Já não sabe mais distinguir o
certo e o errado. Primeiro a morte de Caio, depois apunhalara o próprio irmão,
e então a ruína desse lugar. Tudo isso está pirando sua razão.
- O deixamos aqui e vamos embora – Beatriz sugere sem desviar o olhar da
destruição enorme daquele lugar maravilhoso – Ligamos para a polícia do
telefone do Hotel. Acho que essa vai ser a menor preocupação deles agora.
Paulo arrasta o
corpo do irmão com certa dificuldade e o coloca em um canto acobertado do iate,
certificando-se de que fique bem protegido.
- Ele foi obrigado a fazer aquilo… Caio estava totalmente fora de controle,
rosnando e babando feito um cão raivoso. Eu teria feito o mesmo – diz enquanto
se corrói em ansiedade.
Beatriz está desembarcando.
Paulo faz o mesmo, evitando ficar sozinho com a presença acusadora do irmão.
- Maldita hora em que resolvi fazer caridade e aceitar as investidas do seu irmão…
Se ao menos ele fosse… – Um puxão violento no braço cessou sua frase e a fez
cambalear.
- Muito cuidado com as suas próximas palavras… Eu ouvi tudo que você disse pra
ele lá em cima e não vou esquecer. Não me interessa que tipo de relacionamento
doentio você e Caio escondiam, mas agora ele está morto e meu irmão está
fodido, entendeu a situação? É melhor você colaborar – Paulo sussurrou
ameaçadoramente em seu ouvido e então a soltou com um empurrão.
Beatriz sente-se humilhada. Lágrimas de raiva acumulam-se em seus olhos e um
ardor característico queima-lhe o peito. Sua cabeça fervilha raivosamente, mas
ela mantém-se impassível por fora.
Eles caminham em silencio até chegar à avenida principal.
- Apavorante… Parece que alguma coisa muito grande aconteceu enquanto estávamos
fora– Paulo comenta ao chegar ao local.
As calçadas estão cobertas por papéis e lixo. A maioria das casas parece
intacta, embora uma ou outra apresentem sinais claros de invasão. Os carros
abandonados com as portas abertas chamam a atenção. Eles se aproximam com
cautela, observando atentamente o interior de um dos veículos.
- Que idiota largaria o carro no meio da rua desse jeito? – Beatriz
questiona-se.
- E com a chave na ignição… – Paulo ressalta.
Por alguns momentos esqueceram seus problemas maiores e deixaram-se levar pelo
susto surreal de encontrar um local urbano abandonado de ponta cabeça.
Um cheiro distante de queimado pode ser sentido, embora o foco do incêndio não
seja visível.
- Onde está todo mundo? Não vimos ninguém desde que desembarcamos.
Paulo sente um desconforto na boca do estomago. Algo está muito errado e ele
sabe.
- Não faço ideia, mas não parece coisa boa – Ele teme pelo pior.
Logo um estouro ensurdecedor os atinge, fazendo-os empalidecer de susto.
- Mas o que…? – Ela observa as chamas consumirem dois carros no fim da avenida.
O acidente foi rápido.
Em um momento tudo estava vazio e quieto e então dois carros chocaram-se
bruscamente, saídos sabe-se lá de onde.
- Puta merda! – Paulo corre para o local do acidente, impressionado com o
tamanho do fogo e do estrago.
- Espere! – Beatriz grita, mas ele não dá ouvidos.
O clarão das chamas é intenso. Paulo sente o calor aumentando a cada passo,
fazendo-o suar. Do fundo, Beatriz tem uma visão ampla da avenida, agora
interditada pelo incêndio e destroços.
Ela aperta os olhos duas vezes para ter certeza de que não está sendo
trapaceada pela adrenalina do momento.
- Impossível… – diz boquiaberta.
Varias silhuetas formando-se dentro do fogo vão aparecendo. Uma após a outra, e
logo uma dúzia delas podem ser apontadas.
- Impossível… – repete em transe, sem nenhuma reação.
Paulo diminui o passo, pois o calor chegou ao seu limite. A breve distancia em
que se encontra das labaredas não o deixa perceber o perigo.
O rapaz é surpreendido por vários indivíduos inflamados saindo das chamas.
- Meu deus do céu… – ele exclama.
Beatriz permanece intacta. O medo a prende no chão.
Paulo caminha de ré, incapaz de tirar os olhos daquela cena perturbadora. As
tochas humanas caminham rápido em sua direção, como se ele fosse capaz de
acabar com seu sofrimento.
Ele continua recuando. Conforme avançam os corpos caem no chão, totalmente
carbonizados e impossibilitados de andar… Ou viver.
Beatriz inspira aceleradamente, mas sente que nenhum ar entra em seus pulmões.
Mais e mais corpos vão se formando nas chamas, e a cena torna-se irreal.
Paulo, agora mais distante do incêndio, começa a perceber a gravidade da
situação. Vira-se para correr daquele lugar infernal, mas é pego por uma visão
obscura.
Uma aglomeração de pessoas ensanguentadas cobrem as costas de Beatriz, que
parece não perceber.
- Atrás de você! – ele grita e gesticula. Sua voz sai rouca e abafada, mas ela
entende seus sinais.
Vira-se com receio do que possa encontrar atrás de si. Sua mente está sobrecarregada
de estresse e medo. Dúzias de pessoas com aparência funesta estão a menos de um
metro dela, rosnando e babando.
Ela pergunta-se como não os ouviu, mas não chega a nenhuma conclusão, pois é
atacada cruelmente por mãos e dentes que a rasgam e ferem sem piedade. Seu
grito é afogado pelo sangue que jorra de sua garganta. É esquartejada
dolorosamente, mas nada se compara à dor que deixou em Diego.
Os que não conseguem alcançar Beatriz caminham na direção de Paulo. Vagarosa e
angustiadamente.
- NÃO! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? O QUE QUEREM? – Ele berra desesperado,
chorando como um bebê.
Está num beco sem saída. Não tem para onde correr ou se esconder. O fogo e as
pessoas moribundas trancam todas as suas escapatórias. Nenhum carro ou casa
abertos ao alcance, nenhuma ajuda externa… Cada segundo que passa tentando
formular uma solução o aproxima do pior.
Lembra-se de sua família, lembra-se do irmão. Uma dor atinge seu peito de forma
irreparável.
Todas as coisas que planejou fazer não serão feitas. A culpa que carrega no
peito não será aliviada, e não existe nada que possa ajuda-lo.