Valla sentiu
o cheiro dos cadáveres apodrecidos a um quilômetro de distância.
Apesar das
nuvens que envolviam Khanduras, o ar estava morno quando a caçadora de demônios
chegou ao que restava de Holbrook. O lugar já fora uma pequena comunidade de
fazendeiros, mas agora não passava de uma cidade fantasma. Ou assim parecia,
pois o cheiro forte de putrefação sugeria que os moradores ainda se encontravam
ali... Embora já não estivessem vivos.
Josen, o
mentor de Valla, se encontrava no centro da vila inspecionando uma pilha de
detritos: pedras de cantaria espalhadas, rochas e solo revirados.
Ele usava a
indumentária do caçador de demônios. A luz suave e baça refletia da armadura de
placa que recobria metade do seu corpo. As bestas que ele carregava ficavam na
altura das coxas, propiciando saque rápido. Ele removera o capuz e seu manto
sacudia com o sopro do vento.
Valla
vestia-se de maneira idêntica, à exceção de uma echarpe longa e escura que lhe
cobria a metade inferior do rosto. A filha do marceneiro sofreou o cavalo,
desmontou e esperou por alguns instantes, parada em silêncio, pensando.
Havia um
zumbido no ar, persistente e quase inaudível. Os únicos sinais de vida vinham
de Josen e dos outros dois caçadores: um deles vasculhava as estruturas
dilapidadas, o outro se postava perto de um armazém arruinado. Tinham chegado
tarde demais para fazer algo a respeito do que quer que houvesse acontecido
ali. Agora era hora de procurar sobreviventes, pois essa era a segunda tarefa
mais importante do povo de Valla: alimentar e proteger os desabrigados
resultantes da catástrofe indizível. Orientar, encorajar, curar, educar e
treinar... Para a tarefa mais importante, se eles assim o quisessem: tornar-se
um caçador de demônios e aniquilar os filhos do inferno responsáveis por males
assim.
Josen
continuou inspecionando os detritos enquanto Valla se aproximava.
— Eu vim o
mais rápido que pude — ela disse, baixando a echarpe.
O zumbido
suave persistia. Os olhos de Josen permaneciam fixos.
— Não era
para estarmos aqui. — Sua voz soava feito cascalho. — Se Délios tivesse
conseguido completar a missão, não estaríamos aqui. — Os olhos faiscantes dele
enfim encontraram os dela. — Diga-me o que você vê.
Valla olhou
para o cenário desolado. A alvenaria e o madeirame eram familiares, assim como
o líquido escuro espalhado em toda parte. Mas havia outra substância, negra
feito alcatrão, que ela não conseguiu reconhecer.
— O poço comunitário — sugeriu Valla. — O demônio subiu do
poço... Ferido, dada à presença de sangue de demônio. Então Délios conseguiu
feri-lo, ao menos. Só rezo para que ele tenha tido uma morte digna de caçador
de demônios.
Josen chutou
terra. Sob a superfície, o solo estava úmido.
— Faz no
máximo um dia que isso aconteceu... Foi depois.
Valla
esperou que Josen continuasse. Como ele não o fez, ela perguntou:
— Foi depois
do quê?
A expressão
do mestre de caçadores era impenetrável.
— Siga-me —
ele respondeu.
Ao se
aproximarem do armazém o zumbido aumentou de volume, tornando-se vibrante,
penetrante, e o fedor pútrido também ficou mais forte. O caçador postado à
frente do armazém abriu as portas altas.
A massa
negra e espessa de uma nuvem de moscas escapou para fora. E embora o cheiro de
carne em decomposição fosse familiar para Valla, ali era tão forte que ela
quase caiu de joelhos. Ela envolveu o rosto na echarpe e engoliu bile.
O armazém
tinha o tamanho de um celeiro, e ali os aldeãos tinham sido empilhados em
montes desordenados. Homens, mulheres... Muitos já inchados, com os torsos
abaulados. Alguns corpos haviam rebentado, e suas vísceras se espalhavam
enquanto vermes coleavam em meio às entranhas. Fluidos vazavam dos olhos,
narizes e bocas. Sob o fedor da decomposição sentia-se o mau cheiro de fezes.
Centenas de moscas enxameavam pela podridão.
Valla
franziu o rosto. As feridas eram cruentas, mas não pareciam com as que resultam
de um ataque demoníaco. Aqui havia sinais de perfuração, empalhamento e crânios
esmagados, e não o desmembramento, rasgos e decapitação associados com ação
demoníaca.
Josen disse:
— Délios foi
visto há um dia nos arredores de Bramvell. Ele entrou em um bordel, matou todos
lá e depois... Desapareceu. Noite passada houve outro massacre. Quinze vítimas
em um antro de ópio. Mortos por setas de besta e passados no fio da espada.
Os olhos de
Valla se arregalaram descrentes. Josen respondeu a pergunta implícita.
— Ele
sucumbiu à corrupção demoníaca. Ele se perdeu e se tornou tão ruim quanto os
demônios.
Aquilo era
algo horrível, a possibilidade que todo caçador de demônios temia ao navegar no
limite entre o bem e o mal. Era muito fácil perder o controle do medo ou do
ódio e passar para o outro lado. Mas isto... Não era obra de Délios. Isto era
diferente. Valla disfarçou sua inquietação.
— Talvez seja verdade, mas caçador nenhum poderia fazer isto.
Nem demônio nenhum.
— Concordo.
— Você acha
que eles lutaram entre si?
— É possível
— Josen respondeu antes de sair. Valla observou os montes de cadáveres mais uma
vez, notando algo estranho: não havia crianças ali.
Do lado de
fora, Josen esperava ao lado do cavalo. Valla se apressou e foi até ele.
— Eu
completei minha última missão. Quais as ordens?
—
Continuamos procurando sobreviventes. Pela manhã eu irei até Bramvell e
encontrarei Délios. Talvez... Não seja tarde demais — disse o mestre dos
caçadores, mas a hesitação em sua voz não era muito animadora.
Valla
perfilou os ombros e disse:
— Então eu
irei atrás do demônio.
— Não —
Josen respondeu. — Você não está pronta.
Valla se
aproximou e disse:
— Como é?
O mestre dos
caçadores se voltou para ela e respondeu com o mesmo tom impassível:
— Eu disse
que você não está pronta. Nós não sabemos quase nada sobre o que estamos
enfrentando, nem sobre seus métodos. Nós achávamos que se tratava de um demônio
que se alimenta de medo... Mas Délios também sabia disso e essa informação não
foi suficiente para protegê-lo. Um demônio assim...
Os olhos de
Josen se abateram um pouco e ele disse:
— Ele pode
entrar em sua mente e descobrir cada medo, cada dúvida, cada remorso, não
importa o quão fundo esteja enterrado. E irá jogar você contra você mesma.
Os olhos do
mestre de caçadores se fixaram em Valla.
— Lembre-se
do seu fracasso nas ruínas.
— Aquilo foi
diferente. Foi um demônio de raiva — Valla protestou.
— Raiva.
Ódio. Medo. Eles alimentam uns aos outros. Um caçador de demônios aprende a
direcionar o ódio, mas é um equilíbrio precário. E quando esse equilíbrio se
perde, o ciclo começa: Ódio gera Destruição. Destruição gera Medo e Medo gera
Ódio, pois...
— Eu já ouvi isso um milhão de vezes! — Valla disse.
— Então
aprenda. Você ainda é jovem e tem muito a aprender. Eu sempre ensinei a você: o
caçador de demônios subjuga o ódio com disciplina. Portanto acalme-se. O
demônio está ferido, inativo no momento. Eu vou enviar outro caçador.
Josen se
voltou para ir embora, mas Valla não tinha terminado.
— Então eu
irei atrás de Délios.
Josen olhou
para ela e disse:
— Você vai
ficar e ajudar a procurar sobreviventes. Délios é meu. Essas são as ordens.
O mestre dos
caçadores partiu, lenta e calmamente. Isso só enfureceu Valla ainda mais. Ela
queria vê-lo gritar, demonstrar só um pouco de emoção que fosse.
Não
estou pronta? Eu não estou pronta depois de tudo pelo que passei?
Valla
sussurrou:
—
Como você ousa me dizer se estou pronta ou não?
No
instante seguinte ela montou seu cavalo.
Para
onde? Para
onde teria ido o demônio? Valla olhou o sangue em meio aos destroços. Não havia
rastros saindo do local, nada que a ajudasse.
A
leste havia apenas montanhas. A oeste, o Golfo de Hespéria. Bem para o sul
encontrava-se Nova Tristram. Mas o demônio estava ferido. Iria ele arriscar uma
longa jornada para o sul, ou será que ele seguiria para nordeste... Onde
poderia encontrar mais comunidades de fazendeiros como esta?
Mais
presas fáceis.
O
vilarejo mais próximo, Vila Guarida, ficava a menos de um dia de viagem.
Ela
fez sua escolha.
*********
Ellis
Halstaff estava preocupada com a saúde da filha.
Samantha
jazia no quarto do andar de baixo com um pano úmido e frio estendido em sua
testa, respirando muito levemente.
Nanzinha
acordara a noite passada gritando, e demorou bastante até que Ellis a
acalmasse. Finalmente, quando ela perguntou o que havia de errado, sua filha
respondeu dizendo:
—
Parece que tem algo ruim na minha cabeça.
Bellik, o curandeiro de Vila Guarida, a tinha visitado mais
cedo. Ele lhe trouxera um tônico que faria Nanzinha descansar e receitou um
banho frio assim que possível.
Mas Nanzinha
agora descansava, e Ralyn, o filho menor de Ellis, precisava comer. Além disso,
ainda havia trabalho a ser feito antes do anoitecer. Antes era mais fácil— nos
dias quando o pai de Nanzinha ainda estava com eles, antes de ele abandoná-los
sem dizer palavra e sem deixar recado, para nunca mais voltar.
Ellis olhava
para Nanzinha e lembrava-se do último aniversário dela, quando a precoce menina
de sete anos dissera confiante que iria “tomar conta dos próprios negócios dali
em diante” e que ela não iria mais fazer as tarefas de casa. Ela se lembrou do
riso de Nanzinha, uma gargalhada sonora e desabrida. E lembrou-se da noite em
que Nanzinha lhe dissera em segredo que estava apaixonada pelo pequeno Joshua
Gray, pois ele tinha olhos doces como um sonho.
Ela se
lembrou de tudo isso e orou a Akarat para que Nanzinha se recuperasse logo, que
pudesse ter ainda muitos sonhos doces e nunca mais se preocupasse com a
terrível doença que se abatera sobre ela.
Valla estava
sentada fitando fogueira, há alguns quilômetros de Vila Guarida. Ela percorreu
com o dedo uma comprida cicatriz que cruzava sua mandíbula.
Você
não está pronta.
O
caçador de demônios subjuga o ódio com disciplina.
As
palavras de Josen ainda machucavam. Mas quanto mais ela pensava, mais
considerava que... Talvez ele não estivesse de todo errado. Seus pensamentos
voltaram até o incidente nas ruínas...
Ela
e Délios tinham viajado juntos por vários dias, para as profundezas das Terras
do Pavor, ao sul. Délios era grosseiro e ácido, e a deixava nervosa. Valla
preferia trabalhar sozinha, mas Josen insistira para que trabalhassem juntos.
Eles
localizaram o esconderijo do demônio entre as ruínas de alguma civilização há
muito esquecida. Valla protegeu a mente como Josen ensinara. Ele havia avisado
a ambos que a batalha contra um demônio poderoso como aquele não seria apenas
física.
“Vocês
são a maior arma do demônio" ele lhes dissera.
Valla
sentiu sua inquietação aumentar à medida que os dois desciam por entre os
amplos e monolíticos blocos de pedra. A base da escadaria dava numa boca de
caverna onde centenas de enormes pilares de pedra subiam até o teto, seus topos
se perdendo na escuridão acima. Braseiros acesos lançavam borrões de luz
bruxuleante pelo lugar.
Délios seguiu à frente. Ele era descuidado. Tolo. A cabeça de
Valla latejou. Ela podia sentir o demônio se infiltrando em seus pensamentos.
Em sua mente a presença dele era como tentáculos negros sondando, provocando,
zombando. Valla pensou em cada hábito irritante, cada qualidade negativa que
Délios possuía. E sua agitação logo se tornou irritação, que então se tornou
raiva.
Délios
disparou adiante outra vez, depois de ela ter gritado que ele parasse. Ele se
voltou, lançando um sorriso malicioso em sua direção. De repente ela teve
certeza de que ele havia sido corrompido. Ele passara para o outro lado. A
raiva dela se tornou fúria cega e ela soube que iria matá-lo. Ele era fraco,
patético. Acabar com a vida dele seria misericordioso.
Valla seguiu
adiante. Délios ficou à espera, sorrindo provocativamente. Ela correu na
direção dele no momento em que ele se escondeu atrás de um pilar. Valla
seguiu...
E ele
desapareceu. Valla sentiu
o
demônio atrás dela, uma presença maciça, sobrenatural. Em sua mente ele ouviu o
eco de uma gargalhada. O demônio manipulara com a perícia de um titereio
puxando as cordas da marionete. Valla seguira um Délios falso. Ela tinha
perdido, e agora iria morrer.
Então
houve uma explosão, e Valla só lembraria-se do que aconteceu depois em breves
clarões de lucidez: Josen enfrentando o demônio. Délios correndo para ajudar.
Valla recobrando os sentidos a tempo de disparar várias setas. Josen gritando
palavras de banimento:
—
Eu o vejo, Draxiel, cão sarnento de Mefisto. Em nome de todos os que sofreram,
Eu o expulso! Retire-se, condenado, e nunca mais retorne!
Josen
disparou uma seta. Houve um brilho cegante e então o demônio desapareceu.
As
ruínas tinham sido um teste (Josen gostava de dizer que tudo, inclusive a vida,
era um teste). E Valla fracassara. Agora... Agora Délios também fracassara. E
isso custara sua alma.
Valla
estava determinada a derrotar este demônio, a não acabar da mesma forma que
Délios...
Ele
se perdeu e se tornou tão ruim quanto os demônios.
A
filha do marceneiro reprimiu um calafrio. Havia mais de uma maneira de banir um
demônio, mas Josen lhe ensinara apenas uma. E uma vez ele também lhe dissera:
—
Quando um demônio espia dentro de você, é possível espiar de volta. Mas isso é
a coisa mais perigosa que um caçador de demônios pode fazer.
O
erro que Valla cometera nas ruínas não se repetiria. Ela havia amadurecido
muito desde então.
A
caçadora de demônios tirou do bolso uma gravura representando Halissa, sua irmã
menor.
—
Por você — ela sussurrou. E ela começou a treinar a série de exercícios mentais
que Josen lhe ensinara enquanto a fogueira do acampamento lentamente se
extinguia.
Não
vou conseguir,
Ellis Halstaff pensou. Perdi muito sangue.
Escapar
pela porta da frente e correr até Vila Guarida não era uma opção. Não antes de
salvar Ralyn, que tinha apenas um ano e meio de idade e estava indefeso. Ele
não conseguia sequer caminhar direito, quanto mais se proteger.
Chegando
à escada ela se agarrou ao corrimão com a mão boa e se ergueu, arrastando a
perna inutilizada atrás de si um passo por vez.
E
enquanto sua força se esvaía ela pensou em Nanzinha e se perguntou em desespero
por que motivo sua filha estava tentando matá-la.
Depois
do dia de trabalho, Ellis fora até Nanzinha, ver se ela já podia tomar banho. Nanzinha
sorriu, puxou a melhor faca de cortar carne de Ellis de entre as cobertas e
esfaqueou a mãe na perna e então no torso. Cinco seis vezes. Ellis perdera
segundos preciosos imobilizada pelo choque antes de conseguir correr
finalmente.
A
cabeça de Ellis estava entorpecida. Ela estava na metade da escada quando ouviu
os passos rápidos dos pés descalços de Nanzinha no andar de baixo.
Ela
se virou e viu, ao pé da escada, sua linda filha loira, usando o vestidinho
rosa de fita que Ellis comprara a duras penas como presente do festival da
colheita. O tecido estava melado de vermelho escuro e rebrilhava à luz das
lamparinas. Nanzinha segurava a faca com a mão direita. Sangue recobria o braço
dela do cotovelo para baixo, e pingava da ponta da lâmina.
—
Espera mamãe, deixa eu te pegar!
Ela
acha que é brincadeira... Como ela pode achar que é uma brincadeira?
Ellis
se ergueu, subindo de costas mais um degrau.
Nanzinha
saltou dois degraus de uma só vez.
—
Eu falei PRA ESPERAR!
Ela
escorregou na trilha de sangue do degrau e seu braço direito, fazendo um arco
no ar, enterrou a lâmina bem onde Ellis havia estado alguns segundos antes.
O
som dos próprios gritos abafou qualquer outro barulho e Ellis se voltou num
ímpeto e saltou os últimos dois degraus da escada. Ela se aproximou do quarto
de Ralyn em investidas desesperadas, puxando a perna inútil atrás de si.
Lá
dentro eu posso trancar a porta e então talvez —
Ellis chegou à porta e congelou. Ralyn não estava no berço. E
mais: a grade de madeira fora quebrada, com pedaços espalhados pelo chão.
A tontura
ficou mais forte e Ellis estendeu o braço para se apoiar na barra lateral
quebrada do berço. Seus membros estavam frios e só a muito custo respondiam às
ordens da mente.
— Eu achei
você!
Ellis se
voltou e viu Nanzinha na porta com um grande sorriso no rosto, igual aos que
ela dava quando fazia bagunça com o pai antes de ele ir embora.
O mundo
estremeceu. Ellis deu um passo para trás e agarrou um pedaço partido da barra
lateral, longo e pontudo. Ela o arrancou e o trouxe à frente com a mão trêmula.
— O que você
fez Nanzinha? O que você fez com seu irmão?
Nanzinha
abaixou a faca. Seus lábios gordinhos se encurvaram nos cantos, suas
sobrancelhas se aproximaram e seus olhos se arregalaram úmidos. Era a expressão
que ela fazia ao ser flagrada fazendo alguma traquinagem, quando tentava
escapar do castigo.
— Você vai
me bater, mamãe?
O assoalho
balançava feito o convés de um navio em mar borrascoso. Ellis tinha uma vaga
noção de que sua mão e o pedaço de madeira pontuda pareciam estar à deriva,
longe, muito longe.
— Só me diga
por que... — Ellis soluçou. Sua voz parecia quase desinteressada.
— É por que
você está doente? Eu posso ajudar... Nós podemos ir até Bellik e —
Ela sentiu
uma dor aguda atrás do calcanhar bom, uma mordida funda e dolorida que disparou
um espasmo de agonia por todo seu corpo e a fez gritar.
Ellis olhou
para baixo e viu Ralyn escondido sob o berço. Ele olhou tranquilamente para ela
e lhe ofereceu um amplo sorriso de dentes pequeninos, cobertos de vermelho
brilhante.
O mundo
fugiu de sob os pés de Ellis e as trevas se acercaram dela. Seu braço caiu sem
forças e sua cabeça desabou para trás. E ela sequer chegou a sentir quando Nanzinha
enfiou a longa lâmina em seu peito.
***********
Valla chegou
aos arredores de Vila Guarida pouco antes da meia-noite. Ela não escolhera a
hora da chegada, mas tinha sido melhor assim.
Ela não seria bem-vinda na cidade. Caçadores de demônio
raramente o eram, sendo vistos frequentemente como prenúncios de problemas e
arautos da morte, mesmo nos melhores dias.
O ar ainda
estava morno quando ela passou pelos campos repletos de espigas secas, banhados
pela lua, e por grandes trechos de terra onde fileiras de trigo se postavam em
alqueires feito soldados obedientes. A colheita estava em andamento.
Os ouvidos
de Valla logo detectaram o som de água corrente.
Era um rio.
A filha do
marceneiro sentiu uma fisgada oca na boca do estômago.
O
estalajadeiro empalideceu ao vê-la, mesmo depois que ela tirou o capuz e
abaixou a echarpe para tranquilizá-lo. Ele respondeu às suas perguntas com
frases curtas. Não havia sinais de problemas, nada fora do comum. Nenhum motivo
para preocupação. Valla deu ao estalajadeiro um bilhete para ser entregue ao
curandeiro assim que amanhecesse, dizendo: “Procure-me se houver
qualquer problema”.
Ao
entrar no quarto, Valla conferiu os detalhes costumeiros: havia uma cômoda
robusto que serviria como barricada, se necessário. Não havia porta para o
quarto ao lado. Uma cama posicionada na parede mais distante com uma boa visão
da entrada. Uma única mesinha com uma cadeira, e uma janela a cinco metros de
altura do chão lá fora.
Valla
removeu a armadura e suas inúmeras armas. Ela colocou as bestas, adagas, setas,
boleadeiras e aljava bem à mão, perto da cama, tomando cuidado especial com uma
das setas, rubra e adornada com runas. Em seguida, ela desfez as malas. E por
todo o tempo, a filha do marceneiro não se livrava da sensação importuna que a
acossara em sua cavalgada até ali: a sensação de que estava esquecendo alguma
coisa. Algo importante, vital. Era como se houvesse um vazio em sua mente onde
antes havia um conhecimento essencial.
Valla
terminou de ajeitar as coisas e então se sentou no chão e fechou os olhos,
acalmando a mente. Concentrou-se no ritmo de sua pulsação.
O
que quer que tivesse esquecido recusava-se a ser lembrado. Outros pensamentos
se intrometiam, atrapalhando-a.
E
se ela estivesse errada? E se tivesse desobedecido Josen sem motivo?
A
caçadora decidiu que se preocupar com aquilo agora não lhe faria bem algum. A
lembrança fugidia retornaria a ela no tempo certo.
Valla
foi até a mesinha e escreveu uma breve carta para sua amada irmã Halissa.
Contou detalhes da viagem, assegurou-lhe que tudo estava bem, que ela a amava e
que logo a visitaria.
E a caçadora esperava que fosse verdade. Talvez depois que
esse demônio fosse destruído ela pudesse descansar um pouco.
Valla dobrou
a carta e a colocou num envelope, que depositou na bolsa de viagem.
Valla apagou
a vela e se deitou de lado, encarando a porta e forçando por recordar o que sua
mente esquecera.
Suspirou
fundo e desejou desesperadamente, como fazia todas as noites, ter um sono sem
pesadelos do ataque ao seu vilarejo. Como todas as noites, ela desejou apenas
uma vez sonhar com alguma coisa boa.
Ela
esquecera como era sonhar com qualquer coisa além de massacres.
Kirram Gray
entrou em casa cambaleando, depois de se aliviar no canteiro de flores. Seretta
não ficaria nem um pouco feliz se descobrisse, mas ela ficaria quieta, se
soubesse o que era bom. Antes, no começo do casamento, ela ainda não sabia, mas
com o passar dos anos ela aprendera. As lições eram duras, mas necessárias.
A lamparina
ao lado da porta estava apagada. Kirram falaria sobre isso com Seretta pela manhã.
Alguém podia quebrar a porcaria da perna entrando em casa assim no escuro.
Depois de três tentativas, Kirram conseguiu acender o pavio.
Ele se
perguntou distraidamente onde estaria Rexx, enquanto se dirigia à cozinha. Nas
noites em que chegava tarde da taverna, Rexx normalmente o encontrava na porta,
com a língua de fora e abanando o rabo de empolgação. Mas Rexx gostava de
dormir no quarto de Joshua... Era onde devia estar agora, enrodilhado aos pés
da cama.
Não havia
nada sobre a mesa da copa. Kirram sentiu a raiva crescer. Suas mãos se cerraram
em punhos e seus dentes rilharam de irritação. Seretta recebera instruções de
deixar o jantar esperando por ele. Seria ela tão burra? Kirram se perguntou se
Joshua teria comido seu jantar. Se fosse esse o caso, o moleque teria que ser
punido. E com firmeza, como deve ser nesses assuntos.
Mas agora
parecia que Kirram teria que cortar a carne ele mesmo. À volta para casa
aumentara consideravelmente sua fome. Pegando uma faca de cima da mesa, ele
seguiu com a lamparina à frente, em direção à despensa.
Ele entrou
no cômodo escuro e comprido, e a luz revelou alguns pedaços de porco
esquartejado pendurados de ganchos na parede à direita. Ele se aproximou de um
pedaço grosso de pernil e sorriu.
Kirram se
agachou, e ao deixar a lamparina de lado para cortar um naco de carne ele notou
uma poça de algo parecido com vinho no chão. Ele aproximou a lamparina.
Sangue.
Aquilo o deixou um pouco mais sóbrio. Não era para ter sangue
no chão. Os porcos eram mortos e limpos do lado de fora.
O sangue
estava acumulado entre suas pernas, vindo de algum lugar atrás dele.
Levantando-se e se virando, Kirram quase derrubou a lamparina ao dar um passo
súbito para trás.
Rexx estava
pendurado de um gancho na parede oposta, preso pela carne macia sob a
mandíbula. Sangue empapava seu pelo e ainda pingava da cauda. Suas entranhas
tinham sido removidas e empilhadas a um canto.
Uma brisa
morna entrou pela porta do outro lado da despensa, que se abrira de repente. A
luz não era forte o suficiente para que Kirram pudesse ver quem estava ali. Ele
abaixou a lamparina para que seus olhos se acostumassem à escuridão. Uma voz
chegou até ele.
— Pai?
— Joshua!
Venha pra cá, moleque! O que você está fazendo fora de casa?
Kirram ainda
não conseguia ver mais que um borrão escuro à distância.
— Eu falei
pra vir pra cá! Mataram o Rexx! Me obedeça, rapaz, anda!
Os olhos de
Kirram se ajustaram para ver melhor a silhueta do filho parado em pé na porta
segurando uma foice de cabo longo com as duas mãos, a lâmina curva contrastando
contra a lua e as nuvens.
— Mas a
colheita não acabou ainda, pai.
Kirram
cambaleou para diante, com a boca aberta de pasmo.
— O que você
disse rapaz? Ficou maluco...?
Mais alguns
passos e a lâmpada derramou sua luz sobre Joshua. Suas roupas de trabalho
estavam manchadas... Com a mesma cor de vinho que cobria o chão.
— Foi você
quem fez isso? Foi você que matou o cachorro, seu maldito doente de —.
Sem uma
palavra, Joshua deu um passo à frente e golpeou. Kirram ergueu o braço esquerdo
para aparar o ataque, mas no último segundo o garoto baixou e inclinou a
lâmina, que se cravou entre as costelas de Kirram, rasgando suas tripas, e
penetrando tão fundo que a ponta saiu pingando sangue do outro lado do torso.
Um som
engrolado subiu pela garganta de Kirram, escapando por sua boca. O moleque o
furara! Furado feito um porco. Ah, mas ele pagaria. O moleque seria punido, e
bem severamente.
Joshua puxou
a lâmina e Kirram se aproveitou desse erro. Avançando rapidamente ele enterrou
a faca de cozinha até o cabo na garganta de Joshua.
O filho caiu para trás feito pedra. Mesmo sem a presença da
lâmina da foice, Kirram sentia uma dor lancinante na barriga. Ele tossiu e
cuspiu uma grande mancha de sangue... E então correu. Ele matara o próprio
filho! Kirram só conseguia pensar em fugir, correr o mais rápido e para o mais
longe possível. Ele seguiu na direção do milharal sem se importar com as
espigas que ele esmagava e entortava, tropeçando, cuspindo sangue, sentindo uma
tontura que ameaçava derrubá-lo a qualquer momento.
Kirram
correu o mais rápido que seus pés podiam levá-lo, até que a dor no estômago o
forçou a se ajoelhar. Ele parara aos pés do espantalho, no canto do milharal.
Ele precisava fugir. Se ele conseguisse se erguer de novo... Se conseguisse
chegar à cidade e falar com Bellik, o curandeiro...
Kirram se
agarrou às calças do espantalho, forcejando por se erguer, um longo fio de baba
e sangue escorrendo do seu queixo. Mas o material entre seus dedos não parecia
palha.
E havia
sangue encharcando o tecido. Era sangue?
Sua
consciência se apagava. Kirram tossiu violentamente, se içou até o alto e
ergueu a cabeça para encarar o rosto do espantalho...
E viu a face
transida de horror e emaciada da esposa morta.
Um pouco
antes do amanhecer, Valla se postava ao lado de um cadáver coberto por um pano
na casa de Bellik. O sangue que se espalhava da cabeça já começara a secar no
tecido.
— Quem é? —
Valla perguntou.
— Durgen, o
ferreiro. Ele — ele nem conseguia falar direito quando chegou aqui... Murmurou
apenas algumas palavras antes de falecer, mas foi mais que suficiente.
— O que ele
disse?
— Hein?
Bellik era
praticamente uma relíquia, magro, encurvado e ruim de ouvido apesar das orelhas
enormes. Seu desconforto em presença de Valla era palpável.
Valla
perguntou mais alto:
— O que foi
o ferreiro falou?
— Ah
O curandeiro tentou puxar o pano, mas o sangue seco o
prendera no lugar. Bellik puxou com força e o pano se soltou, revelando um
homem lacerado, com metade da cabeça esmagada por um golpe.
— Ele disse:
“Foi meu filho quem fez isso”.
Valla ficou
em silêncio por um bom tempo, observando, e a sensação voltou, como se ela
tivesse esquecido algo importante. Ela ignorou o pensamento, concentrando-se na
situação presente, do homem morto traído pelo próprio filho.
Houve então
um grito vindo da rua, o gemido desesperado de alguém cuja vida chega a um fim
violento.
Valla correu
até a porta.
— Fique
aqui.
Ela saiu
para a luz do alvorecer. Na rua um garoto de talvez treze anos se inclinava
sobre o corpo de uma feirante. O garoto carregava um martelo de ferreiro cuja
cabeça estava suja de sangue. O que restava do crânio da feirante estava
espalhado entre os produtos expostos em cima de um pano roto.
Valla se
lembrou de que não havia crianças entre os corpos do armazém em Holbrook, e
então ela compreendeu.
Não havia
crianças porque elas haviam cometido os assassinatos. Peões no tabuleiro do
demônio. Por um breve momento Valla ficou chocada e perturbada com a ideia, e
baixou a guarda, ficando vulnerável. Mas ela se controlou a tempo, recobrou os
sentidos e começou a avaliar a situação. Era preciso agir logo ou ela morreria.
O grito
atraíra outras pessoas, e Valla notou uma garotinha loira num vestido vermelho
no final da rua. Ela carregava uma faca manchada de vermelho em uma mão e um
garotinho ensanguentado de olhar voraz escanchado em seu quadril. Os olhos dela
estavam arregalados e brilhantes.
Houve um
barulho de rangido no mirante acima da posição de Valla. Era alguém saindo, mas
o rangido fora curto e agudo, indicando alguém bem leve.
Outra
criança.
O filho do
ferreiro se aproximava de Valla com um sorriso bem aberto.
Duas outras
crianças apareceram: um rapazinho arrastando uma espada embainhada e uma menina
mais velha com uma grande pedra segura entre as mãos.
Então uma
última criança apareceu, um garoto ruivo sem os dois dentes da frente, pulando
com uma machadinha na mão direita. Um grupo de cinco adultos saiu na rua
também. Alguns rostos apareceram nas janelas.
— Quem não quiser se machucar é melhor ficar trancado! —
Valla ordenou, e cobriu o rosto com o capuz.
— Agora!
O grupo de
adultos obedeceu prontamente.
Bellik ficou
observando da janela.
Na época em
que ele prestava atenção nessas coisas, Bellik teria achado a moça bonita.
Agora ele só via uma arauto da ruína. Todos sabiam que aonde os caçadores de
demônios iam, a morte logo seguia.
A população
da cidade entrou nas casas, mas as crianças tinham permanecido na rua e estavam
se posicionando para atacar. As palavras do ferreiro voltaram a assombrar Bellik:
Foi
meu filho quem fez isso.
Que
loucura havia se apossado do mundo e transformado crianças em açougueiros? E a
mulher... A caçadora de demônios, certamente os mataria.
Uma
explosão de fumaça eclodiu sob os pés da mulher e se expandiu rapidamente, escondendo-a
da vista de todos. Logo em seguida uma pequena forma pulou no meio da névoa do
mirante acima do posto de observação de Bellik. Quando a nuvem começou a se
dissipar, uma machadinha passou girando, errando a criança que pulara por
alguns centímetros.
A
cabeça de Bellik girou e ele viu um vulto se erguer a vários metros, em meio à
névoa escura e evanescente. A fumaça fora uma distração proporcionada pela
caçadora. Ela girou o pulso e o garotinho ruivo que se aproximava — Bellik
achou que era o filho dos Travers — levou a mão ao pescoço como se tivesse sido
mordido.
Bellik
sentiu um aperto no peito.
Ela
está matando eles!
Kyndal,
o filho do ferreiro, se adiantou de olhos arregalados, perdigotos voando da
boca. Ele girou o martelo em um arco amplo. A caçadora de demônios avançou,
agarrou o braço do garoto e o fez girar, arremessando-o contra outro garoto que
Bellik não reconheceu, e que se ocupava em tentar desembainhar uma espada maior
do que ele.
O
garoto caiu de costas. A caçadora de demônios pegou o martelo e golpeou com ele
de baixo para cima, acertando a ponta do queixo de Kyndal. Dentes voaram. A
mulher se afastou e Kyndal caiu.
A alguns metros o filho dos Travers caiu pesadamente, com a
mão ainda colada ao pescoço.
A caçadora
demônios girou o pulso outra vez na direção da criança que pulara do mirante,
que Bellik também não reconhecera, assim como não reconhecera o garoto da
espada. Visitantes de Holbrook, talvez?
As mãos de
Bellik fecharam-se em punhos. Do lado de fora, duas crianças atacaram a mulher.
Samantha Halstaff, correndo como se estivesse jogando bola e sacudindo uma
adaga sangrenta à frente e Bri Tunis, levantando uma pedra pesada acima da
cabeça.
Bellik vira
acrobatas das terras distantes de Entsteig há muitos anos, em Caldeum. Eles
giravam, pulavam e davam cambalhotas e saltos mortais com uma facilidade
inacreditável. O curandeiro se lembrou deles ao ver a mulher saltar, rolar
agilmente para diante e aterrissar atrás de Samantha. Era um borrão em
movimento, quase rápido demais para ser visto, mas o mais impressionante é que
no instante seguinte Samantha estava amarrada com uma fina corda.
Perto dali,
o estranho que pulara do mirante desabou como o filho dos Travers.
Já
chega!
Bellik
correu até a porta e a abriu enquanto a caçadora de demônios executava um giro
e arrojava Samantha na direção de Bri com movimentos impossivelmente rápidos,
seus braços se agitando feito flâmulas ao vento. Quando ela terminou, as duas
meninas estavam amarradas.
O
pequeno Ralyn, irmão de Samantha, engatinhava para diante, parecendo querer
fincar os dentes na perna da caçadora. Ela o ergueu, sacou a adaga e —.
—
Não! — Bellik gritou.
—
a enfiou no cangote da camisa do garoto, fincando-a num poste de madeira
próximo, e deixando a criança esperneando e se debatendo, ilesa. Valla se virou
e foi em direção a Bellik.
—
As crianças — ele disse.
—
Elas estão bem. Eu usei dardos sedativos. Elas estão a salvo por agora. E
permanecerão assim com sua ajuda.
As
mãos de Bellik relaxaram e se abriram. Seus ombros desabaram de alívio.
—
Qual a surpresa? — Valla perguntou.
—
É que dizem que vocês... — Bellik abaixou a vista.
—
Fale — Valla o encorajou.
Bellik
reuniu coragem e disse:
— Que vocês não são melhores que os demônios. Que os olhos de
vocês carregam o fogo do inferno. Que aonde vocês vão, a morte segue.
Valla se
aproximou de Bellik, que cambaleou para trás.
— Dizem que
quando um demônio espia os recessos mais recônditos da sua mente, curandeiro,
então é possível espiar de volta, se você souber como. E então você só vê a
caçada e a vingança, e seus olhos ardem no fogo dessa obsessão.
Os lábios de
Bellik tremeram. Ele disse:
— Seus
olhos... Não ardem.
A expressão
de Valla se abrandou.
— Não. Eu
vivo para algo mais que a vingança.
Ela se
voltou e disse:
— Agora eu
preciso de um lugar para deixar as crianças. Separadas.
O curandeiro
pensou por um instante.
— Nós só
temos uma cela na cadeia... Mas temos estábulos. Os estábulos vão servir, tenho
certeza.
Valla olhava
pela pequena janela gradeada para as baias. Samantha estava em uma delas, mãos
e pés amarrados, cabeça inclinada com o longo cabelo loiro escondendo seu
rosto. As outras crianças estavam nas baias restantes, em grupos de dois ou
três. Mas Valla insistira para que Samantha ficasse sozinha.
Quando as
crianças foram transportadas até ali, uma multidão de aldeões se reunira em
volta das carroças usadas para levá-las até os estábulos. Muitos tinham ficado
violentos, e sua raiva fora direcionada a Valla. Mas eles confiavam em Bellik,
e foi à orientação dele que evitou a catástrofe, pelo menos naquele momento.
Havia pessoas estavam esperando fora dos estábulos até agora e Valla ouvia o
eco de seus lamentos e maldições.
Bellik
terminara de falar com eles.
— Eles
querem saber por que isto está acontecendo. Por que as crianças?
Valla abriu
a porta da baia, entrou e se ajoelhou na palha seca.
— Tranque a
porta.
— Mas...
— Tranque.
Quando ela
ouviu o ferrolho sendo puxado, Valla repartiu o cabelo de Samantha e ergueu o
queixo da menina. Os olhos dela estavam fechados.
O cabelo
loiro, a pele boa... Ela lembrava muito Halissa. Valla se lembrou de como o
rosto de Halissa se animava ao ver a irmã mais velha. E lembrou-se dos olhos
brilhantes e curiosos da irmã, de sua energia inesgotável.
Valla não
podia demonstrar fraqueza diante do curandeiro, e suportou impassível a onda de
enjoo que a acossou numa maré de tristeza e angústia. Subitamente Valla se
sentiu cansada de corpo e alma.
Ela se
lembrou do seu vilarejo em Hespéria. Se lembrou da família. Valla conteve
rapidamente as lembranças do massacre, quando ela era pouco mais que uma
criança, as mesmas visões que a assombravam toda noite. Gritos dos moribundos;
sangue; uma garra de demônio que, mirando sua garganta, acertou seu queixo; a
fuga; a mão de Halissa na sua; o esconderijo perto do rio...
Ela fora
encontrada por outros que tinham sofrido destinos parecidos e aprendera a
respeito dos caçadores de demônios. Orientada por Josen, Valla fora recriada
como um avatar da vingança, uma arma forjada para atacar o coração das trevas.
Valla
esfregava distraidamente a cicatriz no queixo. Ela se aproximou de Samantha e
disse:
— Fale
demônio.
Valla
esperou. Não houve resposta.
— Não se
faça de difícil. Você não vai vencer aqui. Sua única esperança é voltar para
seu mestre amaldiçoado e esperar que o inferno tenha piedade, pois eu não
terei. Agora diga seu nome.
Samantha não
se mexeu.
Abaixando a
cabeça da garota, Valla se levantou e se postou diante da janela gradeada.
—
Curandeiro! Você me perguntou o motivo deste demônio ter escolhido crianças...
Eu vou lhe dizer. Esta criatura patética do inferno escolheu os jovens porque
ela é fraca e as crianças são vulneráveis, presas fáceis para essa ralé que
implora por migalhas na mesa dos seus mestres.
Bellik
estava bem diante de Valla. Ele a encarou e ergueu as sobrancelhas.
Então Valla
sentiu a movimentação atrás de si, acompanhada por um som bem leve.
A filha do
marceneiro se virou e viu a menina na ponta dos pés, com as costas arqueadas e
a cabeça apertada contra o ombro... Seu cabelo caído sobre um rosto partido de
veias, de olhos arregalados, sem foco e avermelhados. Quando sua boca se abriu,
ela pareceu lutar para formar as palavras. E então ela disse:
— NÃO VIRES TU AS COSTAS, INSOLENTE!”
A voz tinha
um tom alto e áspero, como o som de aspiração contínua.
— QUERES
PORVENTURA ENFRENTAR-ME?
A cabeça da
menina se agitava frenética de um ombro a outro.
— TAL FEITO
EXCEDE TEU ALCANCE, SER ABJETO. MAS ALGUMA DISTRAÇÃO SERIA BEM-VINDA.
LIBERTA-ME, E ENTÃO VERÁS...
Valla sacou
a lâmina. Bellik protestou com lábios trêmulos e cobriu as orelhas com as mãos.
Valla não pareceu notar e cortou as cordas que prendiam Samantha.
Sim,
vamos ver então.
A
criança deu dois passos. Valla saiu do caminho e a menina cambaleou para frente
até ficar diante da porta fechada. Sua cabeça girou até que o queixo tocou suas
costas, seus olhos esgazeados encarando o nada.
—
VEM.
Valla
disse a Bellik que destrancasse a porta.
Bellik
olhou de Samantha para Valla e de volta.
—
Mas é seguro?
—
Não haverá problemas. Confie em mim.
Depois
de um instante de hesitação Bellik fez o que ela pediu. O queixo da menina
tocava o próprio peito e seus cabelos impediam que ela visse para onde ia, mas
ainda assim ela conseguiu se mover sem erro pelo estábulo.
Bellik
lhe deu bastante espaço e então ele e Valla a seguiram enquanto ela passava
pelas baias onde as outras crianças estavam presas. À direita, a menina mais
velha que levantara a pedra pesada estava à porta, agarrando as barras, e
quando ela falou, foi na voz repelente de um demônio.
—
EU SOU OLPHESTOS. O INFILTRADOR, FACILITADOR DA LEGIÃO DOS MALDITOS E LÁTEGO
DOS CONDENADOS QUE SE ESTORCEM...
Bellik
olhou em redor aterrorizado, suas palmas pressionadas novamente contra as
orelhas enquanto Samantha prosseguia. O menino que arrastara a espada pelas
ruas se ergueu para espiar pela janela do outro lado, e a voz continuou, saindo
agora de sua boca:
—
FOMENTADOR, ARREGIMENTADOR, CASTIGADOR, GORJA DO GRITO SILENTE...
Outra
criança falou da baia à direita de Samantha.
— O BARQUEIRO DAS ESPERANÇAS PERDIDAS, DOS SONHOS PARTIDOS,
DO DESESPERO DEBILITANTE...
Na última baia
estava o filho o ferreiro, exibindo um buraco sangrento no lugar onde antes
havia dentes.
— A HÁBIL
MÃO DIREITA DO MEDO. O OLHO QUE OLHA PARA DENTRO. CONHEÇA-ME E CONHEÇA O
INDIZÍVEL.
Bellik ficou
perto de Valla enquanto Samantha saía para a luz do dia.
Valla saiu
atrás dela, puxando o capuz para trás, e abriu caminho à força entre a multidão
reunida.
— Deem
espaço! Todos vocês! Bellik ajude aqui!
Os moradores
do lugar continuaram pressionando, fazendo perguntas, acusando. Bellik gritou
para a multidão abrir espaço enquanto Samantha cambaleava para diante.
Valla abria
caminho adiante da menina, que prosseguia. Seus movimentos eram às vezes
erráticos e espasmódicos, às vezes graciosos e fluidos. O ajuntamento de
pessoas prosseguiu, passando pelas lojas no lado leste da cidade.
Samantha
apressou o passo e muitos dos moradores foram ficando para trás. Bellik resfolegava
seu rosto vermelho pelo esforço.
Eles andaram
por um trecho desolado da estrada de terra, pouco mais que uma picada que dava
nos campos mais além. Samantha chegou perto de uma touceira de capim seco,
parou e se virou. Sua cabeça se endireitou e a voz do demônio jorrou novamente
como um forte vento.
— QUERES
PORVENTURA ENFRENTAR-ME? ENTÃO VEM...
A menina deu
um lento sorriso, mas quando ela falou em seguida, foi com a voz de uma
criança, a voz da pequena Samantha Halstaff:
— A gente
pode fazer bagunça junto...
Sem aviso os
olhos dela se fecharam. Seu corpo amoleceu e ela caiu.
Valla se
adiantou e se curvou sobre Samantha para se certificar de que ela ainda vivia.
Ela pôde ouvir a respiração da criança.
Os aldeões
que tinham ficado para trás chegaram finalmente e cercaram a caçadora de
demônios. Bellik também estava perto, acalmando a respiração. Valla olhou para
o alto, como se esperasse que o demônio caísse do céu.
Então ela
olhou para baixo, notando e passando os dedos na grama esturricada, que se
espalhava por uma grande área, abaulada no meio e afilada nas pontas, com o
formato geral de um grande olho. Havia manchas negras também — contaminação
demoníaca.
—
Curandeiro, há alguma coisa embaixo de nós?
As sobrancelhas de Bellik se ergueram.
— Não.
— Num é bem
assim não.
Valla e
Bellik se voltaram para um dos aldeões, um fazendeiro roliço com um chumaço
branco de bigode na cara.
— O rio
Bohsum passa aqui embaixo.
Bellik olhou
para Valla e talvez fosse um truque da luz, mas lhe pareceu que ela havia
empalidecido um pouco.
— Mas eu
ouvi o rio quando cheguei aqui ontem à noite. Estou ouvindo neste instante.
O cenho do
fazendeiro se franziu um pouco num sinal de irritação branda.
— Aquilo não
é o Bohsum de verdade, é só um canal que os colonos escavaram tem muito tempo
pra desviar a água... O Bohsum de verdade sai lá da Serra Queda morte —
O fazendeiro
se virou e apontou para nordeste.
— E entra
num sumidouro. Daí ele vem vindo por debaixo da terra até sair de novo daqui a
uns dois dias de viagem lá pra oeste.
Valla
avaliou os arredores próximos.
— Não tem um
poço?
— A terra
fora da vila é fértil, mas aqui o chão é duro que nem ferro. Foi mais fácil
cavar o canal.
Valla
suspirou e respondeu:
— Esse
sumidouro e o ponto onde o rio reaparece... Não há outro jeito de chegar lá
embaixo?
O fazendeiro
cuspiu e disse:
— Não.
— E onde
fica o sumidouro?
O fazendeiro
acenou na direção das montanhas.
— Meio dia
de viagem naquele rumo.
Bellik olhou
para Valla inquisitivamente.
— E agora?
A filha do marceneiro ergueu o capuz e observou a multidão.
— Fiquem
aqui e permaneçam juntos. Isso garantirá sua segurança. Levem Samantha de volta
aos estábulos. Amarrem e prendam qualquer jovem com menos de dezesseis anos.
Ela olhou
para Bellik novamente.
— E vão
buscar meu cavalo. Eu vou matar esse demônio.
Soava como
uma tempestade.
Valla se
postava na beira da cratera na qual o Bohsum se escoava, seus olhos perdidos na
voragem de águas que sumiam dentro da terra. O rio afundava ali, espiralando
lentamente pelas margens e mais intensamente no meio, antes de finalmente
desaparecer na escuridão rumo ao desconhecido lá embaixo.
Os borrifos
refrescaram o rosto de Valla, e o ruído do vórtice de água, como o de um vento
forte, fizeram-na lembrar de uma noite semanas depois do ataque à vila...
Valla e
Halissa se aninhavam juntas para se aquecer enquanto a chuva castigava a terra.
Halissa caíra em sono exausto, mas como de hábito os pesadelos sobre o massacre
não a deixaram dormir por muito tempo. Halissa acordou gritando e saiu correndo...
Perto dali,
o rio caudaloso corria. Halissa correu para muito perto da margens e escorregou
na lama... Halissa estendera a mão...
Valla temera
então que Halissa fosse carregada, perdida para sempre... Perdida como as águas
correntes que vertiam no sumidouro, tão parecido a uma órbita vazia.
Seu coração
ficou pesado com a lembrança, mas ela agarrara a mão de Halissa. Tinha dado
certo. Tudo dera certo no final.
De volta ao
presente, à ausência na memória de Valla estava mais pronunciada, um vazio
persistente. Qualquer que fosse o pedaço faltante, Valla jurou, isso não
importaria. Ela se sentia mais cansada do que nunca, mas ela iria terminar essa
história. Por Halissa.
Valla sabia
que a armadura apenas a atrapalharia, e assim ela a descartou. As armas ela
guardou em uma capanga que Bellik lhe dera para este fim. Na capanga também
havia pederneira e palha seca enroladas em couro de cabra. Ela colocou ali
também as boleadeiras e várias setas de ponta explosiva.
Ela removeu o manto e o capuz e os colocou na capanga também,
para que não a atrapalhassem na água. Finalmente despida, Valla segurou firme a
capanga e se aproximou da borda da fissura.
Valla não
conseguia imaginar nada mais inescrupuloso que um demônio corruptor de menores.
Ela sentiu um calor subindo das entranhas, uma fúria calcinante. Mas era isso
que o demônio queria, não era?
Ela pensou
em Délios. No fracasso dele.
O
caçador de demônios subjuga o ódio com disciplina.
Parte
dela sabia que talvez não sobrevivesse à queda, que as águas revoltas poderiam
sugá-la para a morte.
Valla
respirou fundo e pulou.
Dentro
do olho convulso do sumidouro o mundo se rendia à escuridão e os músculos de
Valla forcejaram por manter seu corpo a prumo em meio ao caos do turbilhão. Ela
se esforçava para não largar a capanga e, sentindo o peito queimar no limite da
apneia, ela foi jogada de um lado a outro com violência e afundou mais e mais
até que sua consciência ameaçou abandoná-la por completo. As trevas e a falta
de orientação eram totais.
Havia
uma sensação de movimento rápido. Seus membros batiam nas protuberâncias
rochosas à medida que o rio a arrastava.
E
então...
Seus
dedos encontraram apoio. Ela agarrara uma grossa estalagmite e agora se esforçava,
resistindo à correnteza. Ela emergiu a cabeça e aspirou todo o ar que
conseguiu.
Ela
estava aliviada por ter conseguido reter a capanga. A água em seus olhos não
lhe permitia ver nada, e mesmo depois de esfregar o rosto com o braço, sua
visão não clareou.
O
ar era frio ali embaixo. Valla tateou com o pé e sentiu uma parede de pedra.
Sua visão borrada finalmente clareou e ela jogou a capanga num ressalto próximo
e se arrastou para fora da forte correnteza.
Ela
se sentou, dando ao corpo um momento de descanso e absorvendo os detalhes de
onde se encontrava. A área próxima se abria para o que parecia um emaranhado de
túneis e grutas. Algas luminescentes recobriam as paredes, estalactites,
estalagmites, colunas de pedra e partes do teto. A luz delas fornecia um brilho
estranho e sobrenatural e tornava tochas desnecessárias.
Ótimo, Valla pensou. Posso
ficar com as mãos livres.
Detectar qualquer barulho era impossível por causa do atroar
das águas que ecoava pelas paredes. Valla tirou o manto da capanga e o prendeu
às costas para se aquecer. Por sorte o manto mal se molhara. Ela tirou as armas
da capanga, aliviada ao ver que a seta rubra ainda estava ali, então preparou
as bestas e se levantou com uma em cada mão.
Ela olhou na
direção de uma caverna à qual estacas afiadas de calcário saindo do teto e do
solo emprestavam a aparência de um tubarão de boca aberta pronto para devorar a
presa. E Valla viu uma sombra recortada da escuridão mais adiante, passando
veloz de um lado para o outro.
Valla correu
atrás do vulto, e ao fazê-lo ela sentiu o primeiro toque da mente do demônio
roçando na sua, uma presença maléfica e detestável à espreita fora do perímetro
de sua atenção, um lobo caçando nos limites de uma floresta sombria.
A sensação
ficou mais forte quando ela entrou na caverna. Seus sentidos estavam alerta e
sua pulsação batia acelerada.
BEM-VINDA, disse uma voz
em sua mente. Valla se moveu para o fundo da caverna onde um túnel recuava nas
trevas. Havia bem menos algas luminescentes naquela área. E aqui e ali se viam
as manchas da mesma substância negra encontrada no poço em Holbrook.
Ela
se ajoelhou e passou os dedos no muco viscoso.
TAMANHA
PERSISTÊNCIA. TAMANHO DESEJO.
POR
QUÊ?
O
OLHO VERÁ.
Valla
se levantou e entrou no túnel com as bestas prontas. Houve movimento pelo chão
de alguma coisa rastejando, e ela viu a pouca luz um tentáculo negro brilhante
se erguendo e desenrolando e estalando feito chicote em sua direção. Valla
disparou uma seta e a criatura cambaleou para trás, mas bestas não eram as
armas apropriadas para lidar com aquilo. Ela guardou uma besta e sacou uma
adaga enquanto sentia o demônio sondando sua mente, causando uma dor latejante.
Ela viu gavinhas negras em sua mente, parecidas ao apêndice oleoso que a
atacara.
FILHA
DO MARCENEIRO.
Valla
golpeou de lado, cortando a ponta do tentáculo, que se retraiu rapidamente. Mas
a presença em sua mente se infiltrara ainda mais.
LINDAS
MEMÓRIAS TU GUARDAS AQUI, SACO DE SANGUE. COLHEITA MADURA.
Parecia
que agulhas perfuravam a cabeça de Valla à medida que ela prosseguia. As
paredes estavam empastadas com o lodo negro e brilhante.
ALDEIA.
FAMÍLIA. AMIGOS. ABRIGO, CALOR. TEMPOS FELIZES.
MAS ENTÃO...
DEMÔNIOS.
ENXAMES QUAL GAFANHOTOS.
As
paredes pareciam se contorcer e mais tentáculos emergiam do atoleiro e se
desenrolavam. Valla guardou a outra besta, sacou outra adaga e começou a cortar
de um lado a outro.
FUGIU.
COVARDE.
ABANDONOU
FAMÍLIA. DEIXOU MORRER.
Valla
lutou contra a parte de si que lhe dizia ser tudo verdade.
Vocês
são a maior arma do demônio.
—
Eu não conseguiria fazer nada! Só teria morrido junto! — Valla gritou enquanto
pulava sobre um tentáculo enorme, cortando-o fundo.
Ela
se viu de repente em uma galeria circular mais ampla que se abria num espaço
aberto mais além, um semicírculo externo fronteado por colunas de pedra finas
no meio e grossas nas pontas. A cabeça dela latejava. O demônio atacava com
mais força agora.
GRITOS.
MORTE. ALDEIA MASSACRADA.
FAMÍLIA...
MASSACRADA.
—
Você não vai me manipular como fez com Délios!
SANGUE...
SIM.
SANGUE COMO UM...
RIO.
—
Já chega! Venha me enfrentar, vamos acabar logo com isso!
O
OLHO VÊ.
VEJO-TE.
O
atroar da água era mais fraco ali, e Valla imaginou ter ouvido a risada de uma
menina. Ela viu movimentação no círculo externo e saiu em perseguição.
A
câmara encurvada levava a outro túnel, depois outra curva e ela se viu cercada
pelas trevas outra vez. Seus pés faziam barulhos molhados na gosma negra e
então... O rugido do rio abafou todos os sons.
Ela estava dando uma volta e se aproximando da água. Então
uma forma que parecia ser uma cabeça apareceu em uma esquina e sumiu em
seguida.
Valla sacou
as bestas outra vez, dobrou a esquina de pedra e viu num relance o que parecia
ser uma criança. Valla pensou que o filho do inferno devia ter trazido uma
criança... Para usar de escudo.
O vulto saiu
correndo e Valla lhe deu perseguição. Agora já estavam chegando mais perto do
rio e Valla pôde ver que era uma menina. De longos cabelos loiros.
TROVÃO.
CHUVA.
A
criança parou e ficou imóvel de um jeito sinistro. Valla se aproximou
lentamente, pronta para alguma surpresa, seu coração escoiceando dentro do
peito.
IRMÃ.
A
menina se virou e Valla reconheceu o rosto de Halissa.
RIO.
FUGINDO. MENTE EM PEDAÇOS.
É
claro que não podia ser Halissa. Mas parecia tanto com ela. A menina era
pálida, branca feito à morte, e sua pele encharcada começara a cair em tiras.
Um olho saltava pra fora.
Valla
quedou paralisada. A dor em sua cabeça era insuportável. Mas a muralha que a
separava das lembranças obscurecidas se esfacelava cada vez mais.
E
ela lembrou...
SIM.
Ela
se lembrou da noite em que Halissa saiu correndo, enlouquecida, fora de si por
causa das semanas sofrendo com os pesadelos e vivendo feito um animal,
atormentada pelo massacre que testemunhara. Ela se lembrou de perseguir a irmã
em meio à tempestade.
A
menininha na caverna sorriu, e uma garra negra como a de um caranguejo se
estendeu para diante.
Halissa
escorregara e o coração de Valla gelou. Halissa estendera a mão, e Valla a
tinha segurado...
Mas
a água da chuva deixara tudo escorregadio e ela não pôde segurar por muito
tempo. Halissa deu um único grito e se perdeu.
TENTOU
ENTERRAR LEMBRANÇA FUNDO. BEM FUNDO. MAS O OLHO VÊ.
NUNCA
TERÁS UM SONHO BOM.
Valla
caiu de joelhos diante da menina na caverna. Um tentáculo negro saiu do rio e
deslizou feito cobra pelo chão. O tentáculo agarrou o braço de Valla e puxou.
Uma das adagas caiu de seus dedos frios. Já não importava. Nada importava mais.
POR QUE CRIANÇAS? CRIANÇAS
SÃO A ESPERANÇA. EU SOU O DESTRUIDOR DA ESPERANÇA. O MEDO DE MORRER NAS MÃOS DE
UM ENTE QUERIDO. A FÚRIA DA INOCÊNCIA PERDIDA.
Destruição
gera Medo, Medo Gera Ódio, Ódio gera Destruição...
SIM.
DÉLIOS.
AQUELE TINHA MUITA RAIVA.
ESCONDIDO
NA RAIVA, UM GAROTINHO. ANSIOSO POR DESTRUIR.
Valla
sentiu a aspereza das pedras ao ser arrastada para a beira do rio.
AGORA
VOCÊ ME PERTENCE.
Mas
havia mais um pedaço de lembrança faltante.
Ela
se lembrou da fogueira.
O
tentáculo a puxou para baixo. Outro se ergueu e prendeu seu braço livre. A água
ali era muito mais funda. Valla fechou os olhos, adiando o momento de exalar O
último suspiro. O que estava faltando?
A
fogueira. Os exercícios mentais. Ela enterrara a lembrança da morte de Halissa.
Mas por quê?
Lembre-se.
Para
que o demônio fosse procurar por ela. Em seu olho espiritual ela viu a
infiltração demoníaca como centenas de tentáculos fuliginosos.
Quando
um demônio espia os recessos mais recônditos da sua mente, curandeiro, então é
possível espiar de volta, se você souber como.
Valla
se imaginou agarrando um dos tentáculos e seguindo-o até sua origem...
O
QUE É ISSO?
A
coisa mais perigosa que um caçador de demônios pode fazer.
Sua
consciência invadiu a presença que se prendera a ela. Um olho vermelho maligno
dominava a aparição e Valla seguiu adiante em busca de respostas. Seus
arredores mostravam-se vivos com coisas que se estorciam e rastejavam, mas
quanto mais ela sondava, quanto mais insistia... Mais as coisas tomavam forma
definida.
E
com uma clareza súbita ela entendeu o que enfrentava.
Os
olhos de Valla se abriram sob a água, e lá embaixo, nas profundezas escuras...
Eles
ardiam feito fogo.
Eu estou vendo VOCÊ.
Ela
sentiu a presença retirando-se de sua mente e sentiu o aperto em seus braços
afrouxar. Ela golpeou à frente com sua última adaga e cortou os tentáculos. O
rio ameaçou levá-la para longe... Mas ela não permitiu. Não dessa vez. O rio
nunca mais tomaria nada dela.
Seu
nome maldito nem é Olphestos.
Valla
se impulsionou em direção à superfície e enterrou os dedos no rebordo rochoso.
Ela se içou para o alto e o cadáver de Halissa deu um passo para trás,
evidenciando medo em seu rosto.
Eu
estou vendo você, Valdraxxis—soldado raso. Pária. Abandonado.
A
menina morta se virou e correu.
Durante
as guerras contra os Males Supremos, você liderou uma campanha fracassada.
Punido e ridicularizado... Você já foi um demônio importante no Inferno, mas
agora é persona
non grata até para seus irmãos.
EU...
Algo
saiu se arrastando das trevas à direita, algo que parecia ter sido um sapo,
agora uma criatura deformada, inchada com enormes olhos bruxuleantes. A coisa
avançou na direção de Valla.
EU
NÃO SEREI DERROTADO.
Valla
meteu a adaga entre os dentes, procurou dentro do gibão e ficou feliz ao ver
que as boleadeiras ainda estavam lá.
Ela
lançou uma boleadeira que se enroscou no braço anfíbio. A criatura ergueu o
membro à altura do rosto, encarando a corda e as bolas estupidamente.
A
boleadeira explodiu, vaporizando o braço do monstro e arrebentando sua cabeça
enquanto Valla empunhava novamente a adaga e retomava a perseguição à menina.
Não
era o cadáver de Halissa, era meramente uma forma usada pelo demônio para
enfraquecê-la.
O
fraco aqui é você, lacaio.
Mais
criaturas saíram dos nichos nas paredes, coisas monstruosas. Um deles veio de
lado e golpeou com uma garra gigante. Valla pulou sobre a criaturae enfiou a
adaga através da carapaça. As pernas do demônio se dobraram e ele caiu. Valla
sacou uma das bestas.
Outra
aberração se arrojou em sua direção. Sempre em movimento, caçando o impostor,
Valla disparou uma seta que destroçou algo parecido a um braço e outra que
atravessou um olho bulboso. Ela arremessou a adaga e sacou a outra besta.
Uma longa passagem esperava por ela. As paredes tomaram vida
quando incontáveis insetos — baratas, centopeias, besouros, uma maré de
pestilência quitinosa — se arrojaram sobre ela como um só corpo.
A caçadora
de demônios parou se ajoelhou e disparou várias vezes com as duas bestas,
causando várias explosões. Ela sentiu o calor no rosto e quando as chamas se
dissiparam a legião repelente não passava de uma gosma grossa grudada nas
paredes. Os que sobraram ela esmigalhou sob os pés enquanto corria.
Valla dobrou
uma esquina, mas o que ela viu já não era a garota.
Era uma
cópia idêntica dela mesma. Valla se adiantou, pegando a seta rubra e
equipando-a na besta. A Valla falsa abriu a boca e uma grossa língua negra de
lodo saiu borbulhando, derramando-se por seu queixo e vazando por suas narinas.
A cicatriz que ela tinha no queixo se abriu e mais gosma caiu dali até o chão.
A Valla falsa chorava lágrimas de sangue demoníaco.
Não.
Eu não sou assim. Eu não serei assim.
A
falsa Valla saiu correndo, passando por uma grota escura e dando a volta em um
enorme pilar de pedra. A caçadora de demônios a seguiu com as bestas prontas
para disparar. Ela deu a volta no pilar, girou e pousou um joelho no chão,
dizendo:
—
Eu o vejo, lacaio do Inferno Ardente...
Ela
pronunciou as palavras enquanto o demônio saía da grota preparando para o golpe
um grosso braço terminado em lâmina serrilhada de quitina, um golpe forte o
suficiente para arrancar a cabeça da caçadora de demônios.
—
Em nome de todos os que sofreram, eu o expulso!
O
demônio era uma monstruosidade maciça. Seu corpo era como o das criaturas que
existem bem no fundo do mar aonde a luz nunca chega. Tentáculos negros
intumescidos lhe serviam de pernas. A parte superior do torso era coberta por
uma casca blindada de quitina com caroços pontudos, e todo o corpo dessa
criatura de pesadelos estava coberto por uma gosma viscosa da cor da
meia-noite.
—
Vá embora, maldito, e nunca mais retorne!
Um
enorme olho vermelho com uma estreita pupila vertical a encarou. A pupila se
alargou quando Valla disparou a seta rubra.
A
seta atingiu o olho, estourando-o como uma uva. As runas na seta brilharam, e
então houve uma explosão de luz cegante.
O tempo agora esfriava.
Valla estava
de pé, com o capuz abaixado, olhando para a grande cruz de madeira que marcava
a sepultura de Halissa. Várias ervas daninhas haviam brotado desde a última vez
em que ela estivera ali. As sepulturas dos seus pais, onde ela enterrara o que
sobrara deles, também continuava ali, e ao redor delas se espalhavam as
sepulturas dos outros aldeões que também foram massacrados.
Josen se
aproximou, mas permaneceu em silêncio. A brisa leve enfunava seu manto.
Valla se
ajoelhou e começou a arrancar o mato.
— Notícias
da aldeia — Josen disse com aquele tom sempre irritantemente em emoção.
— Tudo
está... Tão bem quanto possível, dadas às circunstâncias. As crianças voltaram
ao normal, sem lembrança nenhuma do que fizeram... Muitas delas crescerão sem
pais. Bellik e alguns outros ofereceram suas casas para os órfãos.
Valla disse
apenas:
— Bom.
Josen levou
o peso do corpo para a outra perna.
— Parece que
os aldeões estão... Agradecidos.
A filha do
marceneiro se levantou, encarando Josen. Havia três rasgos ainda cicatrizando
do lado esquerdo do seu rosto.
— E quanto a
Délios? — Valla perguntou.
— Já cuidei
disso — Josen respondeu. Valla esperou o resto da explicação. O mestre dos
caçadores apenas a encarou impassível.
— Eu ouvi
murmúrios... — ela disse. — Premonições de pessoas agraciadas com o dom da
profecia... Dizendo que uma estrela cairá em Tristram daqui a sete dias.
Os olhos de
Josen pareceram avaliar Valla.
— É verdade.
Dizem que a estrela cadente é um sinal da Profecia. Os outros me pediram para
enviar meu melhor caçador para investigar.
Valla puxou
um item de sob a armadura. Um momento de silêncio se passou, e Josen falou
finalmente.
— O que você
fez...
— Foi
arriscado. Mas funcionou.
A filha do marceneiro desdobrou a carta que ela escrevera em
Vila Guarida, se ajoelhou e a colocou em cima da sepultura, prendendo-a com uma
pedra.
— Eu disse
que viria visitar você — ela sussurrou.
Ela se
levantou e olhou para seu mentor.
— Você gosta
de dizer que tudo é um teste. A vida é um teste. Eu fracassei nas ruínas... Mas
neste teste eu passei. E eu aprendi bastante. Aprendi que podemos ser nossos
piores inimigos. Mas também aprendi que não importa o quanto os demônios
destruam... Eles não podem destruir a esperança.
O sol que se
punha iluminou os olhos de Valla.
— Pode
funcionar pra você simplesmente desligar suas emoções, mas eu sou diferente.
Foi libertador viver por algum tempo com a promessa de uma vida diferente.
Viver uma mentira confortável.
O
quão fácil seria retornar àquela mentira, Valla pensou. Josen a encarou daquela maneira
perscrutadora.
Valla
continuou:
—
Foi um sonho bom... Mas por enquanto irá permanecer assim: um sonho.
A
filha do marceneiro levantou o capuz.
—
Eu estou de volta. Estou de volta e estou pronta para continuar a caçada.
Ela
se voltou para partir.
—
Pra onde você acha que está indo? — Josen perguntou.
—
Para Tristram. Os outros pediram que você enviasse o melhor. A melhor sou eu.
Eu estou de partida e você só tem mais alguns segundos para tentar me deter.
Valla
esperou com as costas voltadas para o mestre dos caçadores. Então ela ergueu a
echarpe... No instante seguinte ela partiu, subindo pelo topo da colina e
desaparecendo de vista em seguida.
Josen
apenas observou. E se houvesse uma testemunha na cena essa pessoa teria visto
algo fora do comum: Algo adejando nos lábios do mestre de caçadores. Algo que
até parecia... Um sorriso.
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