A irmã morta
aparecia ao pôr do sol. Sempre ao pôr do sol.
O céu
sangrava, as sombras se adensavam na noite e ele parava para ver o sol sumir
entre as montanhas. E então o som murmurante da brisa noturna se transformava
no lento arrastar de pés trôpegos. Os pés dela... Frios e brancos, tendões
esgarçados e ossos rachados, machucados pela caminhada de incontáveis
quilômetros por rochas encapadas de gelo. Não importava o quanto Kehr houvesse
viajado naquele dia, quantos rios tivesse atravessado, quantos penhascos
tivesse escalado. Ela aparecia ao pôr do sol.
O homem alto
e forte se ocupou em acender a fogueira enquanto o ruído dos passos dela ficava
mais próximo. A madeira se tornava mais abundante à medida que ele se
aproximava da Mata Sharval, e Kehr tentou se confortar com o pensamento de
comida quente depois de semanas de carne seca. Não era nada muito animador,
como ele bem sabia. Os passos claudicantes sempre traziam consigo um calafrio
insidioso, uma sensação fluida de gelo e horror que o cercava e parecia molhar
sua pele. Os passos pararam nas trevas, antes de chegar à luz da fogueira.
Kehr não
queria olhar para o alto, não queria ter que lidar com ela. Mas ela não iria
embora até que ele o fizesse. O homem esperou até o fogo ficar mais forte e
brilhante, e então se endireitou. Ele suspirou pesadamente no ar frio do
crepúsculo e disse:
— Diga as
palavras, Faen. Diga e vá embora.
Ela deu um
passo lento em direção à luz, depois mais outro. Kehr olhou para as chamas e
passou a mão na cicatriz do próprio peito. Mais um passo e ela se postou diante
dele. Uma tora de madeira se moveu, estalou e cuspiu faíscas para o alto. Kehr
se forçou a seguir as faíscas com os olhos, erguendo a vista do fogo e passando
a encarar aquela coisa que já fora sua irmã. Ele devia-lhe aquilo.
O calor já aquecia sua carne pálida, e o cheiro repelente de
corrupção ficou mais forte. Seguir o irmão por tantas semanas causara muitos
danos ao corpo cinzento e cambaleante de Faen, e Kehr mal a reconhecia.
Os olhos
dela eram poços negros, sombras fundas no lugar do azul celeste de que ele
lembrava. Tudo o que restara das tranças douradas da irmã pendia-lhe do crânio
em massas empastadas cinzentas, e o peso de um dos torrões estava soltando a
pele da face. Kehr olhou e viu a carne amarelenta se rasgando, deixando cair o
tecido podre e os cabelos no chão com um baque úmido. Os membros raquíticos da
irmã tremiam ao vento, pontas esqueléticas marcadas na pele que parecia um
pergaminho molhado. Kehr se perguntou se Faen ainda sentia alguma coisa. Ela se
inclinou para adiante e apontou para o peito dele com um dedo ossudo e trêmulo.
— Kehr. Kehr
Odwyll.
Como ela
conseguia falar com a boca arruinada, com a mandíbula caída, a língua negra tão
inchada e dura que chegava a empurrar a bochecha dilacerada? Como ela podia
estar ali, tremendo com fúria mórbida, depois de ter ficado enterrada ao pé do
monte Arreat por tantos anos? Kehr sabia que não deveria ter retornado que não
havia perdão para ele nestas terras convulsas. Ele não conseguira encontrar o
caminho para os penhascos silvestres do seu povo e passara longos dias vagando
sem rumo por colinas estranhas e retorcidas. O vale da tribo do Cervo já fora
um lugar familiar e verdejante. Agora tudo mudara. Tudo se perdera.
Mas Faen o
encontrara. E o seguira enquanto ele fugia.
— Kehr
Odwyll. Traidor. Traidor!
Irmã
O sol da
manhã veio cedo demais, e a fogueira não conseguira afastar o frio dos ossos de
Kehr. Ele saiu de debaixo do grosso pelego de pele de urso e se levantou,
espreguiçando seus dois metros de cicatrizes e músculos. Com o passar dos anos,
Kehr adotara o costume das Ilhas Skovos de rapar o cabelo da cabeça e do rosto
com uma lâmina. Aquilo fazia sentido nas terras quentes, fazia com que ele se
sentisse menos forasteiro. Mas agora o vento frio parecia estranho à sua pele
nua. Apenas algumas semanas sob os céus de inverno bastaram para fazer Kehr
ansiar pela barba indômita e as longas tranças de sua juventude. Ele passou os
dedos ásperos no queixo coberto de pelos duros e se perguntou se Tehra o
reconheceria.
Pensar sobre
sua amante ainda causava um incômodo que lhe corroia o peito. Não era mágoa ou
culpa ou saudades — não exatamente. Era a dor de um erro recoberto por tecido
calejado e remorsos, um erro que jamais seria alterado, que só poderia ser
enterrado mais e mais, num esforço para abafar a dor, ou pelo menos
distanciar-se dela. Kehr sacudiu a cabeça.
A viagem de
volta seria longa. O Golfo de Hespéria ficava além das Montanhas Kohl, ao sul,
e lá Kehr sabia que poderia contornar a península num navio mercante. Os
mercadores sempre estavam dispostos a contratar seguranças para cuidar das
cargas e assim poderem visitar os bordéis pelo caminho. Kehr conhecia os
idiomas dos mercadores de Therat, Lut Gholein e das ilhas. Ele poderia
facilmente convencer um empregador em potencial de que não era um dos
primitivos selvagens das Terras do Pavor, e sim um guerreiro mais civilizado.
Depois disso tudo seria fácil. Ele navegaria por Hespéria e Porto Real e
chegaria a Philios. E lá... Lá ela o aguardava, naquele lugar de colinas ondeantes.
E música alegre; onde havia vinho e carne e risos e braços
mornos e delgados. Lá ele esqueceria seus deveres, o frio e o implacável senso
de remorso.
Por que ele
fora até ali? Para encontrar seu povo? Implorar por perdão? Pois bem, eles o
encontraram. Ou pelo menos Faen o fizera.
Cobrindo os
restos da fogueira com terra, Kehr tentou afastar as lembranças da noite
anterior e se concentrar na jornada vindoura. Os picos das montanhas à frente
eram descomunais, mas eles eram verdejantes, habitados, vivos... Uma mudança
bem-vinda depois das últimas semanas. A mão de Kehr foi até o peito.
Ele disse a
si mesmo que não estava traindo ninguém. Não estava se eximindo do dever, pois
os que vigiavam tais assuntos já haviam partido. Ele estava abandonando uma
terra vazia, que já não tinha direitos sobre ele. Kehr desejara se redimir,
encontrar alguma maneira de dar fim à culpa dolorosa. Mas em vez isso ele só
encontrara o silêncio e uma nova dimensão de desonra que revirava seu estômago
a cada visita de Faen. O mesmo pensamento passava e repassava por sua mente:
ele não estava traindo ninguém. Não dessa vez.
Além da
próxima elevação, Kehr sabia que encontraria a sinuosa trilha de caça que ele
percorrera há dois meses, em sua jornada até ali. Depois, bastaria seguir pelas
estradas maiores que cruzavam o lado norte da serra Kohl até chegar à Trilha de
Ferro.
A Trilha de
Ferro. Uma estrada antiga, vestígio em ruínas de um império perdido que se
estendera dos desertos de Aranoch até o Oceano Glacial. Calçada com grandes
blocos de xisto cor de ferrugem, a Trilha seguia larga e confiável desde os
confins gélidos de Ivgorod, passando pela serra das Montanhas Kohl, até o sopé
ocidental de Khanduras. Outrora uma passagem vital para o comércio e as tropas
imperiais, ela encurtava a jornada por entre as montanhas para semanas, em vez
de meses. Mas o melhor é que a estrada caíra em desuso há muitos séculos, e
agora estava abandonada e quase completamente esquecida. Reis do norte, chefes
e senhores tribais não tinham muito contato com os vizinhos nestes tempos
caóticos. A destruição de Arreat trouxera o medo aos corações das nações
próximas, e a maioria preferira fechar os portões, reforçar as muralhas e
entregar o mundo lá fora à selvageria.
Isso significava que a trilha estaria livre de viajantes e
bandidos. Kehr poderia dar conta deles, mas preferia viajar sozinho. Erguendo
Escárnio, sua enorme espada montante, sobre os ombros, o guerreiro se virou e
partiu em direção às montanhas.
Dez dias de
viagem puxada se seguiram. Dez pores do sol, dez visitas da irmã morta. Um dos
braços dela fora comido por vorazgos, e o crânio, agora pelado, amarelecia. Mas
ainda era Faen. Ainda era a voz dela, ainda a condenação. Ele se perguntou se
algum dia se acostumaria a repulsa, ao horror de sua presença. Ele se perguntou
se deveria.
Kehr se preocupava
imaginando se Faen iria segui-lo pelos Mares Gêmeos e por todo o caminho até
Philios. Uma ideia tomava forma em sua mente, gritando para se fazer ouvir: e
se ele a atacasse? E se ele enfiasse sua poderosa lâmina naquele frágil e
trêmulo corpo, transformando-o numa pilha de ossos estilhaçados e carne podre?
Isso a libertaria do tormento? Será que libertaria ele?
Kehr
prendeu o pelego nos ombros. Não. Ele não poderia fazer isso com a irmã.
Merecia as palavras e o ódio dela. Fizera valer tal distinção.
Afastando
os pensamentos sombrios, o homem encontrou conforto na caminhada puxada e na
terra empurrando-lhe os pés. Quer fosse pelo desejo de abandonar aquelas terras
ou de retornar a um clima mais agradável, ele agora perfazia aquele trecho da
jornada com bastante rapidez. A Trilha de Ferro estava logo à frente, e Kehr
soube que sua velocidade aumentaria ao chegar à estrada pavimentada. Logo tudo
estaria esquecido. Tudo isto estaria no passado, e talvez Faen ficasse por ali,
nos ermos frígidos, no lugar dos mortos.
Kehr
suspirou e tentou pensar em vinho, na luz do sol, no som ritmado de ondas
contra a areia da praia. Seu estômago roncou. Comera o último pedaço de carne
seca há dois dias, e encontrar caça se provou mais difícil do que imaginara. O
guerreiro se concentrara apenas em partir daquele lugar, abandonar seu lar em
ruínas tão rápido quanto pudesse. Mas compreendeu que deveria gastar algum
tempo e esforço procurando comida.
Dali
a um suspiro seus pensamentos foram interrompidos por um grito... E depois,
gritos. Vindos da estrada à frente, atrás das touceiras de vegetação árida que
ladeavam a Trilha de Ferro naquelas baixas altitudes. Kehr se agachou e saiu da
trilha que vinha percorrendo, dando a volta pelas árvores para poder ver
melhor.
Eram, obviamente, refugiados. Homens, mulheres, crianças —
dezenas de camponeses sujos, magros, vestidos em farrapos, carregando os poucos
pertences em cestas, bolsas, até enrolados em lençóis. Assim como Kehr, eles
acharam que a estrada estaria vazia. Mas ao contrário dele, viajavam sem rumo.
Haviam formado uma fila pela estrada, sem pensar nas feras, bandidos ou coisas
ainda piores que poderiam atacá-los. E havia muitas coisas piores que bandidos
nas montanhas próximas.
Kehr sentiu
o cheiro antes de vê-os, e seu estômago embrulhou. Os khazra. Criaturas
deformadas, desgrenhadas, híbridos perversos de homem e bode que costumavam
andar em bandos. Eles eram fortes, musculosos, tinham longos braços cobertos
por tendões emaranhados sob o pelo imundo e grosseiro. Suas pernas se dobravam
para trás em um ângulo bestial e terminavam em negros cascos fendidos. Os
ombros dos khazra eram puro músculo animalesco tensionado, cruzado de veias
sinuosas e terminando em uma hedionda cabeça de bode com olhos de pupilas
negras como fendas e chifres recurvos. Kehr enfrentara tais feras antes —
várias vezes, em suas andanças mais ao sul — e as lembranças tinham gosto de
bile. Os khazra davam na carne o testemunho grotesco das obras demoníacas nos
homens.
Kehr viu um
par de caprinos se aproximando pela estrada com intenções mortíferas enquanto
os refugiados gritavam e corriam. Alguns corpos já se espalhavam pela trilha em
monturos tingidos de vermelho. Mais khazra iam de um cadáver a outro, saqueando
os mortos de suas vestes precárias. Kehr sentiu sua inquietação tornando-se
raiva, mas ele a conteve. Não era sua luta nem seu dever. Apenas retardaria sua
viagem, e não havia muito que ele pudesse fazer. Ele não devia nada aos
andarilhos, tolos que escolheram viajar por uma estrada aberta sem armas. Kehr
não tinha nada o que fazer ali.
Ele estava
prestes a voltar por aonde viera quando viu o lenhador. Vestido em roupas
marrons simples, seu fardo de lenha espalhado pelo pavimento gasto, o pobre
homem atraíra a atenção das feras. Ele se postava em pé sozinho com o machado
simplório levantado enquanto os khazra o cercavam, gargalhando com vozes agudas
e tremidas de bode. Os caprinos estavam armados com piques e lanças rústicas e
se alternavam em cutucar com elas o lenhador sempre que ele lhes virava as
costas. Alguns pontos rubros já se espalhavam por seu corpo. Os outros
refugiados aproveitaram a oportunidade para escapar para as árvores próximas,
abandonando o lenhador ao que parecia ser uma morte demorada e excruciante. Ele
se voltou para revidar uma estocada traiçoeira, e Kehr viu o que ele carregava
no outro braço. Era uma criança.
Vida
Aron já não
tinha esperanças, sem saber se conseguiria manter o machado erguido por mais
tempo, quando um rugido gelou o ar. Os monstros se voltaram balindo surpresos e
uma tempestade trovejante de aço furioso se abateu sobre eles. Cambaleando para
trás, Aron ergueu o machado e apertou a menina mais forte em seu braço, rezando
para que essa nova ameaça lhes concedesse uma morte mais rápida.
Então os
caprinos à sua frente caíram em pedaços, esguichando sangue. Aron viu a nova
ameaça e ficou sem ar.
Era um homem. Um gigante maior
até que os caprinos. Um homem, parado, pingando sangue que fumegava ao ar frio
da manhã. Ele usava um pelego de urso sobre os ombros maciços e suas pernas
estavam cingidas com pedaços desaparelhados de armadura de placa e malha. Botas
pesadas de couro de boi. Peito nu, coberto de cicatrizes. As mãos grossas,
nodosas e ásperas seguravam o cabo de uma arma terrível, tão grande quanto ele.
Três vezes maior do que o machado de Aron, forjada de metal negro furioso e
marcada dos dois lados da lâmina. Uma ferramenta da morte, rude e brutal, que
pairava no alto como uma extensão do braço do homem.
Só poderia ser um bárbaro. Aron ouvira histórias sobre esses
homens em seu vilarejo distante, ao pé das montanhas ao leste. Histórias sobre
gigantes selvagens que protegiam a montanha sagrada e comiam os que ousavam se
aventurar lá perto. Mas o lenhador jamais poderia imaginar que tal força
estupenda pudesse existir em uma criatura mortal. Tamanha agilidade e poder
ferozes ao comando de um homem.
Os khazra
que estavam saqueando os corpos mais para diante largaram os trapos e começaram
a gritar. Colunas de vapor se ergueram de seus dentes amarelos. Mais khazra
apareceram do lado da trilha, e os que perseguiam os últimos refugiados agora
retornavam ao ouvir o chamado. Aron contou oito feras no total, ficando cada
vez mais corajosas ao bradar em uníssono com vozes odiosas, encarando seu alvo
solitário. Eles abaixaram a cabeça, se reuniram num grupo compacto e atacaram.
O bárbaro
respirou entre dentes, mudando a arma de posição para que pudesse estender a
mão para Aron.
— Seu
machado.
Aron
entregou o machado no mesmo instante. Parecia muito frágil naquela mão enorme.
Erguendo a arma até os olhos, o bárbaro pareceu aprová-la:
— Robusto.
Não foi feito para partir gravetos.
Os caprinos
ganhavam velocidade, seus cascos batendo agudamente contra a pedra. O bárbaro
queria conversar sobre machados enquanto a morte se aproximava célere? Que tipo
de louco era aquele?
— É... Quer
dizer, não, não. Era do meu pai — gaguejou Aron. — Ele era da milícia do...
Em um
movimento fluido, o bárbaro ergueu o braço e então arremessou o machado para
frente. Aron viu a arma girar, um borrão de aço que esmigalhou o crânio de um
khazra e foi se enterrar no peito de outro. Uma criatura tombou para diante, a
outra tropeçou na primeira e caiu imóvel. Os monstros restantes se aproximavam
agora mais lentamente, fazendo um semicírculo para cercar o alvo.
Aron foi até
o corpo caído de uma das criaturas, esperando pegar uma lança para tentar
ajudar seu defensor a oferecer resistência antes que eles fossem sobrepujados.
O bárbaro grunhiu e lhe aplicou um chute no quadril, derrubando-o. Aron caiu
protegendo a criança e olhou para trás, amedrontado.
— Fique
abaixado.
Aron se agachou e manteve o braço ao redor de sua protegida.
Ela tinha parado de chorar, o que o preocupava, mas talvez fosse melhor se ela
tivesse desmaiado. Os caprinos tinham-nos cercado e uma espuma vil escorria de
suas bocas. Eles estavam furiosos, e Aron sabia por experiência própria que
esquartejariam suas presas num frenesi sangrento. Kehr trouxe a lâmina mais
perto de si, braços dobrados e prontos, e Aron viu os músculos do bárbaro
pulsando com força latente.
A paciência
dos caprinos acabou e eles atacaram Kehr, bradando alto. Aron olhou para o alto
e viu o defensor fechar os olhos, e então — “pelo Inferno Ardente!” — sorrir. O
bárbaro se inclinou para trás e o sorriso se tornou uma careta de escárnio. Ele
girou o corpo em um arco negro com toda a força na direção dos monstros. Aron
se encolheu ao ouvir a arma pesada assobiando e cortando o ar frio acima da sua
cabeça. Os monstros calcularam mal o alcance daqueles braços mortíferos, e os
quatro mais próximos foram pegos no crescente fatal. Não foi um corte: o golpe obliterou as feras em um
instante, partindo espinhaços, estilhaçando ossos, rasgando a carne e fazendo
sangue borrifar em Aron, enchendo seus ouvidos, nariz, boca e olhos com o
líquido quente e pegajoso. O lenhador limpou o sangue da cara, tossindo. Oito
formas trêmulas e bambas se espalhavam pela estrada. O bárbaro estava com um
joelho encostado no chão, respirando forte, seus braços virados na direção de
onde a lâmina se fincara fundo em um bloco do pavimento. Os dois khazra
restantes, mais inteligentes que os primeiros, tinham esperado que o bárbaro se
virasse para puxar a espada, e agora urravam ao se aproximar de suas costas
expostas.
Aron
tentou gritar, tentou avisar o homem sobre o perigo iminente, mas engasgou com
o sangue coagulado. O bárbaro se agachou e então deu impulso para o alto,
erguendo a espada e a enorme pedra na qual ela se fincara e arremessando a
pedra nas feras que se aproximavam. A rocha esmigalhou os vultos como um
martelo em uma barra de manteiga, achatando-os e rachando com um estrondo alto.
Estilhaços úmidos do tamanho de punhos assobiaram por cima da cabeça de Aron.
E
então... Acabou. Silêncio. O bárbaro se postou triunfante no ar da montanha, um
deus esculpido de sangue, morte e fúria. Aron jamais vira nada tão
aterrorizante e temeu aquela figura imponente. Ficou olhando enquanto o homem
se afastava com a arma nos ombros até certa distância adiante na estrada. Ele
estaria partindo? Não. Kehr se abaixou para recolher o machado ensopado de
sangue do peito do khazra e então retornou. Estendeu ao lenhador o cabo da arma
e acenou com a cabeça.
— A trilha está segura para vocês passarem. Os khazra não
atacam um inimigo mais forte duas vezes. As notícias se espalham rápido entre
eles.
Aron
estendeu a mão para pegar o machado e parou. A trouxinha em seu braço estava
quieta. Quieta e esfriando. Só então ele percebeu a marca úmida e escura onde
uma lança penetrara suas defesas.
Aron baixou
a cabeça.
— Não... Não,
não!
Chorando,
ele a abraçou forte e caiu de joelhos. O bárbaro viu aquilo e achou que havia
entendido a situação:
— Eu o vi
tentando protegê-la, lenhador. Não havia nada mais que você pudesse fazer para
salvar sua filha. — Kehr cuspiu no chão, acenando com a cabeça para os
refugiados retornando timidamente para a estrada. — Você cumpriu com seu dever
de pai.
— Não —
disse Aron, e sua voz fraquejou. — Ela não é minha filha. Eu tentei protegê-la
quando os caprinos atacaram e mataram os pais dela. Ela não é minha filha.
Morte
Kehr
acompanhou os refugiados. Eles imploraram sua proteção, ofereceram comida e
umas poucas peças de prata em troca de sua companhia. O bárbaro aceitara o
pagamento modesto e aceitou escoltá-los sem muitas palavras. No que lhe dizia
respeito, essas pessoas já estavam mortas, ou logo estariam, assim que seus
caminhos se separassem. Ele só estava compartilhando a estrada com eles, mas
lutaria por eles até que a Trilha de Ferro se voltasse na direção de Khanduras.
Será que Faen ainda iria persegui-lo se ele viajasse acompanhado? Ele esperava
que não, mas ainda assim decidiu passar o período do pôr do sol sozinho para
que eles não a ouvissem. Não fazia sentido assustá-los ainda mais. Além disso,
seria um pouco reconfortante caminhar em meio a vozes vivas por um pouco.
Quanto aos viajantes, eles mantinham distância do homem, com medo daquele
acompanhante silencioso, mas temendo se afastar demais dele.
— Você é um
bárbaro, não é?
Era o
lenhador. Kehr perdera o rastro do homem depois que este se afastara para
enterrar a criança desconhecida, e só agora se apercebera de sua aproximação.
Acelerando o passo, Kehr concordou com um grunhido.
— Foi o que
eu pensei. Quem mais poderia brigar em pé de igualdade com aqueles monstros?
Quem mais usaria um arado como se fosse uma adaga? — O lenhador sacudiu a
cabeça, sorrindo.
Kehr franziu
a testa. Talvez ele tivesse se enganado quanto ao conforto de vozes vivas. Já
fazia longas semanas desde que ele trocara palavras com um homem... E o bárbaro
se perguntou se as conversas sempre tinham lhe parecido triviais e vazias. De
qualquer forma, ele se impressionara com a perspicácia do lenhador. Escárnio
fora de fato forjada a partir de um arado. Kehr mexeu os ombros e ouviu as
tiras grossas de couro que seguravam a arma rangendo às suas costas com a
pressão.
O camponês deu alguns passos para frente, tentando ser notado
por Kehr, e disse:
— Eu duvidei
no começo. Por que você não tem a barba grande nem as tranças que as histórias
mencionam...
Kehr limpou
o pigarro.
— Se você
não quiser conversar, eu entendo. Eu só queria agradecer.
Curvando a
cabeça num cumprimento, ele deixou que Kehr o ultrapassasse. Kehr prosseguiu,
embora notasse que, mesmo contra sua vontade, tinha ficado intrigado com o
lenhador. Eis ali um homem que se postara firme para defender a filha de um
estranho quando outros tinham fugido um homem que viera expressar gratidão
quando outros tinham se afastado com medo. Tal fibra era rara, especialmente
entre o povo comum. Kehr se voltou para ver se o lenhador havia se afastado, e
se surpreendeu ao vê-lo a apenas alguns passos atrás.
— Você pisa
leve, lenhador. Aprendeu isso caçando árvores?
O homem riu.
Um som surpreendentemente caloroso naquele lugar.
— Não havia
desses khazra nas florestas quando eu era criança, mas ainda assim não era bom
fazer muito barulho. É difícil catar lenha fugindo de um urso.
Kehr
concordou com a cabeça. Era uma boa explicação, mas havia algo mais na história
que o lenhador não estava contando. “Todos têm segredos”, pensou o bárbaro, e
deixou o assunto morrer.
— É a
primeira vez que você vê caprinos?
— Eu já
tinha visto antes, mas não tantos. Nos últimos dois anos eles têm aparecido,
caçando em grupos de três ou quatro, geralmente em lugares mais altos, onde os
cascos deles os ajudam a se mover mais rápido. Nós os olhávamos com
desconfiança, mas eles pareciam evitar pessoas armadas aqui mais perto do chão.
Mas agora... Eles estão por toda a parte ao longo das montanhas Kohl, dos picos
até os sopés.
Aron apertou
o cabo do machado. Kehr notou que pensamentos sinistros passavam pelos olhos do
lenhador, que disse:
— Eles... Pareciam estar organizados. Nunca tinham
demonstrado coordenação nem iniciativa, mas então começaram a atacar vilarejos
mais remotos. Há sete dias eu esbarrei com um bando deles subindo o vale em
direção à nossa cidade, Duns Mott. Consegui avisar as pessoas e nós fugimos ao
pôr do sol, levando conosco o que foi possível pegar às pressas. Seguindo pela
Trilha de Ferro, nós nos juntamos a outros, todos contando a mesma história.
O lenhador
fez um gesto com o braço, abarcando a caravana trôpega que os seguia, e
mostrou:
— Nós somos
os primeiros. Isso aqui vai virar uma fila sem fim de refugiados procurando
proteção, se algo não for feito para deter os ataques.
A afirmação
fez Kehr pensar.
— Nada será
feito para combater os khazra, lenhador. Estas montanhas são terras de
fronteira. Nenhum rei as governa nem protege. Faça seu povo sair das montanhas
Kohl para um ligar seguro. E fique por lá.
O homem
menor caminhou mais devagar enquanto considerava o que Kehr dissera, e então
deu um sorriso amargo. Ele pareceu ter chegado a alguma decisão, e em seguida
estendeu a mão para Kehr.
— Nós somos
um povo rústico das montanhas, mas isso não quer dizer que somos idiotas. Nossa
intenção é seguir pela estrada e então descer até as terras baixas de
Hespéria... Lá nós vamos começar de novo... Eu acho. Meu nome é Aron.
O lenhador
manteve a mão estendida até que Kehr finalmente grunhiu e a tomou em seu punho
encaliçado. O bárbaro sacudiu a mão de forma automática e a soltou.
— Eu sou
Kehr Odwyll, último membro da tribo do Cervo.
— Último?
— Meu povo
já não existe. Arreat os levou em sua fúria.
— Eu... Eu
sinto muito. Não consigo imaginar perda maior que ser separado do próprio povo.
É por isso que, não importa os perigos que eu enfrente, eu sempre seguirei com
eles. — Aron apontou para os refugiados.
Kehr e o
lenhador deram mais alguns passos.
— Mas — indagou Aron — como você sobreviveu à destruição? As
notícias da destruição da montanha chegaram até mesmo ao meu humilde vilarejo.
Que milagre preservou sua vida?
Kehr não
respondeu. Ele fixou a mirada na Trilha de Ferro e apressou o passo até
ultrapassar Aron. “Todos têm segredos”, o bárbaro pensou, e deixou o assunto
morrer.
O sol descia
no céu e a caravana maltrapilha atrás de Kehr logo montaria acampamento para
passar a noite. Os aldeões estavam bem afastados dele, mas ainda assim o
bárbaro subiu as rochas mais distantes da estrada. Talvez tanta precaução não
fosse necessária... Mas era melhor se garantir.
Faen
apareceu naquela noite. Sua mandíbula se perdera na viagem, deixando a língua
negra e úmida pendurada contra a carne fibrosa da garganta. Mas as palavras
eram as mesmas. Kehr esperara que viajar com aquelas pessoas a mantivesse
afastada. Que proteger a vida delas pudesse redimi-lo aos olhos da irmã. E ele
também ousara desejar que ela só existisse em sua mente, que fosse somente o
resultado de sua culpa pustulenta. Mas o calafrio subindo por seus braços e
ombros era fluido e gelado. Era real. O calor gélido da fúria não apaziguada de
Raen ainda queimava.
Kehr
percebeu que teria que passar as noites da jornada longe de Aron e de seu povo.
Traidor
Kehr se
enganara a respeito dos caprinos. Ele conteve outros dois ataques na manhã
seguinte, e mais três refugiados morreram na carnificina. Sete khazra decoravam
a Trilha de Ferro com seus cadáveres, e Aron começou a se preocupar com quantos
chifres recurvos ele teria que se haver até chegar a Hespéria. Os khazra
tentavam surtidas rápidas sempre que o bárbaro se afastava demais do grupo.
Com seus
temores aumentados, os aldeões agora caminhavam aglomerados e a apenas dez
passos do protetor. Aron seguiu a pequena caravana de vinte pessoas, machado na
mão e a postos, e alguns dos homens mais robustos haviam pegado armas das feras
mortas. Essa formação se mostrou eficaz contra os monstros covardes, e não
houve mais ataques aquele dia.
Kehr ajudou
os refugiados a erguer um acampamento defensável, e então — apesar dos
protestos — saiu de perto deles enquanto o sol descia lento atrás dos picos
ocidentais. O bárbaro alegou desejar fazer o reconhecimento das colinas
próximas para identificar possíveis pontos para ataques no dia seguinte.
Aron sabia
que Kehr estava mentindo, e viu medo na face do bárbaro.
Mas Kehr
retornou pouco depois de escurecer, para o alívio dos refugiados. Aron percebeu
que qualquer coisa de sinistro acontecera. O bárbaro trouxera uma friagem junto
a si, um calafrio palpável que mordia mais fundo que o ar da montanha. Como se
o sol tivesse levado consigo o calor e a vida de Kehr Odyll, arrastando-os
consigo ao tombar por trás das montanhas Kohl. O lenhador achou mais prudente
ficar quieto perto do homenzarrão.
Aron deu ao bárbaro uma boa porção da comida que os aldeões
levavam. A viúva enfezada do prefeito separara a comida de Kehr, sob os olhos
dos refugiados famintos. O bárbaro aceitou sem questionar, e começou a comer em
silêncio. Aron se perguntou qual teria sido a última vez que o bárbaro comera,
e se as frutinhas e caça pequena que a caravana coletava pela estrada seriam
suficientes para saciar Kehr e permitir aos refugiados chegar a Hespéria antes
da inanição.
Aron falara
com a viúva, uma senhora de expressão avara chamada Seytha, quando Kehr se
afastara ao anoitecer. Ele lhe dissera que o bárbaro não estava tentando
prejudicá-los intencionalmente. Ele só não estava acostumado a viajar com
pessoas tão dependentes e despreparadas. Apesar de seus modos taciturnos, Kehr
estava comprometido a fazer com que os aldeões chegassem ao fim da viagem. A
mulher não se deixou convencer e apenas encarou o espaço atrás de Aron, na
direção da trilha.
O lenhador
montou guarda aquela noite com Daln, que cuidava dos porcos. Armado com uma pá
torta, o velho provara ser mais durão e corajoso do que muitos jovens. Daln
gaguejava e parecia estar sempre pasmo. Depois de viver sessenta anos na mesma
área em Duns Mott, essa jornada se mostrava atribulada e incompreensível para
ele. Não houve ataques àquela noite, nenhum sinal dos caprinos pela primeira
vez desde que os aldeões abandonaram suas casas. Daln perguntou, gaguejando, o
que o bárbaro fora fazer quando anoiteceu que parecia ter assustado os
monstros. Ele perguntou se Kehr invocara algum deus frio das Terras do Pavor
para proteger os refugiados. Aron disse ao velho que calasse a boca e pusesse
os olhos na estrada. “Não se questiona os galhos de um carvalho caído. Nós os
coletamos apenas, e ficamos gratos.”
Os dias se
sucederam e uma semana se passou. Os ataques diminuíram, mas não cessaram de
todo. Aron via os perseguidores da caravana, geralmente um par de batedores
seguindo pelos picos dos lados da estrada. Ocasionalmente outros dois khazra
apareciam, e então, encorajados, sequer se esforçavam para permanecer ocultos.
Para Aron aquilo era quase tão exasperante quanto os ataques diretos: a
presença constante de silhuetas bestiais recortadas contra a serra, o som de
cascos na rocha, o vento carregando os balidos odiosos pela trilha como um vago
cheiro de carne estragada.
O
comportamento de Kehr melhorou à medida que a Trilha de Ferro iniciou sua longa
descida até os sopés das montanhas, e Aron percebeu que o bárbaro estava mais
aberto a conversas, contanto que o lenhador fosse breve... E fizesse poucas perguntas.
Kehr parecia encontrar algum conforto falando sobre seu povo, e Aron aprendeu
sobre a tribo do Cervo, sobre sua vigília, o dever sagrado de proteger Arreat.
Ele também soube como a vigília era a razão de ser da tribo de Kehr, como ela
reforçava a conexão deles.
Com os animais da montanha. Era uma aliança partilhada por
todas as tribos bárbaras, a fonte de sua força espiritual.
Em troca,
Kehr aprendeu sobre a vida do lenhador na rústica aldeia de Duns Mott. Aron e
seu irmão foram criados pelo pai depois que sua mãe sucumbira a uma doença. O
pai de Aron, um miliciano veterano, não conhecia nada além da vida militar, e
treinara os filhos para ser soldados. Era uma vida dura. Tão dura que o irmão
de Aron fugira para o norte, para Ivgorod, para estudar com os monges, e eles
nunca mais souberam dele. O pai morrera pouco depois, deixando para Aron uma
cabana humilde nas montanhas e um machado gasto. Aron agradecia pelo velho não
ter vivido suficiente para ver sua amada Duns Mott cercada e saqueada por
aquelas feras imundas. Uma pequena bênção, uma kaelseff. Aron
frequentemente usava palavras da língua antiga. Kehr fazia pouco do que
considerava uma afetação, aquela “reverência simplória por palavras de uma
língua morta.” Aron não se ofendia, e sorria apenas.
—
Nomes têm poder, Kehr Odwyll — Aron dizia. — Eles têm poder sobre nós.
Kehr
grunhiu qualquer coisa e cobriu o peito com o pelego de urso.
A
viagem já transcorria sem ataques há vários dias, e o moral estava melhorando.
Os batedores khazra ainda os seguiam à distância, mas todos tinham se
acostumado à presença deles e ansiavam por deixá-los para trás de vez agora que
Hespéria estava mais perto. Kehr calculou mais dois dias até a caravana sair
das montanhas. Aron rezava para que a coleta de comida fosse mais farta quando
chegassem às terras baixas. Ele e alguns dos homens e mulheres mais fortes
agora davam sua parte da ração para o bárbaro. As reservas estavam quase no
fim.
O
estômago do lenhador roncava quando Kehr se aproximou e deu o sinal da parada.
Aron se apoiou cansado em um rochedo do lado da estrada enquanto os outros
corriam para erguer o acampamento. Ele notou que apenas as pessoas que tinham
se alimentado demonstravam energia: os jovens, os velhos, os feridos... E o
bárbaro. Aron sabia que devia falar com Kehr, ver se seria capaz de fazê-lo
compreender como as coisas vinham sendo racionadas. Ele decidiu abordar o
assunto naquela noite quando o bárbaro voltasse do seu afastamento noturno.
De
olhos fixos no sol que se punha, com a boca fechada num ricto sinistro, Kehr
tinha os pensamentos bem longe dali. Ele terminou a refeição sem dizer palavra
e então partiu em sua jornada noturna em
Direção ao poente. Mesmo depois de um dia inteiro de viagem,
ainda havia energia nas longas passadas do bárbaro, que homem nenhum devia
seguir.
Aron não
teria forças para ir atrás de Kehr nem se quisesse. Sentindo a cabeça zonza de
fome, ele se assustou quando uma voz de mulher falou alto às suas costas.
— Kehr
Odwyll! Se você cruzar com um dos khazra, por favor, traga-o consigo. Alguns de
nós perecemos de fome e não recusaríamos comer as partes de bode, para ter
forças e continuar a caminhada!
O bárbaro
parou. Aron se voltou para ver quem diria tal coisa. Era a fome que fazia as
pessoas dizerem coisas impensadas. Era Seytha, que servira comida a Kehr das
reservas da caravana toda noite. Ela estava com as mãos nos quadris, sua
coragem agora fraquejando, os olhos úmidos brilhando.
Kehr estava
de costas para os refugiados, que haviam quedado imóveis. Sua voz ecoou pelas
paredes do desfiladeiro.
— O povo de Duns
Mott se arrepende de ter pedido meus serviços?
Aron saiu
apressado em direção ao bárbaro, com os braços abertos.
— Não, Kehr!
Ela não quis dizer...
Mas Seytha
falou outra vez, e estava claro que ela remoera aquelas palavras o dia todo:
— Nós
passamos fome à sua sombra, bárbaro. Que importa se morremos pela lâmina de um
caprino ou pela fome?
Aron ouviu
murmúrios zangados de concordância, o som de pessoas cansadas e famintas...
Percebeu angustiado que as reclamações se acumulavam contra o protetor. O
lenhador se voltou e os encarou, tentando conter a situação antes que ela
piorasse.
— A jornada
foi difícil para todos nós, Seytha. A comida tem que ir para Kehr porque ele
precisa de força para enfrentar os monstros. Assim que sairmos das montanhas
nós vamos poder caçar e...
— Nós não
sobreviveremos mais dois dias se não encontrarmos o que comer! — O tom da voz de
Seytha cortou o ar como uma faca. Logo mais vozes se uniram em protesto. Daln
apontou a pá para o bárbaro, que agora encarava o grupo.
— P-p-por q-que ele não t-traz nada dessas sa-sa-saídas
noturnas? — perguntou o velho. — Nós d-damos comida e ele s-s-sai p-p-por aí
quando bem q-quer. O dever d-dele é nos ma-manter vivos!
Aron
estivera observando a resposta de Kehr à multidão irada. Ele permanecia
impassível como se esculpido em pedra, mas a palavra dever o moveu. Aron viu os
músculos no pescoço e na mandíbula do bárbaro se contraindo, a respiração
subindo em nuvens, prenunciando algum perigo. Kehr se voltou para o lenhador e
vociferou, com uma voz que queimava feito brasa:
— Eu já
servi a sultões, lordes guerreiros e príncipes mercadores por todas as ilhas do
sul. Jamais me bati por tão pouco como agora. — Kehr cuspiu no chão. — Vocês
deveriam ter morrido nas montanhas, e morrerão com certeza quando chegarem às
terras baixas. Hespéria está cheia de khazra e de coisas piores. Eu deveria ter
deixado vocês na Trilha de Ferro. Teria sido um ato de misericórdia.
Desesperado,
Aron abriu os braços.
— Por favor,
Kehr. Perdoe a insensatez deles. Eles estão com medo e com fome e não sabem o
que dizem. Não nos abandone!
O bárbaro
parou por um momento e pousou os olhos no lenhador.
— Você
viverá se abandoná-los, Aron. Você tem o que é preciso para sobreviver à
jornada. Mas se você ficar, você morrerá com eles.
Então o
bárbaro se afastou à luz fenecente, acompanhado pelos pedidos e lamentos dos
refugiados. Aron se voltou para seu povo e pousou o machado nos ombros. Ele
jamais o sentira tão pesado.
Irmão
Kehr
caminhou até não poder mais ver, sentir nem ouvir a presença daqueles aldeões
patéticos. O sangue do bárbaro fervia de raiva; os nós dos dedos em seus punhos
fechados estavam lívidos. Aqueles tolos! Será que não sabiam que ele detinha
suas vidas nas mãos? Será que não percebiam o quanto haviam atrasado Kehr em
sua jornada, custando-lhe dias de viagem por uns míseros nacos de pão duro?
Como eles ousavam?
O sol desceu
lentamente por detrás das montanhas e a fúria do bárbaro se encobriu de
frustração. Rugindo, ele sacou Escárnio e, segurando-a com as duas mãos, a
atirou na escuridão.
— Venha,
irmã! Venha me falar de minha traição! Venha com sua língua negra e diga para
mim o que eu sou!
Kehr caiu de
joelhos e as sombras o cercaram. Fechou os olhos e ouviu os passos se
aproximando. Sua irmã viria, quer ele estivesse protegendo aldeões imbecis ou
não. “De que adianta...” O fôlego de Kehr ficou preso na garganta.
O som era o
de passos — mas eram muitos passos, batendo agudamente na Trilha de Ferro.
— Eu não sou
sua irmã, mas direi o que você é — disse uma voz grave e áspera. Balindo. — Você é um
tolo, uma presa e sim, um traidor.
Kehr
se ergueu e foi derrubado. O bárbaro rolou e tentou se erguer, mas vários
caprinos o seguraram com força. Jogou dois deles para longe, mas foi atingido
pelas costas e perdeu a sensação nas pernas. Mais khazra caíram em cima dele e
tudo começou a escurecer.
—
Chega! Prendam o homem. Tragam-no aqui!
Kehr ouviu barulho de correntes e sentiu algemas frias
apertando forte seus pulsos e cortando sua pele. Foi chutado, mordido e erguido
com brutalidade. Uma costela estalou. Sangue escorreu por suas costas e braços.
Os sons, a dor, a raiva, tudo parecia vir de muito longe.
— Essa
estrada é nossa. Você abandonou suas ovelhas tarde demais, bárbaro.
Kehr ergueu
a cabeça, piscou para desanuviar os olhos e viu. Diante dele se postava um
khazra monstruoso, duas vezes maior do que o maior caprino que ele já vira. A
despeito da névoa de sangue e dor, Kehr ficou surpreso. Aquela criatura
horrenda era uma abominação até para os padrões dos khazra. A fera tinha ombros
maciços terminando em braços grossos que arrastavam os nós dos dedos no chão. A
pele era cinza-violácea, marcada por letras e runas sinistras que se estorciam
sobre a carne torturada como se estivessem vivas. Em vez de dois chifres recurvos,
quatro chifres brotavam do crânio nodoso, espraiando-se para frente como
gavinhas grossas de madeira num arco suave ao redor da mandíbula protuberante.
Os chifres eram pesados, cingidos de ferro e esculpidos com as mesmas marcas
que decoravam a pele. O denso pelo negro, empastado de sangue e riscado com
tinturas grosseiras de verde e marrom, recobria as pernas até os cascos de
ébano fendido, adornado com pregos ásperos. O monstro ergueu a cabeça e baliu,
rindo. Kehr se contorceu ao ver mamilos simiescos pendurados feito peixe seco,
perfurados com anéis de cobre bruto. Era uma fêmea.
A khazra
estendeu o braço, passando os dedos grosseiros pela cabeça do bárbaro, por sua
face e seu pescoço com ternura desajeitada. Kehr engasgou, repugnado. Ela riu
seus dedos agora passando pela cicatriz no peito dele.
— Eu não sou
a única marcada com palavras divinas, hein? — Ela falava em tons fétidos que
coagulavam ao redor dele em uma névoa azeda. A matriarca seguiu com o dedo as
linhas traçadas sobre o coração do bárbaro, marcas que ele mantinha escondidas
sob o manto.
— Hah! Você
não sabe ler? — prosseguiu a fera, dando um passo para trás e levantando os
braços para mostrar as cicatrizes vibrantes. — As minhas palavras me dão fogo e
poder... São a dádiva do mestre para mim. Ele me ordenou que tomasse essa
estrada. Ele escreveu essas palavras na minha carne e me fez rainha! Mas você?
Essas são suas marcas? Ha! Ha!
Nas sombras crescentes, Kehr viu que as marcas da matriarca
de fato brilhavam fracamente com uma luz arcana, um brilho violeta que dançava
fora de seu campo de visão borrado. Ela se aproximou de um dos caprinos atrás
dele.
— Traga os
outros. Não os mate ainda. Eu quero que as ovelhas vejam seu protetor covarde!
Kehr ouviu
um balido curto em resposta e baixou a cabeça. Outros? Os refugiados tinham
sido capturados tão rápido? À pergunta se seguiu a resposta, rápida e brutal.
“É claro que sim.” Ele os abandonara. Outra traição.
Mais e mais
caprinos chegavam. Duas dúzias, três. Todos mostrando obediência à matriarca,
sua rainha vil. Alguns traziam sacrifícios sangrentos, partes irreconhecíveis
de feras e humanos, que ela cheirava e enfiava na boca repleta de dentes ou
jogava fora. O cheiro de imundície e sangue de bode preenchia o ar.
Enquanto
isso, os khazra que seguravam os braços de Kehr o empurraram no chão e o
arrastaram até perto dos cascos rachados da matriarca. Ela se agachou e
acariciou o corpo do bárbaro, sibilando e dando ordens a seus súditos, que
ergueram uma grande fogueira no meio da estrada. A rainha cantarolava
suavemente, e suas unhas duras arranhavam o espinhaço do prisioneiro. Kehr
sentiu novamente o bafio quente na nuca.
— Você... —
sussurrou a rainha. — Você vai servir de montaria por um tempo. Um mascote bárbaro
acorrentado será um belo troféu para a rainha do clã do Osso.
Kehr tentou
cuspir, mas sua boca estava seca.
Houve gritos
à distância, horrivelmente familiares. Ele ouviu a voz de Aron, alta de raiva e
depois de dor. Os khazra abriram caminho e os refugiados foram trazidos.
Estavam aterrorizados. Alguns soluçavam. Coberto de sangue, desarmado e ainda
lutando, Aron era puxado atrás deles por dois caprinos. Um khazra alto, de
chifres negros, obviamente preferido pela matriarca, se aproximou dela. Ele carregava
o machado de Aron.
— Esse aqui.
Ele... Ele lutar. Ele matar alguns de nós. — As palavras do caprino eram
difíceis de entender, a fala lenta e embolada ao tentar usar uma língua
inadequada para os dentes e a mandíbula caprina. Ele não tinha a inteligência
de sua mestra, fosse ela adquirida por magia ou naturalmente.
A matriarca riu.
— Ha! Outro
lobo em meio às ovelhas! Traga-o aqui.
Aron foi
empurrado para frente e caiu de joelhos. Kehr percebeu que o braço do lenhador
estava quebrado e que sangue lhe escorria da boca. O lenhador se levantou
arduamente e seus olhos encontraram os de Kehr.
— O quê? Eu
pensei que você tivesse escapado. Como eles...
— Ha! —
gritou a matriarca, divertida. — Ele começa a duvidar.
Aron
encarava a silhueta monstruosa da rainha khazra, e as palavras dela o fizeram
tremer. Seus olhos se voltaram para Kehr, deitado diante dos cascos dela. Ela
riu novamente.
— Seu
protetor? Seu salvador? Este covarde, ele sabia que vocês estavam condenados.
Ele pegou a comida de vocês e correu quando viu a emboscada que os esperava.
Ele nos viu e jogou a espada fora!
Respirando
com dificuldade, Aron contestou:
— Não! Não,
ele nos protegeu. Ele... Ele matou os...
— Batedores
inúteis — completou a rainha. — Fracotes. Peões que eu enviei para manter vocês
andando. Andando na minha direção.
Ela se
abaixou e acariciou o ombro de Kehr amorosamente.
— Sua fé
fácil nesse traidor é bem coisa da sua raça. Não me admira que essas montanhas
chorem pedindo meu chicote, chorem pedindo para se ver livres desse ratos que
infestam os desfiladeiros. As montanhas imploram para se tornar o trono do clã
do Osso.
Os caprinos
deram vivas, e armas foram erguidas em uníssono. A matriarca sabia como incitar
seu povo.
Aron estava
furioso e esqueceu a própria dor. Aproximou-se de Kehr com as mãos em punhos.
— Foi para
isso que você quase nos matou de fome? Você fingiu honra e coragem para comer
nosso pão e depois correr quando o perigo de verdade chegou?
Aron cuspiu no rosto de Kehr, e à saliva misturava-se sangue.
— Sultões?
Lordes? Você traiu nossa confiança por causa dessa khazra vadia!
A matriarca
gargalhou. Kerh forçou-se a sentar ereto.
— Não.
Lenhador. Aron. Eu protegi vocês... Eu não sabia disso...
A rainha
puxou Kerh pelos pulsos e o trouxe para junto de seus cascos antes que ele
terminasse a frase. Suas tatuagens místicas brilharam com luz malévola,
enviando força arcana para os braços hipertrofiados de músculos. O bárbaro
engasgou ao ser erguido no ar, braços esticados para os lados, as longas
correntes penduradas dos grilhões como correias de metal.
— Olhe bem,
homenzinho. Seu protetor está marcado! Ha! Seus montanheses ignorantes tinham
um aviso claro escrito no peito dele e não viram! Ele está marcado como
traidor!
Aron apertou
os olhos. O lenhador tremia de raiva.
— Me mate se
quiser, khazra. Mas eu quero o sangue desse traidor.
A gargalhada
da matriarca tornou-se um uivo, e os outros khazra se uniram a elam dando
risadas submissas.
— Sim! Sim!
Mate o bárbaro, homenzinho. Mate-o e quem sabe eu permita que você espalhe a
fama dos khazra do clã do Osso pelas terras baixas.
— Gherbek! —
A rainha chamou seu caprino favorito. — Devolva o machado do lenhador. Ele vai
cortar alguns galhos para nós.
O khazra
estendeu a arma, dizendo:
— Aqui tem
algo para você, verme.
Aron pegou o
machado com a mão boa e o usou como bengala, indo na direção do bárbaro. Kehr
viu que ele estava gravemente ferido. O sangue do lenhador escorria pelo cabo e
pela lâmina do machado, deixando poças rubras atrás de si. A matriarca abaixou
Kehr, aproximando-o de Aron como se oferecesse um brinquedo a uma criança.
Trêmulo, Aron ergueu o machado e tocou o peito do bárbaro com a lâmina.
— Essa cicatriz — Aron urrou para Kerh. — Você foi marcado
como traidor? Diga a verdade, bárbaro. Diga a verdade apenas desta vez.
Kehr abaixou
a cabeça. Sua voz estava grave e pesada de vergonha.
— Sim. Eu
abandonei meu povo enquanto eles guerreavam com os assoladores de Entsteig. Eu
abandonei meu posto e parti para acompanhar uma mulher, a filha de um caixeiro
viajante. Eu sou um traidor. Um covarde. E o pior... A tribo do Cervo foi
aniquilada junto com a queda de Arreat antes que eu pudesse retornar e implorar
perdão.
Kehr ergueu
o rosto, sua expressão crispada de remorso.
— Eu não
encontrei ninguém vivo lenhador, então eu mesmo me marquei como traidor. Fui eu
quem cortou minha própria carne com uma faca em brasas. Mas eles me
amaldiçoaram por retornar... Rejeitaram minha penitência. Minha irmã morta... Me
assombra todas as noites ao pôr do sol. Eles não me perdoam. Nunca perdoarão.
Eu não mereço o perdão deles.
O bárbaro
fechou os olhos e disse:
— E eu não
peço o seu perdão.
A expressão
de Aron pareceu distante. Ele pareceu escutar palavras pronunciadas há muitos
anos, palavras que soaram duras e verdadeiras, que atravessavam as risadas
animais que ecoavam no ar. Apenas Kehr ouviu sua resposta sussurrada.
— Nomes têm
poder, Kehr Odwyll. Essa bruxa está errada a respeito dos montanheses. Nossos
ancestrais foram os primeiros a criar essas letras antigas que você carrega em
seu peito. — Aron se inclinou para diante e continuou. — Eu conheço sua marca,
bárbaro. Eu a vi desde que você chegou, mas também vi sua coragem. E isso é outro
tipo de verdade.
O lenhador
empurrou o machado, e a lâmina mordeu a pele de Kehr. O bárbaro engasgou.
— Este machado está ungido com meu sangue — disse Aron, numa
voz alta e clara. A matriarca riu surpresa. — E com meu sangue eu altero sua
marca.
A lâmina
riscou uma linha vermelha pelo meio da cicatriz.
— A lâmina
diz que seu nome agora é “irmão”.
A matriarca
chiou e deixou Kehr cair. Ela avançou e deu um forte chute no lenhador, que
saiu rolando por cima da fogueira num arco de sangue e carne rasgada pelo casco
áspero cravejado de pregos. Aron atingiu o chão e lá ficou lutando para se
erguer.
— Tolo! —
gritou a rainha dos caprinos. Ela estava furiosa por sua diversão ter-se
arruinado. — Você acha que consegue entalhar palavras divinas com esse machado
tosco? Acha que tal poder pode ser criado sem um alto custo, sem agonia, sem
pactos sombrios?
Ela se
abaixou, ergueu o bárbaro pelo grilhões e começou a puxar seus braços cada um
para um lado. As runas coloridas em volta dos fortes braços da matriarca se
moveram e dançaram enquanto os músculos de Kehr se esticavam com o esforço
brutal.
— Eu o
despedaçarei feito um pedaço de pão — ela urrou, fazendo o ar vibrar. — E
sufocarei seu povo com os pedaços!
Houve um
estalo quando um osso saiu das juntas, e Kehr grunhiu.
Aron ergueu
a cabeça ensanguentada e disse para o bárbaro torturado:
— Você está
perdoado, Kehr.
Os caprinos
riram. Um deles enfiou uma lança nas costas de Aron. O lenhador quedou imóvel.
Subitamente
um grito agudo e trêmulo de cabra perfurou o céu noturno. Os khazra ficaram em
silêncio. Dezenas de olhos amarelentos se voltaram para a matriarca.
A rainha se
postava trêmula, dentes tortos rilhando, seu fôlego saindo em gemidos
torturados. Abaixou os chifres e enfiou os cascos no chão rachado procurando
apoio, mas já não conseguia afastar mais os braços. A matriarca sibilou
enquanto Kehr começou a juntar os braços, lento, mas inexorável, arrastando os
braços dela junto. Lutando contra ele, a matriarca ergueu o bárbaro ainda mais
alto.
Kehr curvou as mãos e agarrou os dedos que prendiam seus pulsos.
Tarde demais ela tentou soltá-lo, mas agora estava presa.
— Não! —
protestou a matriarca entre dentes, cuspe espumando pelo queixo. — Minha... Minha
força é maior! Você... Não pode... Fazer isso!
Os músculos
dela incharam obscenamente enquanto o bárbaro juntava os braços. Um ombro
estalou e a matriarca atirou a cabeça para trás dando outro grito perfurante. O
bárbaro curvava os braços dela em torno de si em um ângulo doloroso, e ela não
conseguia se libertar daquele abraço tenaz. Os caprinos andavam de um lado a
outro, nervosos, escutando os gritos de sua rainha ficando mais doloridos e
patéticos. Contorcendo-se para se libertar, ela se inclinou para diante... E o
bárbaro tocou o chão com os pés.
Ela era
dele.
Abaixando-se,
Kehr usou o impulso da criatura para levantá-la por cima dos ombros e atirá-la
na fogueira com estrondo. Em pânico, os outros khazra se espalharam berrando
enquanto toras de madeira em chamas caíam ao redor. O bárbaro urrou para o céu
apagado e abriu os braços de uma só vez. Os grilhões arrebentaram e caíram ao
chão, correntes tilintando feito carrilhões quebrados.
Guinchando,
a matriarca levantou-se, cambaleante, uma silhueta negra contra as chamas. O
bárbaro investiu contra ela e pulou no fogo, derrubando o monstro e agarrando-o
pelos chifres tortos. Com um giro cruel, Kehr os arrancou da cabeça da khazra e
os ergueu bem alto, para logo depois os usar como um porrete, espancando a
matriarca ao som de ossos partindo.
A noite
estremeceu enquanto os gritos da matriarca se mesclavam à fumaça com agonia. A
Trilha de Ferro vibrava em harmonia com os golpes de Kehr Odwyll e a antiga
magia ressoava pela serra montanhosa, aceitando a fúria do bárbaro. Aceitando
seu sacrifício.
Demorou
horas até que a fúria do bárbaro se amainasse. O sol se ergueu em dócil
silêncio, banhando os picos de vermelho.
Afastando-se
da pira, Kehr derrubou a massa sangrenta ao chão e observou o trecho manchado
de sangue da Trilha de Ferro. Nenhum khazra permaneceu, nenhum jamais
retornaria. Os refugiados não estavam longe. Kehr os viu reunidos ao redor do
corpo de Aron, imóveis de medo.
— Reúnam toda a comida que conseguirem — disse o bárbaro. —
Nosso destino nos aguarda a dois dias de viagem
Vigília
O sol poente
pintava o vale de Hespéria com cores mornas de outono. Kehr parou de afiar o
machado rústico e se levantou, voltando-se para observar a luz evanescente,
sentindo a brisa do entardecer tocando seus longos cabelos já meio grisalhos
com ternura familiar. Ele contou o tempo em longos suspiros enquanto o sol
descia lentamente por trás da montanha.
Os únicos
sons eram os dos pássaros retornando aos ninhos. Nenhum passo, nenhuma palavra.
O horizonte manteve seu pacto enquanto ele mantinha a vigília.
Mais
pessoas viriam, a interminável fila de refugiados que Aron profetizara,
seguindo pela Trilha de Ferro enquanto forças sombrias se reuniam para tomas as
montanhas Kohl. O clã do Osso enfraquecera, mas havia coisas piores que os
khazra nesses picos. Os aldeões precisavam de um protetor, e as histórias
haviam se espalhado desde Hespéria a Ivgorod sobre o Andarilho de Ferro,
guardião da trilha. Kehr pousou a mão no peito e começou a descer a estrada
outra vez. Os refugiados iriam precisar da proteção de seu irmão novamente.
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