Cinco contra cinco. Esta era uma das únicas regras
que deveria ser cumprida para os garotos do bairro jogar futebol na rua todos
os sábados à tarde. A outra era uma regra comum que qualquer grupo de crianças
sempre estabelecia: quem chuta longe é quem pega. Normalmente apareciam entre
quinze e vinte garotos para jogar, o que garantia uma boa diversão, e os jogos
só terminavam nas primeiras horas da noite. Mas naquele sábado terminaria mais
cedo.
A rua em que jogavam era sem saída, bem estreita,
com poucas casas, alguns carros sempre estavam estacionados por lá e a rua
terminava no muro de entrada de um antigo casarão abandonado. Era, sem dúvida,
o melhor lugar do bairro para se jogar.
A tarde já estava chegando ao seu fim, o Sol já ia
se pondo, embora o dia ainda estivesse claro, quando Leonardo chutou a bola
forte demais e pelo som de vidro se quebrando foi possível saber que ela havia
ido parar no pior lugar em que poderia. Havia ido parar para dentro do antigo
casarão, que tinha a fama de ser “mal-assombrado” por muitas pessoas na cidade
porque estava abandonada por mais de trinta anos, mas regras são regras,
portanto quem chutou é quem pega, e não seria por causa de uma simples casa
abandonada que impediria Leonardo de cumpri-la, mesmo que ainda fosse um garoto
de apenas treze anos.
Chegou até o muro, o qual não teve nenhuma
dificuldade em subir pelo fato de ser pequeno, e assim pôde analisar como
realmente era a casa: Tinha um grande espaço, onde provavelmente já fora um
jardim pelos vestígios antigos que davam a entender sobre isso, o casarão
possuía dois andares, com cinco janelas no segundo andar, sendo que uma delas
estava quebrada por causa da bola, e mais seis no primeiro, a porta era grande,
mas como já era velha não teria problemas em abri-la, por fora o casarão estava
todo rachado e coberto de folhas. Se parecia com uma antiga casa de algum filme
barato de terror e agora entendia o porquê da fama que possuía de ser
mal-assombrada e se sentiu um pouco intimidado, mas nada que iria lhe impedir
de entrar lá.
Desceu do muro e começou a andar pelo terreno a
caminho da porta, mas enquanto caminhava jurava que alguém o estava observando,
o que confiava que era apenas fruto de sua imaginação. Chegou até a porta e
sentiu que a madeira fedia muito, pelo fato de ser muito velha, mas foi o que
facilitou a entrada de Leonardo, que precisou dar apenas um chute nem tão forte
para derrubá-la e entrar no casarão.
Entrou na sala principal e viu que ela estava toda
mobiliada, com dois sofás, um grande relógio de ponteiro encostado na parede e
uma pequena televisão, que parecia ser mais antiga do que a própria casa, em
cima de uma pequena mesa, mas o que realmente surpreendeu Leonardo foi ver que
a televisão estava ligada em algum antigo canal preto e branco e sem som, e o
relógio também estava funcionando corretamente. Mesmo que fosse estranho,
parecia muito que alguém morava lá.
Sabia que precisava chegar ao segundo andar e pegar
a bola, por isso passou pela sala seguindo em frente até chegar à cozinha e
começou a sentir medo pela primeira vez desde que entrou naquele casarão. Havia
uma mesa arrumada com cinco cadeiras em volta, mas em cima dela estava uma faca
própria de cozinha ensangüentada próxima à beirada da mesa, o que fazia o
sangue pingar no chão e já havia uma pequena poça formada logo abaixo e a
partir da poça se seguia uma trilha de sangue, como se algo houvesse sido
arrastado pelo chão. Leonardo começou a seguir a trilha andando rapidamente,
mas ainda não chegava a correr.
A trilha levava até a escada que dava para o
segundo andar e ainda continuava. Àquela altura Leonardo nem se lembrava mais o
porquê estava lá, não queria nem mais continuar aquele jogo de futebol com seus
amigos, estava hipnotizado por aquela trilha, sentia que algo lhe forçava a
segui-la.
Hesitou um pouco quando chegou ao pé da escada, mas
precisava subir, precisava saber aonde aquilo o levaria, então começou a subir
os degraus, um por um, tomando o cuidado para não sujar seus tênis nas pequenas
poças de sangue que cada degrau continha, afinal, usava aquele tênis já havia
três anos e era de longe o seu preferido, mas naquele momento não pensava em
nada, muito menos no tênis. Chegando ao segundo andar se deparou com um pequeno
corredor com quatro portas, duas de cada lado e uma na reta no final. Leonardo
já estava confuso e perdido demais, pois não sabia qual porta entraria
primeiro, pois a trilha de sangue levava para todas as cinco portas.
Ficou parado por alguns instantes diante das portas
e se deu conta do por que estava lá, se lembrou de que deveria buscar a bola e
daria o fora daquele lugar o mais rápido possível. A bola estava em uma das
portas, mas não sabia qual e não queria entrar uma por uma com medo do que
poderia estar atrás delas.
Pensou por mais alguns segundos e optou por tomar a
decisão menos favorável: iria entrar porta por porta até achar a merda da bola
que já havia lhe trazido muitos problemas para um dia. Deu dois passos e entrou
na primeira porta da direita. Era apenas um quarto, com uma cama simples em um
canto e um armário no outro. Saiu e foi para a primeira porta da esquerda, que
era apenas um banheiro, pelos menos já havia sido um algum dia, pois não havia
nenhum “móvel” lá, foi apenas uma dedução.
Andou mais três passos e entrou na primeira porta
da direita e quase começou a gritar como uma garota. Havia uma cama de criança
encostada na parede, um pequeno armário e uma caixa de brinquedos no centro do
quarto, e sentado à frente da caixa estava uma criança que aparentava ter entre
quatro e cinco anos, usando uma roupa que era possível saber que pertencia a
algumas épocas atrás. Estava sentada segurando um pequeno boneco e levantou o
rosto lentamente para Leonardo, mostrando um sorriso perturbador, que combinava
pelo fato de ser o espírito de uma criança. Mesmo com treze anos era possível
raciocinar sobre isso, não era nada muito difícil. Quando o garoto começou a se
levantar lentamente, ainda com o mesmo sorriso no rosto como se quisesse um
companheiro para brincar, Leonardo saiu desesperadamente pela porta ouvindo um
riso macabro que o garoto passou a emitir e entrou na porta do lado esquerdo,
ao invés de ir embora, o que foi outro erro.
Desta vez o cômodo era um banheiro completo, com
uma grande banheira que estava cheia de água misturada com sangue, e quem
estava dentro era um homem, que parecia estar na casa dos quarenta e estava com
uma expressão facial de quem sentia muita dor e gemia muito alto, quase
gritando de dor, e Leonardo constatou que o homem realmente estava sofrendo quando
ele levantou da banheira com o corpo nu e repleto de cortes que faziam sangue
sair em grande quantidade de seu corpo, e ele iria atrás de Leonardo, assim
como o pequeno garotinho também estava.
O tempo estava acabando, o gemido do homem
misturava-se com a risada do garoto, fazendo um som que penetrava até o fundo
do cérebro de Leonardo, e ainda restava uma porta para verificar. Entrou pela
última porta quase a arrombando, embora não tivesse força para isso, mas o
desespero que sentia era maior que tudo, e a bola estava lá. A maldita bola
havia de fato quebrado a janela e parado no centro de outro pequeno quarto, com
os pedaços de vidro espalhados ao redor. Rapidamente a pegou-a e voltou ao
corredor para descer as escadas.
Chegou à entrada da porta e o pequeno garoto e o
homem estavam agora parados na porta de seus respectivos cômodos, mas ainda
faziam os sons aterrorizantes que deixavam Leonardo na beira de um choro
desolador. Carregava a bola debaixo de seu braço direito e, com toda agilidade
que um garoto de sua idade possuía, abaixou a cabeça e saiu em disparada na
direção da escada, sentindo uma tentativa de puxão em seus braços quando passou
pelos espíritos.
Desceu as escadas pulando alguns degraus e já não
estava mais se importando se sujaria seu tênis ou não, tudo o que queria era
sair daquele inferno mental o mais depressa possível. Passou pela cozinha e viu
que não havia mais nenhum sangue em cima da mesa e quando passou pela sala não
havia mais nada, era apenas um grande cômodo vazio, mas ainda ouvia a mistura
do riso e do gemido.
Estava correndo sem parar e subiu o pequeno muro se
preparando para sair de lá, deu uma última olhada para trás e pôde ver em uma
das janelas do andar de cima a imagem do homem sofrendo ensangüentado e na
porta da sala viu o garoto, com o mesmo sorriso e segurando o mesmo
boneco.
Leonardo sentiu um frio lhe subir até a nuca e como
ainda estava Sol, voltou para a rua terminar a partida daquele final de semana,
afinal, após todo o esforço para recuperar a bola o mais justo seria pelo menos
terminá-la.

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