sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Alíada da Morte


Desde que eu nasci, conheço o rosto da Morte.
Era ela que se inclinava sobre o meu berço e me ninava com canções fúnebres, quando eu não passava de apenas um bebê. Então, para mim, o rosto de caveira da Morte era até mesmo mais comum do que o rosto dos meus próprios pais. Na verdade, MORTE foi à primeira palavra que falei.
Juro é verdade. Naquele dia mamãe começou a rezar, e papai ficou fumando um charuto em sua poltrona, pálido como um fantasma. Pelo menos foi isso que a Morte me contou. No dia seguinte fui batizada, com orações fervorosas ao meu redor. Naquela época eu não sabia – não tinha como entender – que todas aquelas pessoas viam minha amiga Morte como algo ruim, um mau presságio. E eu era a criança que havia proferido a palavra de mau agouro.
Lembro-me da morte me olhando do fundo da igreja. Ela ficou encostada ao lado de uma cruz, com os braços de cadáver cruzados sobre o peito e com sua inseparável foice ao seu lado. O que ninguém mais ali entendia era que minha amiga não era uma coisa má. Ela era gentil, amistosa, compreensiva e ás vezes, nos melhores dias, bonita.
- Esses vivos! – ela dizia, passando a mão de ossos no meu cabelo escuro. – São uns grandes covardes! Se agarram à Vida, a cruel e injusta vida, e fogem de mim, a pacífica Morte. E somente depois que os carrego comigo para o além é que percebem que a Morte é piedosa e suculenta, e enxergam o quão injusto foram comigo!
Depois, me olhava quase docemente.
- Mas você é diferente, Katrina. Você foi escolhida. A única criança que não chora ao ver minha face, nem mesmo tem medo de algo. Nada, absolutamente nada te assusta. Você é minha aliada.
Eu concordei. E Cresci.
Eu estava em meu quarto lendo um livro de terror quando mamãe entrou carregando um embrulho. Minha mãe se chama Anita. É uma mulher loura, enérgica e radiante. Minha irmãzinha caçula, Angélica, é muito parecida com ela. Mas eu sou o oposto, em minha palidez desbotada e meus cachos e olhos escuros como breu.
- Tenho uma surpresinha para você! – exclama ela, estendendo o tecido brilhante e rosado no meu nariz. Faço uma careta de nojo.
- Não quero vestir isso. – faço uma pausa, fechando o livro e me sentando na cama de pernas cruzadas. – Escute, mamãe... Não é porque deixei você fazer a bendita festa de quinze anos que vou deixar você decidir o que eu vou usar, OK?
O olhar dela ficou severo de repente, e ela colocou as mãos na cintura, com a testa franzida. - Katrina, preste atenção: essa coisa de “gótica” já me cansou. Eu sei o que é ser adolescente e querer ter uma identidade própria, mas não vou deixar minha filha ficar andando por aí de preto da cabeça aos pés para o resto da vida, como uma viúva perturbada.
- Já terminou? – pergunto. Como ela não responde, eu começo. – Em primeiro lugar não sou gótica. – digo, com as minhas dúvidas. – Não pinto o cabelo nem frequento cemitérios. Eu nem escuto rock! Em segundo, a senhora sabe que não tenho amigos e não quero festa nenhuma, mas insistiu tanto para organizar o maldito evento e eu acabei cedendo. Mas ter que vestir uma coisa que eu não gosto é o cúmulo!
Minha mãe senta na cama com um suspiro.
- Tudo bem! Você venceu! Mas você bem que poderia se enturmar com outros jovens e ser mais sociável. Não custa nada.
- Mãe... Eu sou diferente. Não vou mudar. – Se ela soubesse quem é a minha amiga...
Ela passa a mão bronzeada e macia sobre o meu cabelo escuro. Ela vestindo seu terninho pêssego que usa no escritório, e eu com uma camiseta velha, calça legging azul – desbotado e pés descalços.
- Tem razão. Não tem que mudar o que você é. Mas, de uma vez por todas, para que todo esse “luto eterno”?
Dessa vez abro um pequeno sorriso.
- Por que o preto é a única cor que me sorri e me alegra.
***
 A Morte, é claro, foi à convidada de honra na minha festa de quinze anos. Mas quando eu entrei no salão cheio de gente, ela não estava lá. Acho que eu era uma visão meio chocante: vestido de alças (preto e longo, sem nenhum detalhe), cabelos escuros (ondas que batiam em minha cintura) olhar assassino (maquiagem escura nos olhos, e as sobrancelha direita erguida com superioridade), e lábios repuxados de reprovação (pintados de vermelho sangue).
Eu deveria parecer uma aparição – uma bonita aparição. Um rapaz se aproximou de mim e me serviu uma taça de champanhe de cereja.
- Gostou da decoração? – pergunta.
Olho para o mundo rosado e cheio de babados ao meu redor.
- É nojento. – respondo hostil e seca. Não sei por que estou agindo assim. Sou uma isolada e acho que quero que os outros me vejam como uma gótica maluca e sombria. – Me dá vontade de VO-MI-TAR.
Ele ri.
- Você é muito engraçada. – diz, enquanto se afasta.
Dou de ombros e levo o champanhe até a boca, mas logo me arrependo: o gosto de ferrugem me dá vertigens. Sangue. Jogo a taça de cristal no chão, cheia de repulsa. Vejo o cara que me deu a taça no outro lado do salão, rindo com outros adolescentes. Rindo de mim e da brincadeirinha idiota que fizeram com a “vampira esquisitona”. Borbulho de raiva. Sinto dentro de mim a revolta, o vexame; tenho vontade de matá-los! Onde está a Morte quando se precisa dela?
Meu pai me puxa de repente para um abraço. Ele já tem o cabelo meio grisalho e algumas rugas de expressão, mas me parece jovem com seu terno acinzentado. Ele sorri.
- O que houve aí com esse champanhe? Está tão ruim assim? – pergunta ele, olhando para a sujeira de sangue e cacos no chão aos meus pés.
Eu não respondo, pois nesse momento vejo a morte caminhando pelo salão cor – de –rosa. Me afasto do meu pai e vou até ela. Mas antes que eu diga qualquer coisa, ela pousa sua mão de caveira em meu ombro.
- Venha comigo. – pede ela. E eu vou.
Quando dou por mim, estamos em um cemitério. O vento frio chicoteia em minha pele e eu estremeço.
- Há muito tempo tenho esperado por hoje. – diz ela, caminhando de braços dados comigo, por entre os túmulos. – Hoje vai se cumprir uma antiga profecia sobre a Morte e sua aliada.
- É mesmo? – pergunto sem interesse.
Ela ergue meu rosto com sua mão esquelética, fazendo-me encarar suas órbitas vazias e profundas.
- Olhe para mim, Katrina. Você sabe que eu adoro meu trabalho de carregar as almas para o além, não é? – concordo com a cabeça. – E isso é bom para elas também, pois depois da vida há coisas muito melhores. – paramos de andar e a voz dela fica mais áspera. – Katrina, é hora de mudarmos o mundo. Hoje você passará por um teste, e se for bem, abriremos o Portal.
Sinto sangue seco em meus lábios.
- Que tipo de portal? – pergunto.
- O Portal que separam mortos e vivos. – responde ela. – Com sua abertura, as almas e os mortais compartilharão do mesmo mundo. Não seria ótimo?
Hesito por um momento. Não sei se essa história é muito legal...
- E qual é o teste? – pergunto enfim.
A morte sorri com suas fileiras de dentes brancos e retos.
- É muito simples. Basta escolher uma pessoa... E entregá-la a mim.
Um arrepio percorre a minha espinha.
- Tenho que matar alguém?
- Exatamente. Mas é mais fácil do que se imagina. Katrina, você não é uma assassina. Só precisa escolher uma vítima, a forma como ela vai morrer e pronto! Acontecerá!
- E o que eu ganho passando nesse teste?
- Essa é a melhor parte: você demonstrará que está ao lado da Morte definitivamente, e assim ganhara a força, a velocidade e capacidades além do que você pode imaginar! Então iremos abrir o Portal do Além juntas!
Nunca vi a Morte tão satisfeita antes. Lentamente, abro um sorriso. Damos as mãos e começamos a pular alegremente. Sinto-me enlouquecer: a Morte e eu bailando de forma demente em um cemitério, na noite escura e fria do meu aniversário...
- Então, querida, quem é o escolhido? – pergunta ela quando paramos de dançar.
Penso um pouco, raciocinando friamente.
- Escolho o rapaz que me serviu uma taça de sangue na festa! – digo, com um sorriso demoníaco e batendo palmas alegremente. – O quero bem aqui, sepultado neste túmulo!
- E como você quer que ele morra?
- Enterrado vivo! Prenda-o no caixão e deixe-o gritar e implorar até morrer com falta de ar!
A Morte sorri com aprovação. E quando me dou conta, posso ouvir os primeiros secos e berros dentro da tumba. Meu rosto perde a pouca cor que tem, mas disfarço isso com um sorriso.
- Pronto! – exclama minha amiga. – Agora é só aguardar que ele perca o ar e eu erguerei sua alma, enquanto lhe dou seus novos poderes!
- Para que esperar? – digo, apressadamente. – Dê-me o poder agora! Logo o infeliz morrerá, mesmo!
Posso ver um breve instante de hesitação no rosto da Morte, mas ela logo se volta para mim.
- Tem razão! Katrina, aliada da Morte, eu lhe dou esses poderes como minha fiel súdita!
A Morte encosta sua unha preta na minha testa. Um calor estranho começa a penetrar em minha carne. Os berros no caixão estão começando a diminuir... Rápido Morte!
Então sinto a explosão de calor e força, que começa por minha cabeça e inunda o resto do meu corpo, jogando-me para trás. Poder. Muito poder. Ele arde em minhas veias como chamas.
Fico caída alguns segundos na relva do cemitério, e quando abro os olhos tudo parece embaralhado, confuso e colorido. A Morte se inclina sobre mim, estendendo a mão.
- Como se sente Katrina? Venha. Vou lhe ajudar a controlar seus novos poderes.
Mas eu a ignoro. Ergo-me desajeitada, e quando tento cambalear para o túmulo de onde só se escutam gemidos, acabo correndo tanto que quase passo reto por ele.
Com uma força que eu nunca tive, quebro a tampa de concreto da tumba e violo o caixão de madeira. O rosto do garoto está muito vermelho e assombrado, e seus pulmões aliviados sugam desesperadamente o oxigênio que o ar da noite oferece. Sua pele é brilhante a luz do luar. Fico ali contemplando o rosto daquele que eu condenei e agora salvei. E quando me viro, levo um susto: Ali está a Morte, carregando a ira do inferno e feia como o diabo.
- Você me traiu! – a voz dela é um gemido rouco e arrastado. – Você me enganou, Katrina. Você não matou sua vítima como combinamos!
Comecei a rir. A rir. Dei uma sonora e deliciosa gargalhada.
- Eu te enganei, Morte! Te passei a perna! – digo cantarolando e saltitando.
A Morte ficou mais colérica. E mais feiosa.
- Eu confiei em você, Katrina. Mas você traiu meu maior segredo! Eu retornarei e me vingarei! Conte com isso! – e desapareceu em uma nuvem negra.
Eu sabia que aquelas palavras não eram palavras vans. Ela vai tentar me carregar da próxima vez. Mas eu estarei pronta. E lutarei. O rapaz que eu não sei o nome conseguiu se esgueirar para fora do túmulo, ainda assombrado.
- Que tipo de ser você é? – sussurra ele.
Olho em volta. É quase dia, mas meus novos olhos conseguem ver muito além da escuridão da madrugada. Sou forte. Sou rápida. Sou poderosa.
- Sou Katrina. – respondo. – Ex-alíada da Morte e agora sua inimiga.
Então corro para casa, em minha nova velocidade. No horizonte, surge os primeiros raios da Aurora. Amanheceu.
PARTE 02

Faz seis messes que eu não vejo a Morte. E, por mais estranho que pareça, não sinto a sua falta. Não mais. Acho que, inconscientemente, escolhi a vida quando tirei aquele garoto do túmulo, na noite inesquecível do meu aniversário...
E, para falar a verdade, acho que fiz a escolha certa. Quando não se esta ocupada conversando sobre coisas sombrias com a sua “amiga” Morte, se tem muito mais o que viver. Quero um pouco de luz e vida agora. Nem que seja uma pequena centelha de calor.
Quando cheguei em casa depois da noite do meu aniversario, já estava amanhecendo, e eu me sentia demasiadamente confusa e perdida. Logo eu percebi, enquanto ignorava as broncas dos meus pais por ter desaparecido e deixado todo mundo preocupado, que eu tinha agora novos poderes. Mas a parte assustadora é que eu não sei exatamente no que me transformei.
Tem a parte que eu aprendi a controlar rápido, como a velocidade e o tato delicado. O mais difícil foi me adaptar a minha nova super visão, a audição extra sensível e a minha força sobre-humana, que aumentam quando necessárias.
O resto eu fui levando. Sabe, sei que isso vai surpreender você, mas eu tenho amigos agora. Parece impossível, mas eu, Katrina, a antiga aliada da Morte, fiz amizade com humanos quase normais.
Tenho três amigos na escola agora. Tenho a Elisa, um tipo de garota engraçada e “fofa”, mas que não parece ter muito raciocínio lógico. Também tem a Diana, a gótica fixada por histórias de vampiros e rock pesado. E também tem o Vic, outro solitário esquisitão, mas um amigo leal. Somos as ovelhas negras do colegial. Do tipo pra quem o resto da escola torce o nariz e ignora, sabe? Mas a gente nem liga.
Começou de novo em um dia aparentemente normal no colégio. Eu e meus amigos estávamos sentados na mesa de sempre, a mais isolada e longe dos “populares”, ou seja, as garotas ricas e burras e os garotos atletas e idiotas.
Eu estava comendo uma maça que trouxe de casa, Diana se satisfazia com sua Coca-Cola diet e os outros dois, Vic e Elisa, comiam batatinhas. Diana começou a cantar um rock qualquer, bem baixinho, enquanto tamborilava os dedos na mesa, e eu a acompanhei. Vic começou a jogar batatinhas para o alto, e Elisa revelou uma habilidade incrível para pegá-las com a boca. Estava tudo muito bem.
Então, um grito.
Vinha do andar térreo, provavelmente de uma das salas de aula vazias. Éramos os mais próximos de lá, então fomos os primeiros a correr na direção das salas, seguidos por uma multidão de curiosos. Nas duas primeiras salas não havia nada, mas a terceira nos aguardava com uma surpresa bem desagradável: o cadáver de uma das serventes. O cheiro de ferrugem entrou pelas minhas narinas, e só eu podia senti-lo.
A sala de aula parecia ter se tornado uma cena de filme de terror, e eu praticamente esperava que algum monstro ou assassino aparecesse ao meu lado a qualquer minuto.
O sangue dela ainda estava bem líquido, escorrendo pelo piso em uma poça vermelha. Ela havia sido esfaqueada na garganta, e depois arremessada contra a parede. Diana cambaleou e saiu correndo, com as mãos na boca. Elisa começou a gritar, desesperada, e Vic a puxou para fora da sala. Pude escutar a multidão entrando em pânico lá fora.
Não me importei, e continuei parada onde estava, com os olhos fixos na parede no fundo da sala. Letras de sangue haviam sido rabiscadas lá, e eu não conseguia parar de olhar para a mensagem, decorando cada palavra:
Prepare-se, Katrina, pois a próxima será você. Morte.

Viaturas da polícia chegaram, os vídeos de segurança foram revisados, mas ninguém havia entrado ou saído da sala além da faxineira. A direção da escola teve que dispensar todos os alunos, e não teríamos aula naquela semana, para não prejudicar o trabalho da perícia. Fui até escoltada para casa, todos temendo pela minha segurança.
Mas tudo aquilo era perda de tempo. A Morte carregou aquela mulher, só para me mostrar o quanto estava perto. Mas não era isso o que mais me assustava. A Morte não pode assassinar uma pessoa. Seu trabalho era carregar almas, não destruir vidas. A maldita tinha um novo aliado. Alguém que estava fazendo esse serviço negro com o apoio dela. Alguém que ela simplesmente transportou para aquela sala, sem precisar atravessar a entrada ou o corredor da escola. Mas quem?
Quando cheguei em casa, meus pais se mostraram preocupados, mas eu os ignorei. Até mesmo minha irmãzinha de cinco anos, Angélica, demonstrou preocupação. E eu até cheguei a abraçá-la para tranquiliza-la, aquela menina que parecia mesmo um anjo de luz.
- Espero que você fique bem. – me disse ela, com um doce sorriso.
- Vou ficar. – digo, querendo acreditar nas minhas próprias palavras.
Antes de subir para o quarto, olho para a minha família. Mamãe e Angélica são louras e radiantes como rainhas, papai é grisalho e charmoso, e eu sou pálida e sem vida. Uma intrusa naquela família perfeita e normal.
Me tranquei no quarto e me deitei. Como a Morte era teatral! Ela não podia deixar um bilhete em cima da minha cama, avisando que quer a minha alma? Precisava tirara a vida de um inocente por isso?
Enterrei minha cabeça no travesseiro, ouvindo meus pais discutindo aos sussurros no andar de baixo. A Morte nem sempre foi assim. Antes ela só realizava seu trabalho com vontade e destreza.  Que aconteceu com ela? Por que ela ainda pretendia abrir um tal portal para os espíritos? Pensei tanto nessa questão, que adormeci.

A névoa cobria meus pés. Estava em um lugar escuro, cheio de colinas e vales. Me parecia familiar, mas ao mesmo tempo eu sabia que nunca havia estado ali. Comecei a caminhar e tropecei em uma cruz. Estava no cemitério, mas ele parecia muito diferente.
Comecei a ouvir vozes. Me encolhi atrás de um túmulo e agucei minha audição, de acordo com o meu poder.
- Aceita ser minha nova aliada, totalmente fiel e leal a mim? – disse a voz rouca da Morte, em algum lugar ali perto.
- Aceito. – disse uma voz que eu não reconheci. – Aceito o compromisso da imortalidade, do poder, e também aceito ajudá-la a abrir o Portal do Além, oh, Morte!
- Sendo assim, eu a faço minha eterna aliada. – diz a Morte, e juro que consigo perceber um sorriso em sua voz seca. – Que matemos Katrina, nossa inimiga!
- Sim, morte a Katrina!

Acordei com um grande sobressalto. Não foi um simples sonho. Isso estava acontecendo nesse exato momento, no cemitério. Olhei para o relógio do quarto. Já eram onze e cinquenta e cinco da noite. Em cinco minutos, a Morte e sua nova aliada irão abrir o Portal do Além, e eu sou a única que pode impedi-las!
Calço minhas botas pretas de caminhada e visto meu casacão de couro preto. Saio de casa correndo, me sentindo trêmula. Com o meu novo poder, minha velocidade é tão grande, que penso que vou chegar a tempo. A esperança aperta tanto o meu coração, que chega a doer.
Sem pensar, derrubo a porta do mausoléu principal, onde sei que a Morte deve estar me esperando.
- Não! – é tudo o que consigo gritar.
A Morte se volta para me encarar, surpresa. Seu rosto de caveira não era tão mal assim antes. O pequeno vulto ao lado dela também se volta para mim, com uma expressão aborrecida.
- Katrina?! O que você está fazendo aqui? – pergunta Angélica, fazendo um beicinho de zanga. – Você sempre tenta estragar tudo! – ela começa a bater os pés no chão, e a chorar, birrenta. – Por que você se mete? Por quê?! Você sempre foi a melhor não é? Mas agora a Morte é a minha amiga!
- Controle-se, criança. – diz a Morte, olhando para ela. – Sua irmã está no lugar certo. Hoje vamos acabar com ela.
Mal posso me manter em pé, de tão bambas que ficam minhas pernas. Angélica, minha irmã, é a nova aliada da Morte.
- Angélica? - balbucio, sem querer acreditar.
Ela recomeça a bater os pés, e seus olhos ficam vermelhos.
- Não me chame de Angélica! – grita ela, com uma voz mais grave do que deveria ser. Olhando suas faces meigas deformadas pelo ódio, enxergo tudo. Posso facilmente visualizar minha irmãzinha maldita matando aquela mulher no colégio a sangue frio, e depois se rindo disso. – Meu nome agora é Anjo Negro, ouviu? Eu sou a nova amiga eterna da Morte!
A Morte me abre o mais cruel dos sorrisos.
- Eu nunca deveria ter escolhido você, Katrina. – declara ela. – Sua irmã sim é o que eu sempre procurei. Uma aliada verdadeira. E agora, realizaremos a antiga profecia do Portal do Além!
Angélica dá um sorriso demoníaco, e encaixa um a chave de osso em um orifício na rocha do mausoléu, que começa a se abrir devagar, trazendo um vento gelado carregado de medo.
- Você teve a sua chance. – diz ela, olhando inocentemente para mim. – Mas agora eu cumprirei a profecia.
- Isso está errado! – grito. – Almas não devem conviver com vivos!
Tento me lançar contra ela, impedir minha irmã de realizar o mal enorme que eu mesma me recusei a causar. Mas a Morte me bate com sua mão de osso, me lançando para longe.
Caio na relva fria do cemitério, sabendo que logo estarei morta e sepultada ali mesmo. Meu espírito vagará desolado pela terra, assim como todas as almas, agora que o portal está aberto.
Morte e Angélica estavam comemorando o seu triunfo, e logo as duas se lembrariam de mim, e viriam para me destruir... Foi então que um facho luminoso surgiu de repente, ao meu lado, me transmitindo força e calor com seu toque.
Parecia uma bela mulher, com um brilho sem fim, mas logo vi que aquela maravilhosa criatura não podia ser humana. Ela sorriu.
- Olá, Katrina. – disse ela. – Eu sou a verdadeira face da Morte. Estou aqui para ajudá-la. Precisamos impedir aquelas duas, mas primeiro você tem que descansar um pouco...
Antes que eu possa esboçar qualquer reação, minha visão começou a embaçar.
Tudo ficou escuro.

PARTE 03

Acordei com o sol batendo no rosto e sentindo a maciez do meu travesseiro e das cobertas. Me espreguicei lentamente, imaginando o que eu poderia fazer naquela manhã de sábado. Eu podia telefonar para Elisa e...
De repente me sobressaltei. O que eu estava fazendo em casa? Eu havia desmaiado no cemitério, depois que a Morte abriu o Portal do Além e... Angélica!
Devagar, nas pontas dos pés, abro uma fresta da porta do quarto. Escuto mamãe batendo um bolo na cozinha e papai falando no telefone. Dou uma espiada na sala. Angélica está sentada no sofá com suas bonecas, assistindo um desenho qualquer e comendo bolachas.
- Foi tudo um sonho. – suspiro. – Um sonho muito terrível e real.
Angélica me escuta e sua cabeça loura se volta para mim. Volto a prender a respiração. Seus olhos são vermelhos, cheio de crueldade. Ela abre um sorriso macabro, e percebo que os incidentes da noite passada não foram sonhos porcaria nenhuma.
- Escapou por um triz, Katrina. – murmura ela, em um tom seco. – Mas sua sorte não durará muito.
- Veremos, maninha. – respondo. – Já venci a Morte uma vez; não será difícil repetir a manobra.
Os olhos dela se estreitam, mas minha mãe entra na sala nesse minuto.
- Kat já acordou, mamãe!!! – exclama ela, voltando a seu tom doce e inocente. – Ela disse que ia pentear meu cabelo, não é, Kat?
Forço um sorriso.
- Claro, Angel. – respondo, revidando o ridículo “Kat”. – Vou me vestir e já venho.
Fecho a porta e me apoio nela.
Que ótima maneira de começar um final de semana: tem uma criança malévola na minha casa que eu tenho que tratar como se fosse um anjo!
- Deus! Por que eu não posso ser uma garota normal? – murmuro, fechando os olhos. – Do tipo que os únicos problemas são uma nota baixa em biologia, dúvidas sobre que vestido usar na próxima balada ou se um dos gatinhos veteranos está a fim de mim ou não?
- Por que isso não teria a menor graça para uma menina especial como você, minha filha. – diz uma voz tão inesperada que meu coração quase salta pela boca.
Sentada no peitoril da minha janela, sorrindo de uma maneira que iluminava todo o quarto estava a mesma mulher que apareceu no cemitério na noite passada.
Seus cabelos escuros e longos emolduravam o bonito rosto quadrado, destacando os olhos violetas. Usava um vestido preto de tecido não identificável e era ainda mais pálida que eu.
- Olá! – murmura ela com sua voz musical. – Se lembra de mim?
-Sim, me lembro. – digo, ainda confusa. – Você é...
- A Morte. – responde ela. – Sou a verdadeira Morte.
É informação demais pra minha cabeça.
- Mas se você é a Morte, quem é a caveira que eu conheço desde bebê?
Ela suspira com um sorriso triste.
- Sei que é confuso, então vamos começar pelo início.
“Desde que existe Vida no mundo, a Morte também existe. Somos irmãs e amigas, complementos uma da outra. A Vida não existiria sem a Morte e vice-versa. Somos o equilíbrio.
“Porém, as coisas começaram a se complicar quando os homens surgiram. Desde os tempos mais remotos, os homens têm dificuldade pra me aceitar. Agarram-se a Vida como se eu fosse uma espécie de monstro, um ser maligno e cruel... Como a sua inimiga, Katrina.- A Morte que você conhece foi criada assim. – continuou ela. – Milênios e milênios de pessoas que não me aceitavam, e criavam em suas mentes o ser sombrio que é a Morte Obscura.
“Porém, se não fosse por um motivo especial, essa Morte não teria tanta força. A razão principal para que a Morte Obscura esteja cada vez mais forte, chama-se assassinato. Todos os dias a Morte chega para pessoas que ainda tinham muito para viver, mortes causadas por homicidas egoístas e cruéis. Tento ajudar essas almas, mas é a Morte Obscura que acaba alimentando-se delas. Mas, o tempo todo, a verdadeira Morte fui eu: a Morte de Luz.
Fiquei encarando a Morte de Luz quando ela terminou seu relato.
- Eu entendi. – disse por fim. – Mas como posso impedir a Morte Obscura de continuar seus atos de maldade? E...  que realmente ela fez ontem a noite?
- Venha comigo e veja, filha.
A Morte de Luz estendeu sua mão para mim, e duas graciosas asas de anjo se desdobraram de suas costas. Não sei exatamente o que aconteceu, só sei que estávamos flutuando suavemente pelo céu azul. Olhei para baixo. Pessoas iam e vinham pelas ruas, sem poder nos ver.
De repente notei vultos estranhos passando pelas pessoas, arrastando-se pela calçada e parecendo que também não podiam ser vistos. Eram Almas.
- A Morte Obscura abriu o Portal do Além com a ajuda da sua irmã, Katrina. – Me explicou a Morte de Luz. – Ela gosta de ver sofrimento, e agora todas essas almas sofrem, pois o mundo delas não é mais esse.
Um bolo se formou em minha garganta, e tive que engoli-lo para poder falar.
- E o que eu posso fazer? – pergunto baixinho.
- Descubra o verdadeiro significado da Morte, Katrina, para que eu possa guiar essas almas para a luz e para que a Morte Obscura desapareça. – ela me deu um beijo na testa. – Fique de olho em Angélica. Conto com você, filha...
Fecho os olhos, sentindo o calor e a força me tomarem. Quando os abro novamente, estou sozinha em meu quarto. Sem hesitar ou fraquejar, me visto e vou até a sala, desligando a TV que Angélica assistia.
- Eu estava assistindo, maldita! – diz ela, me mostrando o dedo do meio.
A olho, horrorizada.
- Então além de encapetada minha irmã caçula também é mal educada? – digo, pegando-a pelo braço e arrastando-a até a cozinha. – Vamos, peste. Tenho algumas lições para te dar.
Assim que vejo minha mãe, abraço delicadamente Angélica.
- Mamãe – começo. – Angel e eu vamos ao parque, tudo bem?
Ela sorri de um jeito que me faz sentir culpada (mamãe adora quando saímos juntas).
- Tudo bem, Katrina. – responde ela. – Tomem cuidado e não se atrasem para o almoço.
- O que você vai fazer comigo? – pergunta Angélica assim que cruzamos o portão da rua. – Daqui a pouco a Morte vai chegar e você vai morrer, desgraçada!
- Cale a boca ou leva um tapa, fedelha. – digo, arrastando-a rua a baixo. – Sendo aliada da Morte ou não, você ainda é uma pirralha irritante eu sou a irmã mais velha: posso muito bem te dar uns tabefes, ouviu?
Chegamos em uma praça pouco movimentada.
Despejo Angélica em um dos bancos de madeira e espero. Elas logo aparecem. Almas caminham em nossa direção, vindas de todos os lados, sentindo na presença de Angélica a pessoa que as puxou para esse mundo que é tão doloroso para elas.
- Está vendo todas essas almas? – pergunto para minha irmã. – Veja como sofrem. E é por culpa sua que elas estão assim!
Eu esperava que Angélica ficasse apavorada e arrependida, mas tudo o que ela fez foi rir sinistramente.
- Acha que eu tenho medo ou remorso? – pergunta. – Essas almas não podem me tocar, já que são espíritos. Para mim, não há diferença se elas estão contentes ou não!
Recuei dois passos, chocada. Como minha doce e terna irmãzinha havia se transformado em um monstro impiedoso, egoísta e horrível? Continuei recuando, com as gargalhadas de Angélica ressoando, até trombar em uma coisa dura.
A Morte Obscura me abriu um sorriso.
- Finalmente poderemos acertar as contas, hein, Katrina...
Me afasto dela, assustada e me sentindo desprotegida e solitária.
- Mate-a! Mate-a! – gritou Angélica, batendo palmas.
A Morte se voltou para ela.
- Quanto a você, criança, já não me é mais útil. Cansei de ser sua babá. – dizendo isso, A Morte Obscura levou sua foice a cabeça dourada de Angélica. Gritei e me lancei para frente, mas não pude impedir que a Morte matasse friamente Angélica.
O corpo pequeno e dourado da minha irmã não tocou o chão, pois foi amparado pelos braços alvos da Morte de Luz. Não me aproximei. Angélica estava em boas mãos agora. A Morte de Luz me lançou um olhar penetrante.
Eu já sabia o que tinha que fazer.
Comecei a correr, com a Morte Obscura em meu encalço. Corri na direção do rio, onde um penhasco imenso o beirava. Parei na ponta do penhasco e me voltei para encarar a Morte Obscura.
Só havia uma maneira de compreender totalmente o significado da Morte.
Morrendo.
E eu estava pronta, por que não ia me matar por covardia, ou tentar compreender a Morte matando outra pessoa. Eu ia morrer para salvar milhões de almas. Ia morrer... Ia morrer por amor.
Olhei para as rochas e a água escura do rio muitos metros abaixo de mim.
- É o seu fim. – disse a Morte Obscura.
- Não. – respondi. – É o seu fim, Morte Obscura.
Sem deixar de sorrir, me lancei para o vazio.
***
Acordei com o sol batendo no rosto e sentindo a maciez do meu travesseiro e das cobertas. Me espreguicei lentamente, imaginando o que eu poderia fazer naquela manhã de sábado. Eu podia telefonar para Elisa e...
Espera aí! Estou tendo alguma experiência de dejá-vu ou foi tudo um sonho em cima de outro sonho?
Devagar, abro a porta do quarto.
A casa está silenciosa, a não ser por murmúrios e choros no andar de baixo. Paro na ponta da escada. Praticamente minha família toda está lá embaixo. Todos tristes e vestidos de preto, velando o corpo inerte de Angélica.
Percebo que eu estou vestindo um vestido preto simples, e segurando uma rosa vermelha em uma das mãos, que eu coloco no caixão. Um vento estranho entra pela janela da sala, e um papel praticamente pousa em minha mão. É um bilhete.

Katrina, você se saiu muito bem em sua tarefa, e lhe agradeço por isso, minha filha. Eu e todas as almas que foram recolhidas.
A Morte Obscura foi destruída, e agora o mundo está em paz. Abençoada seja, querida.
Obs.: Não se preocupe com Angélica. Ela está bem.
Um abraço, Morte de Luz.

Então é isso aí.
A Morte não passa de uma etapa natural da Vida por qual todos nós vamos passar. Seja uma pessoa do bem, lute pelos seus sonhos e depois morra em paz.
É o que vou fazer agora. Você também deveria fazê-lo.
Afinal, a vida foi feita para que?


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