sexta-feira, 14 de junho de 2013

Adeus Ano Novo

O cursor do computador piscava, o número de usuários online no chat marcava: zero. Não que ele tivesse muitos amigos, mas os poucos virtuais não estavam lá. Era 31 de dezembro, ele olhou no relógio do computador: 10:00 horas. Faltavam duas horas para o ano novo. Tentou fingir que era um dia como outro qualquer, mas os clarões dos fogos que entravam pelo seu quarto e os gritos de euforia vindos da rua tornaram seu faz de conta infrutífero. Ele não tinha namorada, seus pais moravam longe, não tinha amigos. A não ser os virtuais, que achavam que ele media um metro e oitenta, 43 centímetros de bíceps e atendia pelo Nick de Zulu. Pra completar, sua mãe o batizou com o nome de Raimundo, os colegas da escola brincavam: “Raimundo, feio de cara, bom de fundo”. Raimundo já estava acostumado, levava aquela vida há muitos anos, mas aquela noite se sentiu especialmente sozinho. Desligou a tela do monitor e se debruçou sobre a janela do apartamento. Olhou por sobre os prédios baixos de Jardim de Penha, contemplando a baía, ao fundo as chaminés da Vale no Porto de Tubarão cuspiam chamas amarelas e laranjas, manchando as nuvens que deslizavam à baixa altitude. Já há algum tempo a cidade de Vitória lhe parecia pequena. A janela ao lado se abriu, uma mistura de música sertaneja e conversa alta saiu por ela, juntamente com a cabeça da vizinha, que acabara de se mudar e cujo nome ele não sabia, mas que o espreitou curiosamente. A luz do quarto estava apagada, mas o clarão da televisão imprimiu claramente os contornos do nerd, e as luzes da rua iluminaram, de baixo para cima, seu rosto que se projetava para fora do apartamento.

Feliz ano novo, antecipadamente, vizinho disse a moça, que usava um abadá desbotado, de três carnavais atrás.
Pra você também respondeu Raimundo, visivelmente desanimado.
Por um tempo, ela revezou o olhar entre ele e a rua lá em baixo, e num tom titubeante perguntou:
Vai passar o réveillon sozinho? Puta merda, ela percebeu minha cara de enterro, ponderou ele em pensamento. Ensaiou um sorriso quebrado, que não convenceu. Nada… tô esperando o telefonema de uns amigos, me perturbaram hoje o dia inteiro, já devem tá quase chegando diz erguendo o braço e olhando para o pulso, que não tinha relógio. Ela riu, não conseguindo ver o olhar do infeliz, por detrás das grossa lentes dos óculos fundo de garrafa.
Ainda bem. Passar a virada sozinho é mesmo osso comentou ela.
Sem dúvida concordou, enquanto esfregava o nariz.
Vambora Helen, quero tirar uma foto com você sentada no meu colo! gritou uma voz que se sobrepôs ao barulho generalizado. Helen… ela tinha mais cara de Sandra. Pensou ele.
A vizinha se virou, fechando a janela, ignorando completamente a figura taciturna de Raimundo. Roberto Carlos começava a cantar, n
os já batidos réveillons da Globo.
Que inferno resmungou, puxando a tomada da TV.
“Passar a virada sozinho é osso”, a voz da vizinha ecoou em sua cabeça, maximizando o sentimento desolador que ele sentiu desde o momento em que acordara naquela manhã. A viúva do 505 aumentou o som da TV: “…se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi.” Roberto Carlos, cantando “Emoções” em alto e bom som.
Raimundo colocou a cabeça para fora do apartamento e gritou:
Dona Marta! O som tá muito alto e eu to querendo dormir. Ela era conhecida no prédio como “Martinha Rebolation”. E recebia constantemente a visita de Marcelão, morador do 102, vagabundo que se dizia professor de ginástica, e aproveitava as viagens da esposa (que trabalhava de verdade) para “malhar” com Marta, geralmente altas horas da madrugada. Isso acontecia várias vezes durante a semana, o som da cabeceira da cama deles batendo contra a parede que separa os dois apartamentos, não deixava Raimundo dormir.
Ela chegou até a janela, inclinou a cabeça e gritou “educadamente”: Vai à merda, seu esquisito e aumentou o volume até o som distorcer, despedindo-se de Raimundo com o dedo do meio.
Ele jogou os cabelos oleosos pra trás, e os puxou de volta com força.
Desse jeito fica difícil… sussurrou pra si mesmo.
Ele pegou uma camisa, colocou os documentos dentro da pochete e deslizou pelas escadas sem destino definido.
A rua fervilhava de gente com roupas brancas, sapatos nas mãos e colares fluorescentes. Visto de cima, Raimundo formava um buraco no meio de toda aquela brancura, com sua circunferência, uma camisa preta estampado um desenho do smile no peito e uma bermuda jeans surrada. Ele observou as calçadas apinhadas de barracas que vendiam todo tipo de quinquilharias e disputavam espaço com os pedestres, muitos transitavam pelo meio da rua, e ele agradeceu, pela primeira vez, por não ter um carro.
O trânsito estava um inferno.
Não que as calçadas estivessem muito melhores, ele teve que se espremer entre gordos suados e desviar de bêbados até chegar a Dante Michelini. Com o destino atingido, conseguiu ouvir seu estômago grunhir. Uma barraca de esfirras, há uns trinta metros, chamou-lhe a atenção, estava quase vazia, e ele serpenteou com sua barriga enorme por entre o povo, pretendendo chegar lá antes que se formasse uma fila. O estômago de Raimundo era soberano, o apetite vinha sempre em primeiro lugar, talvez fosse seu único prazer, o que explicava sua gordura e colesterol alto com apenas 28 anos. Faltando uns dois metros pra chegar à barraca ele já levantou o dedo gritando:
Amigo!! Faz uma esfirra de carne. No capricho.
Desculpa filho, mas a moça aí chegou primeiro disse o cozinheiro, se referindo a uma morena de um metro e oitenta que estava atrás de Raimundo.
Peraí, meu chapa, eu cheguei primeiro protestou.
Vai querer o seu de que moça? perguntou o homem, dando de costas, fingindo não ouvir os protestos de Raimundo, e começou a fazer a esfirra da morena, que também fingiu não ter furado a fila. O estômago dele reclamou alto. Os cinco minutos que demoraram pra preparar a esfirra pareceram horas. Quando o cozinheiro entregou a esfirra à moça, ele reparou a maciez da massa cedendo sob a pressão dos dedos dela. Por pouco, ele não babou.
Agora faz a minha cara pediu com impaciência, o cozinheiro ainda voltava o troco à morena.
Desculpe amigão, essa foi minha última. Tô fechando. Vou passar a virada com minha família O estômago de Raimundo rugiu, e pensou seriamente em mandar o quitandeiro tomar no …., mas pensou melhor. Deu três tapinhas na barriga, como que pra acalmar a fera e logo avistou uma barraca de cachorro quente próxima dali. Posso aguentar mais dez minutos, pensou.
Se deslocou em direção ao carrinho de cachorro quente como um touro que vê o sacolejar da manta vermelha, mas foi detido subitamente quando esbarrou em um sujeito, que não viu de onde sairá. Raimundo caiu no chão igual a um saco de banha. A fome era uma das poucas coisas que fazia seu sangue ferver. Ele preparou pra soltar um sonoro “filho de uma puta”, mas desistiu ao ver que tinha esbarrado em um cara de um metro e noventa, 45 centímetros de braço e uma tatuagem de serpente que terminava na mão esquerda. O sujeito estava atônito, olhando freneticamente para os lados, nem sequer percebeu que jogara Raimundo no chão. Como um cara “compreensivo” ele “deixou pra lá” e seguiu rumo a tão sonhada barraca de cachorro quente.
O movimento estava fraco, e ele logo recebeu seu lanche. A fome e a ignorância eram tamanhas, que ele apertou o pão com tanta violência, que a pressão cuspiu a salsicha em seu peito, que deslizou riscando o smile sorridente ao meio, caindo no chão com um som molhado. Ele olhou por um tempo, como se não estivesse acreditando. Então começou a pisar, chutar e sapatear sobre a salsicha que jazia no chão. Fez isso até perder o fôlego. A frustração era de tal monta, que ele só não chorou de vergonha. Olhou os arredores e percebeu que a maioria das pessoas ignoraram seu mico, a não ser por uma menina que se dobrava de rir, sentada em um banco de concreto do outro lado da rua. Aquele não era um de seus melhores dias, (não que os outros fossem muito diferentes) e vê-la rindo da sua “desgraça” mexeu com seu ego, que não era lá essas coisas, mas ficara inflamado com a fome. Então era isso, ele havia decidido: ela seria seu “bode expiatório”.
Atravessou a rua com passos largos. A menina não se intimidou e continuou a rir. Ele se aproximou dela, mas não muito.
Ta se divertindo? Achou engraçado?”— levantou o dedo e antes dele abrir a boca pra falar outra besteira”.
Me deixa limpar isso disse ela abrindo a bolsa, tirando um lenço de papel, passando sobre estampa. Tinha muito molho, não vai da pra limpar tudo. Sorte sua que a camisa é preta acrescentou.
Aquele gesto desarmou Raimundo, que havia preparado um repertório de palavrões de p
rimeira.
Você devia tá com muita fome disse ela, e logo em seguida deu outra gargalhada. Senta aqui, vou lá buscar outro cachorro quente pra você.
Aquela atitude o surpreendeu profundamente, e apesar da energia gasta na luta com a salsicha, seu estômago havia se calado. Ele observou aquela bela mulher, que devia ter uns 24 anos, usava um vestido vermelho escuro justíssimo, voltar desfilando pela rua com um cachorro-quente na mão, só para ele. Isso era o mais incrível. Ela estava levando o cachorro-quente para ele. Nunca uma mulher, mesmo feia, havia feito isso antes, quanto mais uma como aquela. Toma. Tá quentinho, pedi pra caprichar no molho.
Valeu agradeceu ele, desconcertado. Não precisava ter comprado outro cachorro-quente pra mim, a culpa por ele ter caído não foi sua. Olha… acho que muitas outras pessoas riram da cena, você não cometeu nenhum crime. Ela sorriu e se sentou ao lado dele.
Antes de você aparecer… eu tava aqui sentada, chorando a “morte da bezerra”. Meu dia foi péssimo. A cara que você fez quando a salsicha escorregou ela ri novamente. Vamos dizer que o cachorro-quente foi pela risada que você me proporcionou.
Ele olhou o pão ensopado de molho e notou que a fome havia cedido lugar a outra coisa.
Não vai me dizer que depois de sapatear em cima de uma salsicha, você tá com vergonha de comer na minha frente? brincou ela, levantando uma das sobrancelhas. Raimundo sorriu, admirado com a espontaneidade e confiança com a qual ela falou, típica das mulheres bonitas. Farei o seguinte: virarei para o outro lado enquanto você come Raimundo assentiu com a cabeça e devorou o cachorro -quente; praticamente o engoliu sem mastigar. Enquanto comia, reparava nos cabelos dela, escuros, lisos e pesados, a pele branca e lisa.
Pronto sua voz sibilou, ainda com um pedaço de pão entalado na garganta.
Ela se voltou rapidamente
Isso é um recorde?! Não tem nem 30 segundos que me virei Com as bochechas vermelhas, ele sorriu mostrando resquícios do “lanchinho” grudados nos dentes. Era nojento, mas ela achou aquilo engraçado.
Escuta… eu não conheço ninguém aqui nessa cidade, é quase ano novo e eu tô precisando me distrair. Você podia caminhar um pouco comigo, aproveitava pra fazer a digestão. E então?! Perguntou, dando um tapinha na coxa dele. Raimundo se arrepiou, fez cara de quem não havia entendido, ou não acreditava no que tinha ouvido. Então confirmou:
Tá me chamando pra caminhar com você?!
Bom… se prefere ficar aqui sozinho… respondeu ela, passando a mão entre os longos cabelos negros.
Não!!! Vamos sim, tô precisando mesmo caminhar agiliza ele, percebendo o fora que quase havia dado.
Mirela! disse, estendendo a mão para Raimundo.
Prazer!! Raí… Zullu foi então que ela desabou na gargalhada. Você tá brincando?! É serio?! Zullu?!
Qual o problema, não tenho cara de Zulu? Perguntou, concertando os óculos redondos, que faziam seus olhos parecerem duas bolas de bilhar. Ela se dobrou novamente, rindo, e se encostou em uma árvore próxima.
Hahaha… Desculpe… Haha. Então Zulu, o que você tá fazendo sozinho a menos de uma hora do réveillon? Ele olhou para ela, e logo pensou em contar uma de suas várias mentiras de carteirinha. Dizer que os amigos estavam esperando ele em casa, ou que se cansou da companhia deles, mas ele se sentia estranho, quase que hipnotizado pelo sorriso de Mirela, e resolveu que iria apostar nele mesmo. Já bastava o Zulu.
 Não tenho ninguém com quem comemorar a data e abraçar dizendo: Feliz Ano Novo!”Aquilo era a pura verdade, talvez se sentisse melhor contando uma mentira, e  baixou os olhos, envergonhado.
Família? Amigos? Namorada? Ela listou uma serie de possibilidades que teria uma pessoa normal.
Meus pais são separados. Minha mãe mora no exterior, meu pai constituiu uma nova família e se mudou para outro estado, quase não nos falamos, a união dos dois foi curta, por isso não tenho irmãos. Tem o pessoal do chat, e os amigos do RPG, mas já faz um tempo que não os vejo, falta de tempo, sabe?!E a namorada? Insistiu ela.
Eu tinha uma, já tem um bom tempo que terminamos. Eu era romântico, mandava flores. Todas essas coisas, tentava compensar minha… Ele ia dizer feiura, e apesar disso ser óbvio, resolveu não ser tão cruel consigo mesmo. Bom…! Acabei descobrindo que ela me traia com o personal trainer e eu que pagava a mensalidade. O pior é que tinha uns filhos de uma puta que ligavam todos os dias pra mim e colocavam aquela musica sertaneja “Vai vai muuuuu” pra tocar, justamente naquela parte: “Ligou tal de personal”. É pra ficar preocupado”. Ela riu de novo, na verdade gargalhou. Era uma gargalhada gostosa, daquelas de tirar o fôlego. O pior não foi o chifre, isso eu já meio que esperava, mas ouvir Rick e Renner todos os dias… Isso sim, foi difícil. Acrescentou ele, com o semblante sério. Ela continuava rindo, sentou-se num banco de concreto na rua e pediu, entre uma risada e outra, para que ele esperasse ela descansar os pulmões.
Você é muito comédia,  disse Mirela, enxugando as lágrimas .
Sempre fui, desde pequeno completou Raimundo, com a voz embargada. Então ela notou que aquilo não deveria ter sido engraçado. Ele era o tipo de cara que os outros riam, mesmo quando tentava ser levado a sério.
Não quis dizer no sentido pejorativo, se tinha uma coisa que eu precisava hoje era rir. Valeu!!!”Ele sentiu que aquele foi um agradecimento sincero, e que o depoimento humilhante, havia servido para alguma coisa. Notou que as pessoas que passavam olhavam para ele estranhamente. Sem dúvida o contraste entre os dois chocava, imaginou ele.
É fácil de explicar porque eu tô sozinho, mas uma mulher bonita igual a você… deixa  adivinhar… você é modelo?!”
Já fui modelo fotográfica, mas não tenho tamanho pra passarela. Hoje trabalho com eventos, promoção de festas, essas coisas… Vim passar o Ano Novo com meu namorado. Ela parou um pouco, como se tivesse se lembrado de algo. Raimundo não tinha qualquer esperança em relação a ela, mas sabia que era bom demais pra ser verdade. Lógico que uma mulher como aquela teria alguém. Bom… retomou ela  Pouco depois que cheguei tivemos uma briga e terminamos, justamente às vésperas do Ano Novo. Um fio de esperança brilhou dentro dele, embora se convencesse de que ela era areia demais pro seu caminhão.
Não fica assim, vocês acabarão voltando disse ele, tentando se resignar e ao mesmo tempo consolá-la.
Dessa vez não tem mais volta Zulu disse ela com um olhar sem expressão, direcionado para o mar. A caminhada os levou até o  calçadão da Praia de Cambuci, onde a meia-noite o espetáculo de fogos de artifício aconteceria, abrindo o ano novo. O reflexo dos prédios, que margeavam a orla, flutuava no mar calmo. Mirela retirou os sapatos de salto alto, prendeu os cabelos e caminhou descalça pela areia. Foi então que ele pode notar o quanto ela era pequena. O vento fresco do litoral soprou em seu rosto, ele fechou os olhos e fantasiou, rapidamente, com ela em seus braços, chegou a fazer um pedido, e logo depois se sentiu um idiota. Uma senhora passou perto dele vendendo rosas brancas, não pensou duas vezes, comprou uma dúzia delas, e as amarrou com uma fitinha prata. Na verdade ele era um autêntico romântico, gostava e acreditava naquele tipo de ritual, mesmo que ainda não tivesse funcionado com ele. Mirela estava distraída, olhando as ondas desmaiarem na areia, quando viu uma mão se projetar das suas costas com doze flores brancas. Ela olhou para o ramalhete, como uma criança pequena olha para a primeira bicicleta. Receber flores era tão incomum para ela quanto era pra Raimundo ganhar um cachorro-quente de uma mulher bonita.
Ele era só um cara boa-pinta. disse ela, olhando pro mar.
O que…?
Meu namorado. Ele era só um cara bonito e nada mais. Dessa vez ela olhou para ele. É a historia dos homens da minha vida, sabe?! Lindos, mas distantes, indiferentes ou muito ciumentos. Bolas de fogo se ergueram, explodindo quase que simultaneamente. Ela olhou para o céu, seus olhos eram de um negro tão profundo, que as luzes não conseguiam penetrá-los.
Feliz Ano Novo! Disse ela abrindo os braços. Raimundo não esperou duas vezes, deu-lhe aquele abraço, com toda fé. Ele fechou os olhos, apertou seu corpo pequenino contra o dele, enquanto os fogos de artifício trovejavam ao seu redor. Ela se afastou só o suficiente para beijá-lo. Ele não acreditava que aquilo pudesse acontecer, embora quisesse muito que acontecesse. Com 28 anos de idade, aquela era uma sensação inédita. Raimundo ficou febril, uma substância diferente corria misturada a seu sangue. O batom tinha um leve gosto cítrico e sua língua fez um malabarismo que o fez arrepiar. Ainda bem que coloquei cuecas antes de sair, pensou aliviado. Ela terminou o beijo acariciando seu rosto no dele. Seu coração ainda batia forte quando ela se afastou com dois passos para trás. Raimundo então notou, envergonhado, que a sujara com molho de tomate que ainda estava impregnado em sua blusa. Com um olhar vago, ela sorriu, e, antes que ele pudesse se desculpar, limpou a mancha com uma das mãos e completou: você é um cara especial, sabia? Não faz ideia da sensibilidade que tem. Mirela abriu a bolsa e tirou um celular, olhou o monitor do aparelho por algum tempo. Tenho que ir, preciso organizar tudo, irei viajar amanhã.

Aquilo lhe soou como um adeus. Aquela era uma oportunidade única. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, afirmou pra si mesmo em pensamento, e aproveitando a adrenalina que ainda corria em suas veias, mandou:
Você disse que todos os caras que conheceu não te trataram bem, comigo você não teria esse problema. Posso ir embora com você, tenho um bom dinheiro no banco e sou bom no que faço, é uma área que não tem tantos profissionais com experiência e … Aquele discurso foi brega e desesperado, mas ele estava desesperado e também era um piegas. Sei que essas coisas levam tempo, a gente devia ter saído mais vezes antes de te falar essas coisas, só que… Ela baixou os olhos e sacudiu levemente a cabeça da esquerda para a direita. Acho que as coisas não são tão simples assim. Aquilo era um não disfarçado, um eufemismo educado, foi como um soco no estômago, Raimundo quase arqueou.
Sei como é, você só queria fazer um feio feliz. Embora não devesse, ela riu. A sinceridade dele era engraçada e tinha até certo charme.
Não é isso, gostei mesmo de você, mas…Ela parou e pensou.
Mas nada. interrompeu ele  É só dizer que sim.
Mirela olhou-o, comprimindo os lábios. O vento jogava seu cabel
o na frente do rosto, fazendo com que franzisse a testa. Faz o seguinte: pensa direitinho, eu ainda tenho um tempo até amanhã, antes de ir. Pensa nas suas coisas, na sua vida…. Se, até lá, realmente decidir vir comigo, prometo que te levo.”
Fechado. ele assentiu.
Então anota o endereço onde estou ficando.
Raimundo abriu a pochete, que vomitou um monte de cartões e comprovantes de débito, pegou um pedaço de papel e uma caneta com propaganda.
Rua Said Ribeiro Bertol, Nº25, Praia do Canto. Te espero lá até às vinte e três horas, nem um minuto a mais. Se você não aparecer considerarei que desistiu.
Chego lá às dez horas disse euforicamente.
Então Mirela levantou o braço e sacudiu os dedos alternadamente.
Até amanhã.
Virou-se em direção ao calçadão e dep
ois de cinco passos, deteve-se, virando-se para trás com as sobrancelhas erguidas:
Não vai me dizer seu nome verdadeiro?
Raimundo.
É um nome forte, eu gosto. Bem melhor que Zullu disse ela, e então virou-se definitivamente, ele ainda esperou ela desaparecer no meio da multidão, que ainda festejava. Raimundo saiu flutuando pela rua, era um homem completamente diferente daquele que havia saída há menos de duas horas atrás. Subia as escadas do prédio com um ânimo que lhe era incomum. Passou em frente ao apartamento 505 e ouviu Marcelão “malhando” com dona Marta, o rangido da cama era inconfundível. Aproximou a boca à porta e, dissimulando a voz, gritou: Marcelão, Marcelão, fica esperto, sua mulher chegou cara. Há duas horas ele não teria coragem de fazer aquilo. Ele entrou no apartamento, empurrou a porta e se jogou na cama, nem mesmo tirou os sapatos ou a roupa suja de molho de tomate e ficou uns minutos fitando o teto, extasiado. O rosto dela não saia da sua cabeça. Então ele riu ao lembrar ter ouvido algo parecendo um corpo cair da cama e imaginou a cena: Marcelão assustado, jogando Martinha Rebolation no chão, ela caindo, nua, de pernas para cima, e considerou seriamente a possibilidade de ligar, anonimamente, para a mulher de Marcelão e acabar com aquela putaria. Acabou foi dormindo ao som de “Não é mais como antes”, que tocava alto na vizinha ao lado, a que se chama Hellen, mas Tem cara de Sandra. Mesmo não gostando de sertanejo ele pensou que não poderia ser melhor. Foi a ultima coisa que se lembrou antes de fechar os olhos e dormir.
No dia seguinte ele acordou cedo, ainda com aquela sensação de leveza. No trabalho todos notaram que havia algo de diferente com o nerd. Estava arrumado, camisa para dentro e o mais estranho: perfumado. Andava com o peito estufado e a cabeça erguida, nivelada com o horizonte. Ele trabalhou com diligência, mas invariavelmente sua concentração o traia, e ele se projetava horas no futuro, no momento do tão esperado encontro. O dia parecia que nunca terminaria.
Ele chegou em casa por volta das nove horas, antes passou no shopping, comprou um presente e roupas novas. Tomou um banho de verdade, não aqueles de “gato” que estava acostumado a tomar. Se sentia ansioso, mas não nervoso. Se arrumou, colocou a roupa que a vendedora da loja sugeriu, e se vestiu como ela ensinou. Quando terminou já eram dez horas, o local do encontro ficava, de carro, há dez minutos dali. Retirou do bolso o cartão do ponto de táxi que ficava próximo a sua casa e sentou na velha poltrona de couro sintético, ligando a TV. Esfregava incessantemente o polegar no indicador, e ficou, por uns cinco minutos, encarando o telefone. Não aguentando mais, tirou-o do gancho e ligou para o número no cartão. O telefone chama, ele ouve um, dois pulsos.
O noticiário local voltou da propaganda com as já tradicionais carnificinas do fim de semana: “Foi encontrado essa manhã o corpo de Mirela Freitas Sander de 26 anos, ela foi assassinada com duas facadas próximas ao peito. O crime aconteceu por volta das dez horas da noite de ontem”
Raimundo ficou pálido, o telefone tremeu em sua mão.
Táxi metropolitano, boa noite.
Era ela na foto do noticiário. Filmaram o corpo caído, parte do tronco escorado na parede, as pernas levemente abertas, usando o mesmo vestido, justíssimo. No tórax, uma mancha vermelho escuro se confundia com a cor da roupa. Editaram porcamente a imagem, colocando um tarja preta no rosto dela. A câmera se movimentou rápido e a tarja, por alguns segundos, ficou desenquadrada, mostrando os olhos dela… abertos, vidrados no chão. Dez horas da noite, disse o repórter.
Alô?!… Táxi metropolitano. Tem alguém na linha?
“Se realmente decidir vir comigo, prometo que te levo…” A voz dela ricocheteava em sua cabeça. Era mais de meia-noite, quando ela fez essa promessa. Pra onde ela o levaria?
“O principal suspeito é o namorado da vítima, Gilberto Martiliano, que esta foragido desde o ocorrido. Gilberto tem um metro e noventa e dois de altura, branco, e possui uma tatuagem em forma de serpente enrodilhada no braço esquerdo.”
Alô?!… Alô?!
Raimundo quase que ainda podia sentir o gosto do batom. Aquilo foi fantástico. Pensou ele, comparando aquela noite com todo o restante da sua vida miserável.
Vai querer o táxi ou não?… Eu vou desligar…
Não! Não desliga. Gaguejou Raimundo, voltando a segurar o telefone com firmeza. Quero um táxi na Rua Ribeiro Junqueira nº 248, Jardim da Penha. Eu tô indo pra Rua Said Ribeiro Bertol, Nº25, Praia do Canto, preciso chegar lá antes das onze.

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